domingo, 14 de março de 2010

Arruda contra mau olhado já era (*)

Por esta nem eu esperava. Até que enfim, temos um corrupto na cadeia. Será por muito tempo? Sei não...

O artista principal deste filme, aliás mais um velho filme B, é o agora presidiário governador Arruda de Brasília, cumprindo prisão preventiva, ressalvado que até o presente momento não foi julgado nem condenado.

Este tal de Arruda, que não é aquele galhinho que se coloca atrás das orelhas contra mau olhado, é “zero e vezeiro” na arte de praticar mutretas. Em 2001, o então senador Arruda foi denunciado por violar o painel do Senado durante o processo de cassação de Luiz Estevão que acabou sendo cassado. Para não ser cassado também, o esperto Arruda renunciou ao seu mandato. Como o eleitor brasileiro não tem memória e em muitos casos é conivente com maracutaias eleitorais, em 2006 o velho Arruda de guerra foi eleito governador de Brasília.

Parece que tudo ia bem para o Arruda, até cruzar o seu caminho um ambicioso e próximo servidor atolado em denúncias de corrupção. Tratava-se de um ex-policial que não tinha perdido a mania de bisbilhotar e gravar conversas alheias. Como a velha história de que “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, o servidor contraventor, para a atenuar suas próprias faltas, utilizou-se da nova moda de premiação delatada e detonou o seu chefe superior.

O que se viu foi um despudor fora do comum, contrariando a máxima de que corrupção não passa recibo, prática usual que tem permitido prevalecer a impunidade. Este funcionário corrupto gravou todas essas transações espúrias e as escancarou em todos os meios de comunicação. Foram cenas explícitas de corrupção, com milhares de reais escondidos em bolsos, em bolsas e, inclusive, em meias. Isso, se já não bastasse a moda da cueca recheada de dólares. Esse dinheiro era uma espécie de mensalão que servia para comprar parlamentares da Câmara Distrital de Brasília, claro, também corruptos. Por isso, Arruda foi preso e tornou-se um fato inédito na política brasileira. Seu vice, Paulo Otávio, renunciou e pelo menos 8 deputados estão na mira da polícia.

A podridão da compra e venda de influências, cargos e etc..., que contaminou vários setores da sociedade, não é privilégio do Distrito Federal. Ela está disseminada em todos os cantos do país, atingindo seus redutos mais remotos. Assim, o enriquecimento ilícito neste país não é novidade para ninguém e significa, infelizmente, sinal de esperteza. Creio que a cadeia não foi feita para esses espertalhões, mas para os miseráveis que roubam uma banana ou uma galinha para saciar a fome.

Pelos exemplos ocorridos pelo Brasil afora, o governador Arruda deve escapar da prisão. Basta lembrar o juiz corrupto conhecido por Lalau, de São Paulo, que fez uma farra com dinheiro público na construção do Tribunal da Justiça do Trabalho na capital paulista. Ou ainda a impunidade que prevaleceu nos mensalões anteriores, no dinheiro escondido na cueca, no dinheiro transportado em malas e maletas. Até agora, nada aconteceu com esses vigaristas, que continuam a iludir os eleitores com discursos de falso moralismo.

A atuação da justiça e da polícia combatendo em Brasília a corrupção dos tubarões (expressão em desuso atualmente), bem que poderia ser repetida em outros estados do país. Seria um belo exemplo para coibir este câncer que vem maculando a nossa política, disseminado pelas instituições no Brasil.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 07 de março de 2010.

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