segunda-feira, 29 de março de 2010

"Há algo de podre no Reino da Dinamarca" (*)

Usando a famosa frase de Hamlet, no texto clássico do velho Shakespeare, que me perdoe, inicio o meu artigo sobre o desastre recente que Campo Grande viveu, em decorrência das pesadas chuvas deste verão: há algo de podre no reino....daqui. Uma tragédia natural, aliás, uma tragédia anunciada colocou em xeque muitos anos de planejamento e de aplicação de uma política de preservação do meio ambiente na capital. Por que se chegou a tal ponto e a tanta destruição?

Retomo aos primeiros pioneiros que escolheram o sítio, depois chamado Campo Grande, para um assentamento de povoamento. Era uma bela região permeada por 33 córregos que foram com o tempo desaparecendo, ou melhor, perdendo a sua visibilidade por canalização, aterros e ruas. Historicamente, portanto, as enchentes sempre fizeram parte do cotidiano de seus habitantes, como ocorria com o córrego existente na rua Maracaju, hoje canalizado. Desse modo, a qualquer hora, a natureza dá o seu troco àqueles que não a respeitam. É o que vem acontecendo recentemente em Campo Grande.

Tudo começou com as fortes chuvas de fins de dezembro passado e parte da rua Ceará, ao lado de um viaduto, começou a ir literalmente pro brejo. Era, com certeza, um problema presumível e um grito de alerta e revolta do córrego Prosa. A pergunta que não pode calar: por que isso ocorreu somente após a construção de 4 altos prédios na margem de suas águas, numa área de mata relativamente bem preservada e altamente valorizada?

De início, tentou-se minimizar esses trágicos acontecimentos, mas a chuva continuou teimosamente e, em 27 de fevereiro veio uma assustadora tromba d água.

Aí foi o ponto final, desnudando a problemática política ambiental e o plano diretor da cidade agora colocado em questionamento. No início da década de 90, foi elaborada uma carta geotécnica, resultado de um amplo debate entre técnicos e universidades, alertando sobre a fragilidade do solo das regiões leste e norte da cidade, então alvos de uma agressiva expansão populacional e imobiliária. Como o plano diretor não levou em consideração este importante alerta técnico? Ainda querem culpar São Pedro pelos estragos provocados por essas violentas chuvas.

Com isso, ambientalistas, urbanistas e até o Ministério Público têm manifestado uma necessária modificação na lei de ordenamento e de uso do solo urbano para salvar as bacias do Prosa e do Sóter. Segundo informações, em face de toda esta repercussão, técnicos da prefeitura já estão desenvolvendo estudos para mudar a lei de uso do solo. É aquela velha história de colocar uma tranca depois da porta arrombada. Entretanto, nunca é tarde para as medidas de prevenção e de preservação ambiental.

O pior foi o dinheiro público, diga-se de passagem uma dinheirama, que escoou pelo ralo com a destruição das primeiras obras de contenção das enchentes nesta região. Agora está previsto mais um gasto de 30 milhões para as obras em frente ao Shopping, na rua Ceará e também para corrigir os estragos feitos num antigo condomínio da região. O que parece engraçado, se não fosse trágico, está no fato de que para corrigir os primeiros estragos, antes da tromba d água, foi gasto pela prefeitura R$ 1,5 milhão em consultoria e planejamento da obra, que demonstrou na prática ser um tremendo fiasco.

Sei que o assunto é indigesto em época de eleições, mas os nossos políticos, municipais e estaduais, não podem se fingir de mortos numa grave situação como esta. Que algo está muito errado, isso está e ninguém duvida.

Se não, vamos rezar para não vir outra chuva daquelas.

Valmir Batista Corrêa


(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 28 de março 2010.

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