A educação é matéria diária estampada nos jornais brasileiros, em seus diversos veículos. A maioria dessas notícias, infelizmente, não é positiva e, de um modo geral, há um consenso de que a educação anda muito mal das pernas entre nós.
Nosso estado e nossa capital, Campo Grande, não fogem a esta regra. A cidade tem, atualmente, uma população de 724.524 habitantes (fonte IBGE, 2007) e quase a metade dela (aproximadamente 40%), corresponde ao universo de estudantes da educação básica, infantil e média. E, este percentual corresponde a um dos alvos prioritários do sistema de educação pública, municipal e estadual, visando a preparação de crianças e de jovens para o mundo do trabalho e para a cidadania. E, como é sabido, a legislação vigente das diretrizes e bases da educação determina que as crianças desde a mais tenra idade sejam, de fato, a meta primordial da educação formal ou não formal promovida através de políticas públicas no âmbito municipal.
A realidade da escola pública, de um modo bem geral, é complicada, para dizer o mínimo. Sua crise é profunda e estrutural, arrastando-se por longos anos e não será solucionada em curto espaço de tempo. A começar pela situação de desprestígio e má remuneração dos docentes e dos operadores da educação infantil que, por outro lado, nem sempre estão em situação tão difícil quanto os do sistema estadual. É sabido, também, que alguns poucos municípios sul-mato-grossenses conseguem oferecer melhores condições de trabalho (entenda-se condições estruturais e salariais) aos seus docentes do que o estado.
Por isso, no âmbito municipal, é possível fazer alguma coisa de significativo, inclusive almejar e até sonhar com uma escola de alta qualidade.
As questões mais relevantes da educação básica, entretanto, não se confinam dentro dos muros da escola, embora nestes limites muitas coisas devam ser mudadas ou aperfeiçoadas. Diante de tantas mazelas expressas nas avaliações de alunos (o fraco desempenho de crianças em leitura e raciocínio matemático, por exemplo) e no descontentamento crônico dos professores, para citar apenas alguns dos problemas, uma solução a ser desenvolvida em curto prazo é a política de redução de danos.
No âmbito interno da escola, a mudança fundamental e viável a ser realizada é a valorização do professor enquanto eixo fundamental do processo da educação. Esta valorização não passa necessariamente por melhorias salariais imediatas, planos de carreira e capacitação, concursos para ingresso ou gestão democrática, tais como são discutidas e realizadas hoje nas escolas públicas.
Claro que tudo isso é importante e necessário, a começar pela formação/capacitação do docente. Mas, o foco deve ser outro: a valorização do docente pode ser alcançada através da transformação do professor em protagonista real da educação, constituindo-se também em objeto da educação continuada. Os alunos, crianças e pré-adolescentes, são os alvos primordiais deste agente educador e solidário, mas sua atuação necessita estender-se pelas famílias dos alunos e por todo o bairro a que pertence a sua escola.
Como protagonista, o professor necessita apresentar um perfil de competências e de habilidades, permanentemente treinadas e avaliadas, no âmbito de sua sala de aula, no âmbito de sua escola e no âmbito da sua sociedade. Na sala de aula o alvo é a formação moderna e, ao mesmo tempo adequada ao mundo real do aluno, bem como o combate à desmotivação para os estudos e ao fracasso escolar que desembocam na repetência e na evasão. Na escola, o docente deve protagonizar a denominada (e mal compreendida) gestão democrática, compartilhando todos os problemas e soluções para o funcionamento da sua unidade, cumprindo metas da proposta político-pedagógica da escola e participando de forma integrada e integral de tudo que se relaciona a este lugar: da limpeza do prédio aos critérios de seleção de novos docentes e funcionários.
Todavia, considerando que a escola é parte de uma trama social muito mais ampla e complexa, a atuação dos docentes da educação básica acaba estendendo-se até as famílias que já não desempenham mais o papel clássico da formação das crianças. As carências detectadas nesta formação vem sendo transferidas para a escola, que além de ser um conveniente depósito de crianças passam também a substituir quase que integralmente pai e mãe (ou avós, ou responsáveis) no processo de transmissão de valores e de princípios de convívio humano e de cidadania. E a escola faz isso de forma mal ajambrada, posto que os cuidados da família são insubstituíveis.
Na perspectiva de uma política de redução de danos, dos portões para fora da escola, o docente protagonista da educação deve representar uma escola cidadã-solidária e dirigir seu trabalho em direção à família de seu aluno, integrando e articulando a educação em sentido mais amplo e abrangente. Dessa maneira estará formada uma rede solidária articulada à economia solidária, que tem por metas gerar emprego e renda às famílias, capacitar adultos trabalhadores, crianças e jovens para as mais diversas formas alternativas de organização do trabalho, promover a cidadania e a solidariedade e manejar de forma responsável os recursos da natureza.
Não se trata de uma política educacional voltada para pobres (não se trata de assistencialismo), mas para toda a sociedade que deveria poder contar com uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos, indistintamente. A chamada “classe média”, por exemplo, que contribui com uma larga fatia dos altos impostos deste país, poderia optar pela escola pública, sem ter que arcar com o alto custo da escola privada, nem sempre a melhor opção para uma educação de qualidade.
Uma escola solidária é uma escola teoricamente sem muros, aberta e comprometida com as necessidades do bairro em que se situa, tendo como ator e diretor desse processo o professor-solidário, o profissional diferenciado e agente transformador dentro e fora do prédio escolar. A escola cidadã e solidária é concebida como um pólo articulador e irradiador de ações que promovam a discussão, o conhecimento e a solução criativa para os problemas de violência e segurança dos alunos e de sua família, da necessidade de prevenir o tráfico (e a dependência) de drogas que não apenas circundam, mas também adentram as escolas.
Além disso, como tarefa social e educativa, o professor solidário pode desenvolver, além da escola, os temas transversais do ensino fundamental, como a prevenção e preservação da saúde coletiva (sexualidade e combate às diversas formas de DST, por exemplo), que atinge diretamente alunos na fase de passagem da infância para a adolescência. Ou ainda, ampliar um trabalho de conscientização para o uso responsável do solo, das águas, das fontes naturais de energia e do ambiente como um todo, focando o problema do lixo no meio urbano (uma questão que demanda educação ambiental, cidadania e criatividade). Outro exemplo de ação cidadã é a promoção de atividades de lazer e cultura para a inclusão de idosos, portadores de deficiências físicas ou mentais, jovens e adultos portadores de doenças advindas do sedentarismo e má nutrição/má educação alimentar (obesidade, pressão arterial alterada e outros). E, também, a difusão permanente dos valores éticos que fomentam a solidariedade e a tolerância, promovendo uma vida social compartilhada e com respeito a multiculturalidade de raças e etnias que formam o povo brasileiro e sul-mato-grossense.
Este docente necessita ser capacitado e valorizado, antes de qualquer coisa.E, estas idéias não são novas. Nova pode ser a forma de praticá-las e colocá-las a favor da população (uma experiência que Campo Grande pode desenvolver) e que precisa superar a barreira da má qualidade de vida. As possibilidades de sucesso da escola solidária são múltiplas e viáveis, uma vez que haja a mudança fundamental no eixo da educação: no caso da escola pública municipal, a criança (seu mundo, sua família e seu bairro) representa o coração da escola; o professor-solidário é a sua alma.
O desenvolvimento sustentável e solidário só se realiza tendo suas bases sólidas na educação em sentido mais amplo, no processo de conscientização da população para a conquista responsável de uma vida melhor e mais saudável, com a preservação da harmonia na convivência humana, no ambiente da natureza e no ambiente da cidade. A criança cidadã tem de ser, portanto, o objeto principal de uma política municipal e a educação seu mais eficiente instrumento de valorização da vida e do ambiente. E inclui famílias pobres, médias e ricas. Isto é um sonho possível.
Nosso estado e nossa capital, Campo Grande, não fogem a esta regra. A cidade tem, atualmente, uma população de 724.524 habitantes (fonte IBGE, 2007) e quase a metade dela (aproximadamente 40%), corresponde ao universo de estudantes da educação básica, infantil e média. E, este percentual corresponde a um dos alvos prioritários do sistema de educação pública, municipal e estadual, visando a preparação de crianças e de jovens para o mundo do trabalho e para a cidadania. E, como é sabido, a legislação vigente das diretrizes e bases da educação determina que as crianças desde a mais tenra idade sejam, de fato, a meta primordial da educação formal ou não formal promovida através de políticas públicas no âmbito municipal.
A realidade da escola pública, de um modo bem geral, é complicada, para dizer o mínimo. Sua crise é profunda e estrutural, arrastando-se por longos anos e não será solucionada em curto espaço de tempo. A começar pela situação de desprestígio e má remuneração dos docentes e dos operadores da educação infantil que, por outro lado, nem sempre estão em situação tão difícil quanto os do sistema estadual. É sabido, também, que alguns poucos municípios sul-mato-grossenses conseguem oferecer melhores condições de trabalho (entenda-se condições estruturais e salariais) aos seus docentes do que o estado.
Por isso, no âmbito municipal, é possível fazer alguma coisa de significativo, inclusive almejar e até sonhar com uma escola de alta qualidade.
As questões mais relevantes da educação básica, entretanto, não se confinam dentro dos muros da escola, embora nestes limites muitas coisas devam ser mudadas ou aperfeiçoadas. Diante de tantas mazelas expressas nas avaliações de alunos (o fraco desempenho de crianças em leitura e raciocínio matemático, por exemplo) e no descontentamento crônico dos professores, para citar apenas alguns dos problemas, uma solução a ser desenvolvida em curto prazo é a política de redução de danos.
No âmbito interno da escola, a mudança fundamental e viável a ser realizada é a valorização do professor enquanto eixo fundamental do processo da educação. Esta valorização não passa necessariamente por melhorias salariais imediatas, planos de carreira e capacitação, concursos para ingresso ou gestão democrática, tais como são discutidas e realizadas hoje nas escolas públicas.
Claro que tudo isso é importante e necessário, a começar pela formação/capacitação do docente. Mas, o foco deve ser outro: a valorização do docente pode ser alcançada através da transformação do professor em protagonista real da educação, constituindo-se também em objeto da educação continuada. Os alunos, crianças e pré-adolescentes, são os alvos primordiais deste agente educador e solidário, mas sua atuação necessita estender-se pelas famílias dos alunos e por todo o bairro a que pertence a sua escola.
Como protagonista, o professor necessita apresentar um perfil de competências e de habilidades, permanentemente treinadas e avaliadas, no âmbito de sua sala de aula, no âmbito de sua escola e no âmbito da sua sociedade. Na sala de aula o alvo é a formação moderna e, ao mesmo tempo adequada ao mundo real do aluno, bem como o combate à desmotivação para os estudos e ao fracasso escolar que desembocam na repetência e na evasão. Na escola, o docente deve protagonizar a denominada (e mal compreendida) gestão democrática, compartilhando todos os problemas e soluções para o funcionamento da sua unidade, cumprindo metas da proposta político-pedagógica da escola e participando de forma integrada e integral de tudo que se relaciona a este lugar: da limpeza do prédio aos critérios de seleção de novos docentes e funcionários.
Todavia, considerando que a escola é parte de uma trama social muito mais ampla e complexa, a atuação dos docentes da educação básica acaba estendendo-se até as famílias que já não desempenham mais o papel clássico da formação das crianças. As carências detectadas nesta formação vem sendo transferidas para a escola, que além de ser um conveniente depósito de crianças passam também a substituir quase que integralmente pai e mãe (ou avós, ou responsáveis) no processo de transmissão de valores e de princípios de convívio humano e de cidadania. E a escola faz isso de forma mal ajambrada, posto que os cuidados da família são insubstituíveis.
Na perspectiva de uma política de redução de danos, dos portões para fora da escola, o docente protagonista da educação deve representar uma escola cidadã-solidária e dirigir seu trabalho em direção à família de seu aluno, integrando e articulando a educação em sentido mais amplo e abrangente. Dessa maneira estará formada uma rede solidária articulada à economia solidária, que tem por metas gerar emprego e renda às famílias, capacitar adultos trabalhadores, crianças e jovens para as mais diversas formas alternativas de organização do trabalho, promover a cidadania e a solidariedade e manejar de forma responsável os recursos da natureza.
Não se trata de uma política educacional voltada para pobres (não se trata de assistencialismo), mas para toda a sociedade que deveria poder contar com uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos, indistintamente. A chamada “classe média”, por exemplo, que contribui com uma larga fatia dos altos impostos deste país, poderia optar pela escola pública, sem ter que arcar com o alto custo da escola privada, nem sempre a melhor opção para uma educação de qualidade.
Uma escola solidária é uma escola teoricamente sem muros, aberta e comprometida com as necessidades do bairro em que se situa, tendo como ator e diretor desse processo o professor-solidário, o profissional diferenciado e agente transformador dentro e fora do prédio escolar. A escola cidadã e solidária é concebida como um pólo articulador e irradiador de ações que promovam a discussão, o conhecimento e a solução criativa para os problemas de violência e segurança dos alunos e de sua família, da necessidade de prevenir o tráfico (e a dependência) de drogas que não apenas circundam, mas também adentram as escolas.
Além disso, como tarefa social e educativa, o professor solidário pode desenvolver, além da escola, os temas transversais do ensino fundamental, como a prevenção e preservação da saúde coletiva (sexualidade e combate às diversas formas de DST, por exemplo), que atinge diretamente alunos na fase de passagem da infância para a adolescência. Ou ainda, ampliar um trabalho de conscientização para o uso responsável do solo, das águas, das fontes naturais de energia e do ambiente como um todo, focando o problema do lixo no meio urbano (uma questão que demanda educação ambiental, cidadania e criatividade). Outro exemplo de ação cidadã é a promoção de atividades de lazer e cultura para a inclusão de idosos, portadores de deficiências físicas ou mentais, jovens e adultos portadores de doenças advindas do sedentarismo e má nutrição/má educação alimentar (obesidade, pressão arterial alterada e outros). E, também, a difusão permanente dos valores éticos que fomentam a solidariedade e a tolerância, promovendo uma vida social compartilhada e com respeito a multiculturalidade de raças e etnias que formam o povo brasileiro e sul-mato-grossense.
Este docente necessita ser capacitado e valorizado, antes de qualquer coisa.E, estas idéias não são novas. Nova pode ser a forma de praticá-las e colocá-las a favor da população (uma experiência que Campo Grande pode desenvolver) e que precisa superar a barreira da má qualidade de vida. As possibilidades de sucesso da escola solidária são múltiplas e viáveis, uma vez que haja a mudança fundamental no eixo da educação: no caso da escola pública municipal, a criança (seu mundo, sua família e seu bairro) representa o coração da escola; o professor-solidário é a sua alma.
O desenvolvimento sustentável e solidário só se realiza tendo suas bases sólidas na educação em sentido mais amplo, no processo de conscientização da população para a conquista responsável de uma vida melhor e mais saudável, com a preservação da harmonia na convivência humana, no ambiente da natureza e no ambiente da cidade. A criança cidadã tem de ser, portanto, o objeto principal de uma política municipal e a educação seu mais eficiente instrumento de valorização da vida e do ambiente. E inclui famílias pobres, médias e ricas. Isto é um sonho possível.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 30 de dezmebro de 2007.
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