quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A quem interessar possa... (*)

No mundo contemporâneo a utilização de resultados de pesquisas de opinião é cada vez mais usada para tomada de decisões políticas, econômicas e sociais. Quando contrariam interesses, logo vêm questionamentos sobre a sua metodologia e seus resultados. Com razão, as pesquisas são aceitas quando os resultados são bons e agradáveis. Também são usadas como armas terríveis para manipulação de consciências em época de eleições. Isso porque entre os brasileiros corre o habito de contar vantagem por acertar sempre os seus votos.

O governo, em seus mais diversos níveis, é um dos maiores utilizadores de pesquisas de opinião desde que mostrem resultados positivos de sua administração. Que o diga o governo Lula.

Agora, apareceram duas pesquisas com resultados diferentes e que expõem publicamente um confronto de interesses entre a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), órgão classista de defesa da grande propriedade, e de outro lado, o Incra e o MST. Esta guerra de pesquisas foi motivada pela invasão no interior paulista, por integrantes do MST, de uma grande fazenda de empresa multinacional produtora de laranjas. As “ocupações”, como defendem os integrantes do MST, são práticas antigas da luta em defesa da reforma agrária. Em muitos casos deram bons resultados, além do apoio de segmentos da sociedade brasileira e de partidos políticos.

No caso dessa recente invasão, no entanto, as imagens televisivas de um trator derrubando milhares de árvores produzindo, num país em que muita gente passa fome, foi na verdade um tiro no pé. As imagens criaram um constrangimento aos defensores deste movimento social e à necessidade da reforma agrária como solução para o problema latifundiário brasileiro. Um erro estúpido com possíveis consequências ainda não dimensionadas. Dentro desta avalanche de ações negativas, ainda apareceram notícias de roubos e depredações, verdadeiras ou não. Com isso, o MST entregou de bandeja grandes argumentos aos seus opositores.

Antes desta loucura toda, foi divulgado o Censo Agropecuário de 2006, pelo IBGE, altamente favorável à agricultura familiar, aliás, um argumento favorável e devidamente utilizado pelos defensores da reforma agrária. Segundo esta pesquisa, é a agricultura familiar que produz a maioria dos alimentos consumidos pela população brasileira. O que mais impressiona nesta pesquisa é a informação que a agricultura familiar ocupa apenas 25% das terras agricultáveis. Neste conjunto de informações aparece ainda a liderança na produção de mandioca, feijão, leite, aves e suínos. Não duvido desses resultados alvissareiros, reforçados pelos resultados conhecidos aqui no estado.

Esses resultados, no entanto, são agora questionados por outra pesquisa, agora promovida pela CNA, e encomendada ao Ibope, como uma resposta à ação intempestiva do MST. Segundo foi divulgado, 72,3% das propriedades no universo pesquisado não geram renda com sua produção e somente 37% das famílias ouvidas têm renda de até um salário mínimo. Desses dados impressionantes resulta a conclusão de que parte dos assentados subsiste em extrema pobreza. Além disso, a pesquisa registrou uma alta incidência de 46% de venda de terras recebidas do Incra para terceiros, apesar de sua proibição. Esses são apenas alguns dados retirados da pesquisa divulgada pela CNA/Ibope, aliás, contestados pelo Incra.

É claro que de ambos os lados existem interesses políticos e ideológicos, mas para a sociedade brasileira, que em última instância é quem paga a conta, é preciso mais transparência e seriedade neste delicado assunto. Uma guerra de pesquisa, com certeza, não vai a lugar nenhum. Mas está claro que apenas doar terras não resolve o problema da miséria e de fome de milhões de brasileiros.

É preciso, antes de qualquer coisa, um projeto moderno de distribuição de terras e da qualidade nos investimentos. Creio, portanto, que está para acontecer um grande debate público, por todos os segmentos da sociedade, para mudanças de rumo da reforma agrária brasileira.


Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 01 de novembro de 2009.

Um comentário:

Hélio Márcio disse...

Prezado professor, paz e bem!
Por ventura, em uma de minhas visitas a biblioteca de um municipio vizinho, tomei em minhas mãos um livro seu : Coronéis e bandidos em Mato Grosso. Gostaria de parabeniza-lo pelo mesmo.Tambem sou professor e reconheci uma fonte preciosa de pesquisa e consulta na minha frente. Mas outra coisa me chamou a atenção: somos conterrâneos. Sou nascido em Maracaí também e vim morar em MT, precisamente em Tangará da Serra, nos anos 90, porém minha familia é antiga em Maracai.

Que familia o senhor pertence em Maracaí? Sou neto do Saturnino Gonçalves, dono da Antiga Loja Central.
Um abraço, sucesso e parabéns por seus artigos.