Curioso é este país chamado Brasil. Em 1904, para combater uma epidemia de bexigas (varíola) que grassava no Rio de Janeiro, foi aprovada uma lei, votada no Congresso e sancionada pelo presidente da república Rodrigues Alves, estabelecendo a obrigatoriedade da vacinação antivaríola. Em todo país, a precariedade sanitária expunha a população, em especial a mais pobre, às mais diversas doenças infecciosas. Na capital federal, por ser uma cidade portuária, além da varíola ocorreram outras epidemias como cólera e peste bubônica. A limpeza sanitária passou a ser prioridade do prefeito Pereira Passos, com o sanitarista Osvaldo Cruz na linha de frente do combate aos focos de mosquitos e na campanha de vacinação. No entanto, a truculência do governo na imposição da vacina provocou uma reação negativa da população, inclusive com manipulação política da oposição, que chegou inclusive a propor uma “Liga contra a Vacina Obrigatória”. O resultado desta confusão veio imediatamente. Durante mais de uma semana as ruas do Rio de Janeiro ficaram convulsionadas, com pessoas feridas e mortas, bondes incendiados, barricadas, lojas depredadas e saqueadas. Esta agitação ficou conhecida na história do Brasil como a Revolta da Vacina. Tal como o Rio de Janeiro, outras cidades portuárias como Corumbá sofreram epidemias que martirizaram a população local. Porém, não houve por parte da população corumbaense reações adversas à vacinação ou às medidas de profilaxia improvisadas e determinadas pelo poder público. Aliás, o maior problema dos habitantes de Corumbá era exatamente a total ausência de política sanitária, de infraestrutura de saneamento básico e de informação sobre contágios e riscos de doenças. Assim, a navegação pelo rio Paraguai além de trazer os benefícios dos intercâmbios comerciais, permitia a chegada de embarcações que traziam em seus porões desde a foz do Prata, sem nenhum cuidado, doenças que invadiam a região portuária. Entre os anos de 1867 a 1920, segundo a pesquisadora Lúcia Salsa Corrêa, Corumbá passou por 36 epidemias: cólera, coqueluche, febre amarela, febres gastrintestinais, gripe "Influenza", peste bubônica, sarampo, tifo, varíola. A alta incidência de enfermidades contagiosas condicionou a vida cotidiana dos corumbaenses, durante algumas décadas. A chegada de navios com notícias de epidemias nas cidades portuárias platinas causavam apreensão e temor à população e autoridades corumbaenses que exigiam a quarentena de navios, tripulantes e passageiros, impedidos de aportar no cais do porto sem segurança. Mesmo assim, quase sempre, como visto nas incidências desses episódios, as epidemias batiam às portas dos corumbaenses. As escolas encerravam o seu ano letivo e quem podia procurava refúgio em outras localidades, em especial, nas regiões pantaneiras. As casas comerciais fechavam ou diminuíam drasticamente seus negócios. Os que ficavam na área urbana apenas contavam com precariedades médicas e com a própria sorte. Parece que a vida dos corumbaenses neste período não foi nada fácil.
Passou-se o tempo, e muitas dessas doenças foram consideradas erradicadas. A população ficou despreocupada e desprevenida para enfrentar o retorno desses males. Parece, pelo andar da carruagem, que as autoridades também. Lembro que havia uma campanha nacional de vacinação nas escolas com gotinhas de BCG para o combate à tuberculose. Havia também a obrigatoriedade de se ter uma carteira com radiografia do pulmão (abreugrafia) para quem quisesse estudar ou trabalhar. Isso foi caso do passado, mas a tuberculose continua presente e vem ampliando os índices de casos registrados. Isso dizem médicos conscienciosos que começam alertar a população. O que é pior, é uma doença da miséria, da fome. Até as gotinhas preciosas da vacina Sabin, que erradicou a poliomielite no Brasil, parecem não ser mais uma prioridade para a saúde da família. Porém, o perigo continua existindo e não se pode baixar as guardas. Pois bem. No ano passado Mato Grosso do Sul foi varrido pelo avanço da dengue, uma doença chata e dolorida. E olha que o estado atingiu o triste índice de campeão de casos da doença, em especial, a sua capital. Sem tirar a responsabilidade e o descaso das autoridades, o avanço da dengue mostrou que parte da população não sabe ou não exerce o seu direito de cidadania. E o que é pior, não existe vacina para combate-la. É uma doença de lixo, de entulhos e de matagais. Trata-se de uma epidemia de negligência coletiva.
Este não é também um problema novo. Desde a expansão da fronteira agrícola do café, através de todo o estado de S. Paulo até Mato Grosso do Sul, o desmatamento de áreas silvestres para o plantio causou o desequilíbrio ambiental e provocou a proliferação de doenças como a malária e a febre amarela, desde o final do século XIX.
Mas, afinal, de quem é a culpa hoje em dia? Do irresponsável que jogou o lixo em lugar indevido? Mas quem deixou de dar educação e princípios de cidadania para a população? Isso diz respeito aos ignorantes, aos sábios e aos doutores. Não sei não!! Agora, os brasileiros estão assustados com a expansão da febre amarela. Ué! Não era uma doença do século passado? Não, é uma doença atual e que está aqui, ao nosso lado. Deixo aqui registrado, por dever de justiça, que os agentes sanitários do município de Campo Grande, aqueles jovens de uniforme caqui e que visitam as residências à procura de focos dos mosquitos transmissores da dengue, também tem alertado os moradores para a necessidade de vacinação contra a febre amarela. Isso, desde o ano passado. Mas o medo de contrair a doença tem levado pessoas a se vacinarem sem necessidade, provocando perigosos efeitos colaterais. As autoridades vêm alertando sobre isso. Infelizmente, o descrédito é tanto, por tantas omissões (inclusive algumas recentes) e falácias, que a população não está levando a sério. Não seria mais fácil divulgar a necessidade de vacinação para quem realmente precisa, por não existir vacinas para toda a população? Finalmente, é preciso dizer que a febre amarela está presente porque faltou nas últimas décadas uma política de preservação do meio ambiente, o que motivou uma degradação ambiental do cerrado no Centro-Oeste, permitindo a presença de macacos (hospedeiros) muito perto das zonas urbanas. E, a ação do mosquito transmissor foi apenas um passo. Agora, a culpa é do macaco?
Passou-se o tempo, e muitas dessas doenças foram consideradas erradicadas. A população ficou despreocupada e desprevenida para enfrentar o retorno desses males. Parece, pelo andar da carruagem, que as autoridades também. Lembro que havia uma campanha nacional de vacinação nas escolas com gotinhas de BCG para o combate à tuberculose. Havia também a obrigatoriedade de se ter uma carteira com radiografia do pulmão (abreugrafia) para quem quisesse estudar ou trabalhar. Isso foi caso do passado, mas a tuberculose continua presente e vem ampliando os índices de casos registrados. Isso dizem médicos conscienciosos que começam alertar a população. O que é pior, é uma doença da miséria, da fome. Até as gotinhas preciosas da vacina Sabin, que erradicou a poliomielite no Brasil, parecem não ser mais uma prioridade para a saúde da família. Porém, o perigo continua existindo e não se pode baixar as guardas. Pois bem. No ano passado Mato Grosso do Sul foi varrido pelo avanço da dengue, uma doença chata e dolorida. E olha que o estado atingiu o triste índice de campeão de casos da doença, em especial, a sua capital. Sem tirar a responsabilidade e o descaso das autoridades, o avanço da dengue mostrou que parte da população não sabe ou não exerce o seu direito de cidadania. E o que é pior, não existe vacina para combate-la. É uma doença de lixo, de entulhos e de matagais. Trata-se de uma epidemia de negligência coletiva.
Este não é também um problema novo. Desde a expansão da fronteira agrícola do café, através de todo o estado de S. Paulo até Mato Grosso do Sul, o desmatamento de áreas silvestres para o plantio causou o desequilíbrio ambiental e provocou a proliferação de doenças como a malária e a febre amarela, desde o final do século XIX.
Mas, afinal, de quem é a culpa hoje em dia? Do irresponsável que jogou o lixo em lugar indevido? Mas quem deixou de dar educação e princípios de cidadania para a população? Isso diz respeito aos ignorantes, aos sábios e aos doutores. Não sei não!! Agora, os brasileiros estão assustados com a expansão da febre amarela. Ué! Não era uma doença do século passado? Não, é uma doença atual e que está aqui, ao nosso lado. Deixo aqui registrado, por dever de justiça, que os agentes sanitários do município de Campo Grande, aqueles jovens de uniforme caqui e que visitam as residências à procura de focos dos mosquitos transmissores da dengue, também tem alertado os moradores para a necessidade de vacinação contra a febre amarela. Isso, desde o ano passado. Mas o medo de contrair a doença tem levado pessoas a se vacinarem sem necessidade, provocando perigosos efeitos colaterais. As autoridades vêm alertando sobre isso. Infelizmente, o descrédito é tanto, por tantas omissões (inclusive algumas recentes) e falácias, que a população não está levando a sério. Não seria mais fácil divulgar a necessidade de vacinação para quem realmente precisa, por não existir vacinas para toda a população? Finalmente, é preciso dizer que a febre amarela está presente porque faltou nas últimas décadas uma política de preservação do meio ambiente, o que motivou uma degradação ambiental do cerrado no Centro-Oeste, permitindo a presença de macacos (hospedeiros) muito perto das zonas urbanas. E, a ação do mosquito transmissor foi apenas um passo. Agora, a culpa é do macaco?
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 27 de janeiro de 2008.
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