O céu de Corumbá, com suas cores fortes e brilhantes, rasgado por raios vermelhos e amarelos, amanheceu pálido e cinzento no domingo passado. As lavadeiras que caminham dia a dia até o rio Paraguai, com suas enormes trouxas de roupa à cabeça, andam em passos mais lentos e tristes. Os pescadores em suas toscas pirogas, cercados de flores de camalote, olham as águas mais pensativos que de costume; os que carregam coloridos peixes em varal, sobem as ladeiras de Corumbá também mais lentos e tristes... É a nostalgia de uma gente que perdeu um membro de sua comunidade, aquele que transformava suas angústias e suas vidas em desenhos e cores de rara e especial beleza. Mas não apenas os pescadores; foi Corumbá inteira que perdeu um de seus filhos mais ilustres e o Pantanal, o seu propagandista maior.
Falo do falecimento em Campo Grande (22.11) de José Ramão Pinto de Moraes, o Jorapimo, longe da terra natal que tanto amou, depois de longa enfermidade e sofrimento, numa lamentável conjugação de câncer com problemas renais crônicos que o sugou fisicamente. Nasceu em 1937 e viveu grande parte de sua infância e juventude na cidade de Campinas/SP. Superando dificuldades, autodidata, desde cedo começou a interessar-se pela pintura, sofrendo influências dos mestres clássicos da pintura universal, sem deixar, porém, o seu olhar e o seu coração de voltar-se para o Pantanal. Consolidado como artista plástico, radicou-se definitivamente em Corumbá, a partir de 1974. Até então, já tinha apresentado seus trabalhos em diversas exposições individuais, sendo a primeira em Corumbá, no ano de 1963.
Na sua volta a Corumbá, também expôs a sua produção artística, retratando as belezas cotidianas da cidade e do Pantanal. A partir de então, Jorapimo continuou uma incessante e frenética produção artística, somente interrompida pela fatalidade de suas doenças. Agora, Jorapimo deve estar pintando anjos e cenários pantaneiros celestiais...
Em 1978, entre as comemorações da passagem do Bicentenário de fundação de Corumbá e Ladário, Jorapimo participou, junto com os maiores artistas plásticos do estado ainda unido, de um grande salão de artes, recebendo inclusive uma premiação. Na época, quando o conheci, fiquei encantado com a beleza plástica de suas obras. Porém, estreitei nossa amizade somente dois anos depois, quando fui Secretário Municipal de Educação fazendo uma longa e profícua parceria com o artista. Lembro da sua chegada na Secretaria, com uma proposta de fazer um folder sobre o carnaval, em silk screen.
De fala mansa, andando como que deslizando sobre o solo, com rosto vincado por traços de índio pantaneiro, Jorapimo, com linhas simples e fortes contrastes de cores, e com maestria inigualável, dava golpes de espátula nas telas, gravando para a posteridade camalotes, aves esbeltas ou desengonçadas, jacarés, as águas pantaneiras, o casario do porto, barcos ancorados nas margens do rio e, tudo isso, sem deixar como referência mais importante, como ele mesmo dizia, o homem pantaneiro. Às vezes, fugia de seu tema principal para pintar outras temáticas como cenas dramáticas da guerra com o Paraguai. Tenho em meu acervo pessoal vários quadros de sua autoria, um deles retratando a Retirada da Laguna e outro, uma releitura de uma das batalhas ocorridas nas águas do rio Paraguai.
A sua obra, pela importância extraordinária, extrapolou as dimensões territoriais da sua querida Corumbá. Fez exposições em Campo Grande, Campinas, Cuiabá, São Paulo, Rio Claro, Vitória e, no exterior expôs no Japão, Alemanha, Estados Unidos, Paraguai, Bolívia e Uruguai.
Hoje, suas telas e outros trabalhos em tecidos e diversos materiais estão espalhadas pelo país e pelo mundo tornando impossível quantificá-los, pela vastidão de sua produção. Mesmo assim, o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) desenvolve um projeto de catalogação de sua obra, é claro, do que for possível encontrar entre acervos públicos e particulares.
Velho companheiro de guerra, você vai fazer uma falta danada onde hoje predomina a melancólica mediocridade dos que “se acham” artistas. Digo, falta física, por que seu legado para a cultura sul-mato-grossense é universal e eterno.
Felizmente, grandes artistas como Jorapimo não morrem jamais...
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 29 de novembro de 2009.
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