A minha indignação é tamanha, que volto ao assunto do artigo anterior. É sobre a vergonhosa e fascista manifestação de estudantes (não merecem este nome), que agrediram e violentaram moralmente uma jovem de vestido curto dentro das dependências da Universidade Bandeirante, em São Bernardo do Campo (na grande São Paulo). É claro que, pelos acontecimentos posteriores, a garota esperta e com senso de oportunidade está sabendo muito bem se defender e tirar proveito da situação. Não é esta a preocupação deste artigo, pois penso que há coisas mais importantes e cruciais para a nossa sociedade, além de um inconveniente vestido curto, justo e provocante.
A primeira medida do Conselho Universitário da UNIBAN foi o ato imediatista e transloucado de expulsar a vítima do quadro discente, sem punir adequadamente o bando de marginais que praticaram os atos de intolerância e violência, como forma de varrer para baixo do tapete o tão lamentável espetáculo. Como era de se esperar, a repercussão explodiu dentro e fora do país, o que levou o reitor a revogar esta medida covarde.
Mas, entendo que a reversão do ato disciplinar, tomado por uma cúpula administrativa intolerante e autoritária e que, em coletiva à imprensa o vice-reitor fez questão de declarar não ser um recuo da reitoria, não foi tomada pela repercussão negativa perante a opinião pública. O que os fez tremer foi a posição do MEC de pedir explicações sobre a expulsão da aluna e a possibilidade de terem sido feridos os seus direitos humanos. De acordo com a legislação vigente, a punição mais grave aplicada à universidade pode ser o seu descredenciamento e o fechamento da instituição, caso sejam apurados os desvios de atribuições da sua administração, violando direitos constitucionais.
A ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres também entrou no circuito em defesa dos direitos da aluna, encaminhando ofício ao Ministério Público solicitando providências. Olhe só! Até a UNE, que nos últimos anos, lamentavelmente, tornou-se “chapa branca” e apêndice do governo federal, também mostrou a sua cara e partiu em defesa da aluna, repudiando atos de jovens intolerantes e preconceituosos que se dizem universitários.
Esta universidade, fundada em 1994 a partir de pequenas faculdades, está voltada para atender a demanda de jovens egressos da classe C por formação superior, procurando captar alunos com mensalidades que não chegam a R$ 200,00. Pagando baixos salários aos seus professores, enxugando custos que são inerentes à qualidade do ensino superior, como laboratórios, biblioteca e outros setores fundamentais da infraestrutura universitária, as perguntas que ficam são: que qualidade de ensino e capacitação superior estão sendo administradas a esses alunos? Será mais fábrica de diplomas a iludir o sonho de ascensão sócio-econômica da chamada classe média baixa, como tantas outras que existem pelo Brasil afora?
A avaliação do governo federal já colocou a Uniban quase ao nível de insatisfatório, mesmo sendo a 4a maior instituição de ensino superior particular do país. E, com certeza, pelos seus indicadores de avaliação e atitudes de um expressivo grupo de alunos, a Uniban não prima por elevar a qualidade de vida e ações de civilidade e cidadania. Em abril passado, e isso pode ser visto no Youtube, os seus alunos deram um outro exemplo de selvageria durante uma manifestação contra mudanças no sistema de avaliação (aliás, um direito inquestionável), que descambou para o ataque a uma aluna que foi, inclusive, agredida fisicamente. Esta violência como se viu recorrente, mais parece ser característica de uma escola de formação nazi-fascista, nos moldes da S.A. nazista.
O que pouca gente sabe, e impressiona, é o fato da região do ABC paulista, onde está localizada a Uniban, ter sido o celeiro de uma das mais belas páginas da política brasileira contra a ditadura, onde o operariado se organizou num exemplar movimento sindical (que, diga-se de passagem , infelizmente é coisa do passado). Longe desta lição de dignidade, coragem política e cidadania, o ABC está hoje infestado de grupos neo-nazistas, skinheads, punks que manifestam seus preconceitos com violência contra mulheres, negros, homossexuais e tudo aquilo que consideram arbitrariamente inaceitável.
Por outro lado, as reações de uma parcela importante da mídia, incluindo a imprensa internacional, deixam claro que com a evolução política que alcançamos não se tolera manifestações de preconceito e aviltamento de direitos humanos, bem como rejeitamos picaretagem em nome da educação.
Portanto, cabe às universidades, no caso a Uniban, desenvolver entre seus alunos uma política de respeito às adversidades sociais, econômicas, culturais, raciais e também de respeito às opções sexuais. Essa é a tarefa fundamental de uma Universidade: formar bons profissionais, capazes de por em prática os princípios e direitos fundamentais que sustentam uma sociedade democrática, mais justa e solidária.
Caso contrário, algumas escolas irão perder suas mascaras, mostrando sua cara de “caça-níqueis”, escamoteando seus deveres sociais e educacionais, visando somente e especialmente o lucro de suas caixas e, pior de tudo, dando diplomas superiores a gente intolerante e despreparada para viver em paz e harmonia com seus próximos.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 22 de novembro de 2009.
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