Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão. E não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.
(Vladimir Maiakovisk)
Cada ovo de serpente é protegido por uma membrana, onde se desenvolve o embrião de uma outra serpente. Através desta membrana você pode acompanhar a evolução e nascimento desse réptil. É um ovo como tantos outros, aparentemente inofensivo, mas onde germina uma perigosa serpente que pode picar e distribuir o seu veneno.
Aproveitando esta alegoria, o cineasta Ingmar Bergman produziu o seu belíssimo filme “O ovo da serpente”, situando simbolicamente o seu olhar em Berlim, no ano de 1923, num momento após a Primeira Guerra Mundial, do refazer da sociedade alemã destroçada, mas produzindo já os terríveis germens da construção política nazista.
Mesmo vendo a formação de um monstro, como uma serpente ainda dentro do ovo, a sociedade germânica, vivendo arroubos democráticos nesse período entre as duas guerras mundiais, permitiu o crescimento de organizações marcadas pela intolerância e por preconceitos, e o aparecimento de um líder alucinado que galvanizava multidões: Adolf Hitler. Desenhava-se assim, com a tolerância sendo conivente com a intolerância, a etapa de regimes nazi-fascistas que levou o mundo a uma guerra insana com milhões de vítimas.
Esse exemplo histórico mostra que uma sociedade democrática não pode conviver ou permitir manifestações de intolerância política, social, cultural, racial ou religiosa, mesmo que aparentemente possa parecer que se está ferindo os direitos democráticos do cidadão. Pelo contrário, a defesa da sociedade implica em não dar espaços para esses rasgos de intolerância, mesmo que sejam pontuais. São venenos que se alastram escondidos no manto da impunidade de uma sociedade que não quer se envolver, ou finge como é mais cômodo, e não quer encarar situações que incomodam toda a sociedade.
A sociedade brasileira tem sido ferida em diversos momentos por inconcebíveis manifestações de intolerância e nem sempre produz o repúdio que se espera de todos. Parece até que esses atos de violência, por não nos atingir diretamente, também não nos dizem respeito. É, na verdade, um egoísmo que deve ser combatido com solidariedade e humanismo.
Um caso emblemático de violência motivada pela intolerância étnica foi o ato inconsequente e criminoso, ocorrido em Brasília, dos jovens de classe média que atiraram fogo no índio Galdino. Apesar da repercussão internacional, pouco se fez a respeito. Prevaleceu a sensação de impunidade e um gosto amargo na boca. Também, tem aparecido de forma recorrente no noticiário da imprensa agressões gratuitas a professores, de grupos de meninas contra colegas, de grupo neonazistas contra gays, só para citar alguns exemplos de intolerância e violência gratuita.
Porém, o que me assustou como manifestação de intolerância coletiva e fascista foi a triste e deprimente ocorrência que envolveu a estudante do curso de turismo de uma universidade particular do município de São Bernardo do Campo, Geyse Arruda. Filha de uma dona de casa e de um supervisor de serviços, a jovem talvez tenha enterrado com o seu sofrimento seu sonho de um obter um diploma superior pelo crime de ter ido à faculdade com um vestido bem curto.
O caos anárquico que se seguiu com uma turba ensandecida agredindo com violência e moralmente uma jovem sonhadora, choca em especial pelo fato de ter ocorrido dentro de uma universidade, local que subentende ser um espaço para a pluralidade de idéias e a defesa intransigente dos direitos individuais. A garota foi agredida, por rapazes e moças, com palavras de baixo calão, gestos e tentativas de agressões físicas e até sexuais. Ficam as perguntas: que tipo de gente esta universidade vai formar? A impunidade irá acobertar esses filhotes do banditismo fascista? Ou vamos ficar assistindo passíveis o ovo da serpente germinar? Quando a casca se quebrar poderá ser tarde demais.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 15 de novembro de 2009.
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