quinta-feira, 4 de março de 2010

A vida difícil da "arraia miúda" (*)

Na Revolução Francesa, no século XVIII, uma população pobre e marginalizada da sociedade, como trabalhadores braçais, desempregados, prostitutas, mendigos, facilmente manipulados por líderes políticos da época, eram conhecidos como os sans culottes (os sem-calças). Era uma massa desorganizada que agia conforme interesses imediatos e vendia seu apoio a quem lhes oferecesse algumas migalhas. Teria sido aos sans cullotes que Maria Antonieta sugeriu que, na falta de pão, comessem brioches. Mas essa é uma outra história.... por sinal, mal contada. Esses miseráveis, de fato, dirigiram sua fúria e seu ódio à nobreza privilegiada na sociedade francesa da época, derrubando a famosa Bastilha e atacando o palácio de Versalhes, no início da Revolução de 1789.

No século XIX, Marx que se dedicou ao estudo do capital e da sociedade de classes, explicou que uma determinada camada da sociedade não se enquadrava na categoria de classe social e a chamou de lúmpen proletariado. Eram pessoas pertencentes à massa da população marginalizada e pobre que vivia na órbita dos grandes centros urbanos e industriais. Não tinham qualificação profissional e viviam de pequenos e ocasionais serviços, incluindo atividades clandestinas ou aquelas que ninguém fazia (faxineiros, limpadores de fossas e de chaminés, prostitutas, carregadores e outros).

Essa categoria não tinha condições de participar ou desempenhar um papel decisivo na luta de classes e no processo revolucionário de transformação da sociedade.

Conforme Marx, a verdadeira revolução devia ser conduzida pela classe trabalhadora. O lumpesinato, por sua vez, servia, do ponto de vista político, à manobra das lideranças revolucionárias, e oportunistas em muitos casos, e estava sempre pronta a sair às ruas com objetivos também oportunistas para obter benefícios próprios e imediatos. O “partido” que tomava não dependia de coerência ou de ideologia própria, tanto fazia estar do lado dos trabalhadores quanto dos patrões. As teorias de Marx são ainda aceitas por uns, contestadas por outros, mas a sua descrição dessa sociedade marginal é válida até os dias de hoje.

Ainda no século XIX, no período regencial da monarquia brasileira, tornou-se comum encontrar em documentos oficiais a referência a esta população marginalizada e envolvida em manifestações nativistas como grupo de desordeiros, chamados de arraia miúda.

Para a manutenção da política conservadora imperial a grande carga da repressão recaiu sobre essa camada de população. Na província de Mato Grosso, por exemplo, no movimento revolucionário de 1834, quando os nativistas tomaram por três meses o poder, os documentos oficiais foram recheados com essa expressão. Eram soldados subalternos envolvidos em insubordinações, pequenos artesãos, empregados domésticos, desempregados, prostitutas, mendigos e miseráveis de modo em geral. Historicamente, foi sobre eles que se dirigiu a repressão mais brutal do poder constituído.

Os tempos mudaram, e esses episódios e personagens históricos fazem parte dos livros de história, mas que devem ser lidos e analisados para que se tenha uma clara compreensão da sociedade que temos em pleno século XXI.

Hoje existe também uma enorme camada de população pobre e desprotegida, desqualificada profissionalmente, excluída da maioria das políticas públicas mais fundamentais, mas que não pode ser incluída nas categorias explicativas acima. Classificada arbitrariamente como classes D e E, agregam os trabalhadores do mercado informal, os desempregados, moradores de rua, e muitos outros excluídos. Entretanto, essa população é vista com olhos de cobiça em épocas eleitorais, sobretudo porque votam. E, deve ser por isso que existe atualmente um programa chamado Bolsa Família, que a princípio foi pensado para atenuar a pobreza extrema dessa gente.

Permito-me tirar do baú da história a expressão arraia miúda, para definir essa categoria social e entendo que os exemplos estão bem próximos de nós, aqui em Mato Grosso do Sul.

Quando foi privatizada a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, todas as preocupações voltaram-se para a situação aflitiva e delicada dos ferroviários. Mas ninguém se atentou para um volume de pessoas, e de suas famílias, que ficaram “a ver navios ou trens” neste triste episódio.

Foram os carregadores de malas, os vendedores de jornais e revistas, garçons dos bares da estação e dos carros restaurantes, vendedores de chipa e de peixe frito. Enfim, todos os que viviam e se sustentavam gravitando ao redor das estações de trem e da ferrovia.

O que aconteceu com eles?

Quando houve a transferência da tradicional e histórica feira livre para o pátio da ferrovia, não se levou em consideração a quantidade de pessoas que ficaram sem trabalho que gravitavam ao seu redor. Com certeza, muitos não se enquadraram no espaço da nova feira central.

Agora, leio e ouço falar das novidades da nova e moderna Estação Rodoviária de Campo Grande. Concordo que a capital já estava merecendo um melhoramento deste tipo. Mas o que fazer com o desemprego provocado com a mudança do terminal interestadual? São carregadores, maleiros, jornaleiros, garçons, empregados das pequenas lojas e até trabalhadores informais, como vendedores de chipa, de relógios e bugigangas de ocasião, de salgadinhos, garrafas e copinhos de água, etc. Como vão ficar essas famílias? Penso que medidas administrativas e políticas tão necessárias para a modernização da cidade não podem acontecer sem considerar a situação dessa população, a arraia miúda local e desamparada.

Ouço ainda outras medidas de modernização como a transferência do camelódromo (parece que o prefeito voltou atrás); a extinção da “Pedra”, local de venda de carros usados (não vou discutir suas origens e legalidades); a retirada dos carrinhos de lanche da av. Afonso Pena; e, mais recentemente, a retirada de vendedores de coco próximos do Parque das Nações Indígenas. Parece que vai aumentar o contingente de desempregados na cidade e seus problemas serão varridos para debaixo do tapete. A não ser que algum candidato se lembre deles, pelo menos durante alguns poucos meses, neste ano. Ôôôô vida difícil.....

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 21 de fevereiro de 2010.

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