Recentemente um canal de TV de Campo Grande (MS) fez uma reportagem sobre uma pracinha no início da rua Paraná e houve uma grande repercussão na cidade.
Esse logradouro tem um acesso ao Shopping por uma escadinha, construída por uma empreiteira. Em vez de ser uma área de lazer para as famílias da região, onde existem hoje dois grandes prédios de apartamentos, tornou-se um problema.
A praça era frequentada durante a noite toda, sobretudo nos finais de semana, por menores mal educados, oriundos de diversas regiões da cidade. Na presença dos moradores e transeuntes, praticavam sexo livre, fumavam maconha e usavam outras drogas piores, utilizavam o tal do “aguilé”, tudo isso regado a muito álcool, fácil de ser adquirido no supermercado próximo dali. Além disso, o local tornou-se também um campo fértil aos traficantes e interceptores de objetos roubados, que muitas vezes eram a moeda de troca da droga.
A vizinhança passou a viver momentos de angústia e de intranquilidade pela barulheira e malandragem crescendo a cada semana. Os muros das casas e condomínios da redondeza amanheciam pichados e a sujeira (restos de bebidas e outras coisas impublicáveis), tomava conta dos gramados e das calçadas.
A reportagem da TV, que filmou esses jovens em plena ação, serviu de alerta às autoridades, até então omissas e espantou temporariamente esses delinquentes da pracinha. Mas logo eles voltaram. Pouco depois, a praça foi limpa e bem iluminada, o que a vizinhança penhorada agradece.
Ouvi as mais diversas explicações e sugestões para solucionar o problema, aliás de alta gravidade social. Entre as sugestões estava uma de espantosa imbecilidade: para o espanto geral, propunha simplesmente o fechamento da escadinha, elo da necessária ligação entre a parte alta do bairro Santa Fé com o estacionamento e todo o complexo do Shopping abaixo.
É a velha estória do sujeito que para impedir o adultério da esposa que se encontrava com o amante em sua própria sala, tira o sofá de casa, como se essa fosse a solução genial do problema. Os que defendem esta idéia imbecil não perceberam que a escadinha é vital para a circulação das pessoas, trabalhadores e consumidores das lojas e do supermercado. Os funcionários que chegam de ônibus de distantes partes da cidade usam preferencialmente a escada, permitindo um acesso fácil e rápido. Só isso já justifica a real necessidade da manutenção da escada, apesar da depredação que vândalos fazem sempre, pichando seus muros e quebrando as luminárias que a iluminam a noite.
Acredito, a bem da verdade, que essa delinquência de jovens, a maioria deles menores de idade, tem raízes mais profundas e não se resolve com soluções fáceis. Também, não se deve jogar toda a responsabilidade nas autoridades que, evidentemente, não tem condições de resolver questões sociais mais graves.
A questão central está concentrada no desajuste familiar presente em todas as camadas sociais. Não são somente oriundos da periferia, pois alguns jovens que frequentam a pracinha parecem saudáveis, vestem roupas de grife (caras compradas no Shopping). São estudantes e moram por ali mesmo no Santa Fé, um bairro de classe média. Entendo que, nesses casos, trata-se de um problema dos pais que se omitem na educação/formação de seus filhos, necessária para moldar o caráter e ensinar os princípios elementares de cidadania. Ao serem surpreendidos com a transgressão de seus filhos jovens, justificam-se alegando que não conseguem controlar a rebeldia típica da adolescência. Que famílias são essas? Como que um pai, ou uma mãe, não sabe o que seu (sua) filho (a) de 15 ou 17 anos faz numa sexta-feira a noite. Onde eles estão com a cabeça?
Uma medida sócio-educativa, e que bem poderia ser utilizada por aqui, é a pratica existente no município de Fernandópolis, no interior paulista. Lá, os pais de uma adolescente infratora receberam (por incrível que pareça), uma multa da Vara da Infância e da Juventude. Segundo o juiz local, “a multa é para punir os pais por não exercer o pátrio poder”, aliás um crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, artigo 258.
Sei que esta é uma medida polêmica e de difícil aplicação, porém, pode ser uma maneira inicial de coibir a omissão costumeira de pais que não querem enfrentar dentro de suas casas esta terrível situação. Uma desejável parceria entre autoridades judiciais e pais talvez não seja a solução final, mas com certeza seria um bom começo e um recado contundente a quem simplesmente faz de conta que o problema não existe.
É mais fácil tirar o sofá da sala, do que admitir a sua parcela de culpa.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 14 de março de 2010.
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