Duas figuras sempre povoaram as minhas memórias. Uma delas existia na pequena cidade em que me criei, mas o fenômeno ocorreu em todas as cidades deste território varonil. Em muitos lugares, dependendo do tamanho da população, não existia apenas um, mas eram inúmeros. Era a figura sinistra e execrada do agiota. Aliás, a agiotagem existe desde que o homem descobriu que podia viver as custas do desespero dos outros. Era o calvário dos endividados, a última esperança de quem já havia perdido a fé em Santo Expedido ou Santa Edwirges, dependendo da predileção e da crença.
O agiota representava, contraditoriamente, o salvador da pátria e o carrasco sem compaixão. Sabia atender com gentilezas a quem precisava, porém cobrava a dívida com mão de ferro e contava, muitas vezes, com a ajuda de “funcionários” sombrios e mal encarados. Cobrava juros escorchantes e não tinha piedade de tomar bens materiais, deixando famílias mais empobrecidas e na rua da amargura. Alguns agiotas tornaram-se poderosos e ricaços, acumulando também contra si o ódio da comunidade. Entretanto, era visto como um mal necessário, em especial, para quem não tinha mais crédito na praça.
A outra figura em questão, mais freqüente nas grandes cidades e diferente do agiota representava uma chance aos endividados de alívio à pobreza: era o bicheiro. Fazer uma “fezinha” significava arriscar pequenas quantias em palpites muitas vezes revelados em sonhos, sob a forma de uma seqüência numérica sorteada no jogo popular criado ainda nos tempos do Brasil imperial. O criador do famoso jogo do bicho foi um senhor de terras do Rio de Janeiro, João Batista Viana Drummond, o barão de Drummond, cujo título de nobreza foi recebido por libertar escravos antes da Lei Áurea. O barão inventou o jogo para arrecadar dinheiro para salvar e custear um zoológico carioca em dificuldades. Por isso, identificou os números do jogo com os bichos ali existentes.
O bicheiro que controlava a banca do jogo, mesmo sendo um contraventor pela legislação brasileira, passou a ser uma figura respeitada pela sociedade, fazendo trabalho assistencial em sua comunidade melhorando as condições das pessoas carentes, onde era flagrante a ausência dos aparelhos estatais. Naqueles tempos, esta figura genuinamente brasileira, cercava-se por um batalhão de agregados e empregados, e também foi retratada na literatura, no cinema e na televisão, com seus anéis, colares e dentes de ouro. Muitos bicheiros tornaram-se sustentáculo do brilho das escolas de samba pelo Brasil afora, responsáveis pelo embelezamento dos carnavais de rua. Era o estereótipo do bom e bem sucedido malandro.
Porém, essa figura arcaica e paternalista, não conseguiu fazer frente à onda do tráfico de drogas e, praticamente, foi perdendo terreno no cenário da malandragem nacional. No entanto, essas figuras ainda resistem sendo freqüentes as suas presenças em páginas policiais de jornais. Basta ver o destaque na imprensa nacional dos bicheiros do Rio de Janeiro.
Surgiram novos tempos. O malandro pra valer não existe mais, como diz o samba do Chico. Agora o que impera é a malandragem oficial e oficializada. Assim como os clássicos bicheiros, os agiotas também sofrem pesada concorrência e estão em risco de extinção, perdendo espaço nas relações financeiras do dia-a-dia do brasileiro comum. A agiotagem, que era crime contra a economia popular, passou a ser hoje um bom negócio e, pasmem!, lícito. O alvo principal é o(a) velhinho(a) aposentado(a) ou pensionista, com a eterna fama de pobre, porém bom pagador. Uma avalanche de comerciais nos meios de comunicação bombardeia a todo instante os incautos aposentados, com promessas maravilhosas, atraindo também a atenção dos seus dependentes, pois se sabe que muitas famílias pobres neste imenso país vivem as custas de aposentadoria ou pensão de seus velhos. O que não impede de serem maltratados dentro de suas próprias casas.
Pobres velhos que nunca antes neste país sofreram tanto. Primeiro, teve um ministro que obrigou os velhinhos a ficar na fila da previdência para recadastramento, debaixo de sol e chuva. Agora, o apetite voraz dos novos agiotas (digo, financeiras), reinventa o ovo de Colombo: prometem emprestar dinheiro aos velhinhos com a garantia de desconto na folha de pagamento. Os velhos agiotas jamais imaginaram ou aplicaram tamanha esperteza. E os ingênuos aposentados e pensionistas que caíram no conto do vigário “da hora” são tomados de assalto e espanto quando recebem seus contra-cheques já minguados, menores ainda.
Outros espertinhos entraram na mesma jogada. Lojas de departamento, especializadas em vendas a prazo de eletrodomésticos, por exemplo, passaram a explorar esse novo nicho de mercado, tendo também como alvo os funcionários públicos, antigamente chamados de barnabés. Com a mesma estratégia, diga-se de passagem muito conveniente a quem empresta, do pagamento descontado em folha. A propaganda chega ao despudor de informar que o primeiro pagamento somente será descontado no próximo ano. Algumas delas dizem até que compram as dívidas anteriores dos seus clientes. Que bonzinhos, não?
Esta orgia não para por aí: hoje é possível comprar carro sem entrada e com dezenas intermináveis de prestações; pode-se comprar casas ou apartamentos em parcelas a perder de vista, para dizer somente algumas “maravilhas” deste mercado hipócrita, sem mencionar que nos preços finais estão embutidos juros pornográficos. Isso sem falar também nos custos estratosféricos do cheque especial, tão fácil de sacar e difícil de cobrir.
O atual governo entende que a economia brasileira é um sucesso e um de seus benefícios principais é a expansão do crédito. Mas, o resultado dessa farra geral é um perigoso endividamento interno que pode fazer a casa ruir a qualquer momento, e com muito estrondo e poeira. Nenhuma medida está sendo tomada para salvaguardar os direitos e a segurança das famílias endividadas. E o que mais assusta é o cheiro de que há algo de podre no reino da Dinamarca, como já escreveu o velho e sábio Shakespeare.
Se no Brasil até a máfia esculhamba, como diz um humorista, só nos resta gritar como em outro samba do Chico: socorro, chame o ladrão, chame o ladrão! A verdade é que esta política econômica atual, que beira a irresponsabilidade, sobretudo por que é imediatista, está transformando uma parcela significativa de aposentados e funcionários em endividados crônicos. Com certeza, num futuro próximo haverá a necessidade de criar um Serviço de Proteção aos Endividados. Mas aí, já será tarde.
Na outra ponta desta ciranda desvairada, o próprio Brasil do faz de conta já se transformou em um grande cassino. O jogo é ilegal, mas existe! De todas as modalidades, porém, controladas pelo estado. Oficializou-se agora a malandragem no país em que a fezinha foi considerada contravenção desde os tempos do governo do presidente Eurico Gaspar Dutra. Dutra e a hipocrisia reinante acabaram com o jogo e o glamour do famoso Cassino da Urca e, com isso se foram as festas e as suas belas coristas. Mas até hoje os saudosistas lutam pelo seu retorno. Ainda tramitam projetos no Congresso Nacional com propostas de liberação de cassinos, mais fortemente em balneários e cidades fronteiriças. Isso pode mudar o perfil sócio-econômico de cidades como Bela Vista, Ponta Porã e Corumbá.
Mesmo escamoteado, o falso moralismo e a hipocrisia reinante impedem a privatização dos jogos ditos de “azar”. Mas o Estado todo poderoso pode. E uma pergunta fica no ar: alguém sabe quanto o governo federal arrecada por semana do suado dinheirinho dos esperançosos apostadores? Perguntar não ofende.
O agiota representava, contraditoriamente, o salvador da pátria e o carrasco sem compaixão. Sabia atender com gentilezas a quem precisava, porém cobrava a dívida com mão de ferro e contava, muitas vezes, com a ajuda de “funcionários” sombrios e mal encarados. Cobrava juros escorchantes e não tinha piedade de tomar bens materiais, deixando famílias mais empobrecidas e na rua da amargura. Alguns agiotas tornaram-se poderosos e ricaços, acumulando também contra si o ódio da comunidade. Entretanto, era visto como um mal necessário, em especial, para quem não tinha mais crédito na praça.
A outra figura em questão, mais freqüente nas grandes cidades e diferente do agiota representava uma chance aos endividados de alívio à pobreza: era o bicheiro. Fazer uma “fezinha” significava arriscar pequenas quantias em palpites muitas vezes revelados em sonhos, sob a forma de uma seqüência numérica sorteada no jogo popular criado ainda nos tempos do Brasil imperial. O criador do famoso jogo do bicho foi um senhor de terras do Rio de Janeiro, João Batista Viana Drummond, o barão de Drummond, cujo título de nobreza foi recebido por libertar escravos antes da Lei Áurea. O barão inventou o jogo para arrecadar dinheiro para salvar e custear um zoológico carioca em dificuldades. Por isso, identificou os números do jogo com os bichos ali existentes.
O bicheiro que controlava a banca do jogo, mesmo sendo um contraventor pela legislação brasileira, passou a ser uma figura respeitada pela sociedade, fazendo trabalho assistencial em sua comunidade melhorando as condições das pessoas carentes, onde era flagrante a ausência dos aparelhos estatais. Naqueles tempos, esta figura genuinamente brasileira, cercava-se por um batalhão de agregados e empregados, e também foi retratada na literatura, no cinema e na televisão, com seus anéis, colares e dentes de ouro. Muitos bicheiros tornaram-se sustentáculo do brilho das escolas de samba pelo Brasil afora, responsáveis pelo embelezamento dos carnavais de rua. Era o estereótipo do bom e bem sucedido malandro.
Porém, essa figura arcaica e paternalista, não conseguiu fazer frente à onda do tráfico de drogas e, praticamente, foi perdendo terreno no cenário da malandragem nacional. No entanto, essas figuras ainda resistem sendo freqüentes as suas presenças em páginas policiais de jornais. Basta ver o destaque na imprensa nacional dos bicheiros do Rio de Janeiro.
Surgiram novos tempos. O malandro pra valer não existe mais, como diz o samba do Chico. Agora o que impera é a malandragem oficial e oficializada. Assim como os clássicos bicheiros, os agiotas também sofrem pesada concorrência e estão em risco de extinção, perdendo espaço nas relações financeiras do dia-a-dia do brasileiro comum. A agiotagem, que era crime contra a economia popular, passou a ser hoje um bom negócio e, pasmem!, lícito. O alvo principal é o(a) velhinho(a) aposentado(a) ou pensionista, com a eterna fama de pobre, porém bom pagador. Uma avalanche de comerciais nos meios de comunicação bombardeia a todo instante os incautos aposentados, com promessas maravilhosas, atraindo também a atenção dos seus dependentes, pois se sabe que muitas famílias pobres neste imenso país vivem as custas de aposentadoria ou pensão de seus velhos. O que não impede de serem maltratados dentro de suas próprias casas.
Pobres velhos que nunca antes neste país sofreram tanto. Primeiro, teve um ministro que obrigou os velhinhos a ficar na fila da previdência para recadastramento, debaixo de sol e chuva. Agora, o apetite voraz dos novos agiotas (digo, financeiras), reinventa o ovo de Colombo: prometem emprestar dinheiro aos velhinhos com a garantia de desconto na folha de pagamento. Os velhos agiotas jamais imaginaram ou aplicaram tamanha esperteza. E os ingênuos aposentados e pensionistas que caíram no conto do vigário “da hora” são tomados de assalto e espanto quando recebem seus contra-cheques já minguados, menores ainda.
Outros espertinhos entraram na mesma jogada. Lojas de departamento, especializadas em vendas a prazo de eletrodomésticos, por exemplo, passaram a explorar esse novo nicho de mercado, tendo também como alvo os funcionários públicos, antigamente chamados de barnabés. Com a mesma estratégia, diga-se de passagem muito conveniente a quem empresta, do pagamento descontado em folha. A propaganda chega ao despudor de informar que o primeiro pagamento somente será descontado no próximo ano. Algumas delas dizem até que compram as dívidas anteriores dos seus clientes. Que bonzinhos, não?
Esta orgia não para por aí: hoje é possível comprar carro sem entrada e com dezenas intermináveis de prestações; pode-se comprar casas ou apartamentos em parcelas a perder de vista, para dizer somente algumas “maravilhas” deste mercado hipócrita, sem mencionar que nos preços finais estão embutidos juros pornográficos. Isso sem falar também nos custos estratosféricos do cheque especial, tão fácil de sacar e difícil de cobrir.
O atual governo entende que a economia brasileira é um sucesso e um de seus benefícios principais é a expansão do crédito. Mas, o resultado dessa farra geral é um perigoso endividamento interno que pode fazer a casa ruir a qualquer momento, e com muito estrondo e poeira. Nenhuma medida está sendo tomada para salvaguardar os direitos e a segurança das famílias endividadas. E o que mais assusta é o cheiro de que há algo de podre no reino da Dinamarca, como já escreveu o velho e sábio Shakespeare.
Se no Brasil até a máfia esculhamba, como diz um humorista, só nos resta gritar como em outro samba do Chico: socorro, chame o ladrão, chame o ladrão! A verdade é que esta política econômica atual, que beira a irresponsabilidade, sobretudo por que é imediatista, está transformando uma parcela significativa de aposentados e funcionários em endividados crônicos. Com certeza, num futuro próximo haverá a necessidade de criar um Serviço de Proteção aos Endividados. Mas aí, já será tarde.
Na outra ponta desta ciranda desvairada, o próprio Brasil do faz de conta já se transformou em um grande cassino. O jogo é ilegal, mas existe! De todas as modalidades, porém, controladas pelo estado. Oficializou-se agora a malandragem no país em que a fezinha foi considerada contravenção desde os tempos do governo do presidente Eurico Gaspar Dutra. Dutra e a hipocrisia reinante acabaram com o jogo e o glamour do famoso Cassino da Urca e, com isso se foram as festas e as suas belas coristas. Mas até hoje os saudosistas lutam pelo seu retorno. Ainda tramitam projetos no Congresso Nacional com propostas de liberação de cassinos, mais fortemente em balneários e cidades fronteiriças. Isso pode mudar o perfil sócio-econômico de cidades como Bela Vista, Ponta Porã e Corumbá.
Mesmo escamoteado, o falso moralismo e a hipocrisia reinante impedem a privatização dos jogos ditos de “azar”. Mas o Estado todo poderoso pode. E uma pergunta fica no ar: alguém sabe quanto o governo federal arrecada por semana do suado dinheirinho dos esperançosos apostadores? Perguntar não ofende.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 16 de dezembro de 2007.
Nenhum comentário:
Postar um comentário