A origem de Mato Grosso do Sul foi, historicamente, a irmã siamesa das raízes da formação e construção de Mato Grosso. Mesmo com a criação de um novo estado na região sul por lei complementar, nos idos do regime militar, a história da ocupação inicial da fronteira com outros países latinos é a mesma e com igual dosagem de complexidade e violência. Mesmo assim, existe um esforço necessário de pesquisadores e pensadores para com um novo olhar, encontrar uma história diferenciada para Mato Grosso do Sul.
Com isto, abre-se um leque de possibilidades aos historiadores regionais para adentrar as entranhas ainda pouco desvendadas da história do estado recém formatado.
Mesmo com a singularidade dos primeiros avanços dos portugueses na região, e mesmo pela continuidade nos séculos seguintes, a história de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul não pode, jamais, estar desvinculada da violência existente na sua vida cotidiana.
À primeira vista, pode parecer estranha esta interpretação. Mas no acompanhamento passo a passo dos primeiros tempos da colonização, pode-se perceber que em vários momentos, tanto no confronto com a natureza hostil como na relação nada amistosa com os primeiros habitantes da região, ou mesmo nas tensas relações fronteiriças, aliás, as mais importantes e complexas neste momento histórico de disputas e de convivência entre os impérios coloniais metropolitanos, a violência foi um componente presente na luta pela sobrevivência da população local.
Bem mais tarde, a região sul foi envolvida no grande conflito da Tríplice Aliança contra o Paraguai, trazendo uma explicita carga de violência, sangue e mortes. A chamada guerra com o Paraguai, com certeza a mais terrível guerra ocorrida em solo sul-americano, destroçou povoações e as relações sociais que se construíam na faixa não bem definida da fronteira, com prejuízos de vidas e bens materiais para todas as nações envolvidas.
No pós-guerra estabeleceu-se um esforço ingente para restaurar fazendas, posses e vilas queimadas ou destruídas e a recuperação da criação dispersa pelos campos. As dificuldades foram imensas. Famílias com patrimônios dilapidados e que tentaram resgatar o pouco que restou, também tiveram que enfrentar novos perigos com a ação de bandidos, muitos ex-soldados desmobilizados e desertores. Esta fase que se estendeu por várias décadas do século XX, também ficou conhecida como uma era de violência, e a região como uma terra de ninguém dominada pela lei do 44. Ou melhor, dominada e organizada sob os auspícios das armas de calibre 44. Porém, esta trágica situação pouco se diferenciou do resto do território mato-grossense.
No sul do estado, é bom que se diga, esta situação marcou de maneira intensa o modo de vida da gente fronteiriça. De fato, o uso de uma arma na cintura passou a ser um componente indispensável da vestimenta nesta sociedade marcadamente machista e violenta. Desse modo, era comum ver um peão descalço mas portando com orgulho uma arma de fogo ou arma branca, além, é claro, de uma boa “traia” no cavalo.
Muito apropriadamente, o general e historiador marxista Nelson Werneck Sodré, que também serviu em Campo Grande nos anos 1938/1939, como um observador aguçado deixou registrado no livro Memórias de um soldado (Ed. Civilização Brasileira, 1967) uma análise interessante sobre a região, classificando-a como terra dos senhores do baraço e cutelo. Ainda sobre a sua estada em Mato Grosso, Sodré deixou um instigante ensaio sobre a grande propriedade pastoril, chamado O Oeste (José Olympio Ed., 1941), que vale a pena ser lido.
O clima de insegurança e de violência confundiu-se, então, nas primeiras décadas do período republicano, com o coronelismo e o banditismo, dois fenômenos que marcaram de forma contundente e singular a fronteira sul de Mato Grosso e frutos da mesma estrutura sócio-econômica forjada na luta pela posse da terra.
Porém, sobre as relações de violência na fronteira sul existe uma verdadeira obra-prima editada em um livrinho despretensioso escrito por Umberto Puiggari, chamado Nas fronteiras de Matto Grosso. Terra abandonada (Ed. Mayença, 1933). Nascido em 1878, Puiggari exerceu atividades comerciais em várias regiões do estado, onde anotou com muita sensibilidade as “conversas de balcão” que escutava. Vivenciou fatos históricos como a participação de Mato Grosso na revolução de 1932. Amigo de Vespasiano Barbosa Martins, Puiggari soube registrar magistralmente o dia-a-dia da terra-de-ninguém mato-grossense.
O livro, de raro acesso pelo fato de ter sido publicado em pequena tiragem, tem seus originais e duas correspondências no cofre de segurança do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, doado pelo ex-governador do estado, Wilson Barbosa Martins. Este livro, por sua importância, deverá ser publicado brevemente pelo IHGMS, acompanhado de um estudo sobre a obra.
Puiggari assinava os seus documentos como “H. Puiggari Coutinho”, e escreveu seu livro no verso de papel timbrado da “Pharmacia Brasil de O. Jorge. Rua João Pessoa, 432. Telephone 3”. Na análise desses originais, percebe-se que alguns dos capítulos escritos não foram incluídos na obra publicada. Seria uma autocensura motivada por receio de represálias de pessoas citadas? Talvez, em razão disso, e após muitos anos residindo em Mato Grosso, Puiggari transferiu-se para o estado do Paraná., onde fundou o Jornal de Londrina.
Apesar de permanecer “exilado” em terras paranaenses, os registros de Puiggari constituíram-se em verdadeiros resgates da memória coletiva da fronteira e permitiram, parafraseando a belíssima criação explicativa do escritor Abílio Leite de Barros, a “permanência” de fatos significativos da história fronteiriça que, não fossem os historiadores, fatalmente seriam varridos pelos ventos do esquecimento.Foi através de Puiggari que se perpetuaram figuras marcantes do cotidiano fronteiriço, como a vida elegante do bandido Sismório, a tragédia nos ervais e a vida dura dos ervateiros, e ainda o terrorismo e o medo implantados por grupos de bandoleiros como os Bochincheros e a Turma Sinistra. Isso tudo acrescido do envolvimento do sul do estado na revolução de 1932 e da incrível história dos levantes de João Christiano Ortt, posseiro que combateu as forças da Matte Larangeira (com “g” mesmo), e foi violentamente reprimido como um agitador comunista. Aliás, João Ortt nem sabia o que era isso.
Ainda tem muito mais, mas deixo para a curiosidade dos futuros leitores.
Enfim, são histórias tão fantásticas que podem render roteiros cinematográficos e, assim, dar início a um ciclo de cinema regional sobre o “velho oeste” sul-mato-grossense, para nenhum americano botar defeito.
Com isto, abre-se um leque de possibilidades aos historiadores regionais para adentrar as entranhas ainda pouco desvendadas da história do estado recém formatado.
Mesmo com a singularidade dos primeiros avanços dos portugueses na região, e mesmo pela continuidade nos séculos seguintes, a história de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul não pode, jamais, estar desvinculada da violência existente na sua vida cotidiana.
À primeira vista, pode parecer estranha esta interpretação. Mas no acompanhamento passo a passo dos primeiros tempos da colonização, pode-se perceber que em vários momentos, tanto no confronto com a natureza hostil como na relação nada amistosa com os primeiros habitantes da região, ou mesmo nas tensas relações fronteiriças, aliás, as mais importantes e complexas neste momento histórico de disputas e de convivência entre os impérios coloniais metropolitanos, a violência foi um componente presente na luta pela sobrevivência da população local.
Bem mais tarde, a região sul foi envolvida no grande conflito da Tríplice Aliança contra o Paraguai, trazendo uma explicita carga de violência, sangue e mortes. A chamada guerra com o Paraguai, com certeza a mais terrível guerra ocorrida em solo sul-americano, destroçou povoações e as relações sociais que se construíam na faixa não bem definida da fronteira, com prejuízos de vidas e bens materiais para todas as nações envolvidas.
No pós-guerra estabeleceu-se um esforço ingente para restaurar fazendas, posses e vilas queimadas ou destruídas e a recuperação da criação dispersa pelos campos. As dificuldades foram imensas. Famílias com patrimônios dilapidados e que tentaram resgatar o pouco que restou, também tiveram que enfrentar novos perigos com a ação de bandidos, muitos ex-soldados desmobilizados e desertores. Esta fase que se estendeu por várias décadas do século XX, também ficou conhecida como uma era de violência, e a região como uma terra de ninguém dominada pela lei do 44. Ou melhor, dominada e organizada sob os auspícios das armas de calibre 44. Porém, esta trágica situação pouco se diferenciou do resto do território mato-grossense.
No sul do estado, é bom que se diga, esta situação marcou de maneira intensa o modo de vida da gente fronteiriça. De fato, o uso de uma arma na cintura passou a ser um componente indispensável da vestimenta nesta sociedade marcadamente machista e violenta. Desse modo, era comum ver um peão descalço mas portando com orgulho uma arma de fogo ou arma branca, além, é claro, de uma boa “traia” no cavalo.
Muito apropriadamente, o general e historiador marxista Nelson Werneck Sodré, que também serviu em Campo Grande nos anos 1938/1939, como um observador aguçado deixou registrado no livro Memórias de um soldado (Ed. Civilização Brasileira, 1967) uma análise interessante sobre a região, classificando-a como terra dos senhores do baraço e cutelo. Ainda sobre a sua estada em Mato Grosso, Sodré deixou um instigante ensaio sobre a grande propriedade pastoril, chamado O Oeste (José Olympio Ed., 1941), que vale a pena ser lido.
O clima de insegurança e de violência confundiu-se, então, nas primeiras décadas do período republicano, com o coronelismo e o banditismo, dois fenômenos que marcaram de forma contundente e singular a fronteira sul de Mato Grosso e frutos da mesma estrutura sócio-econômica forjada na luta pela posse da terra.
Porém, sobre as relações de violência na fronteira sul existe uma verdadeira obra-prima editada em um livrinho despretensioso escrito por Umberto Puiggari, chamado Nas fronteiras de Matto Grosso. Terra abandonada (Ed. Mayença, 1933). Nascido em 1878, Puiggari exerceu atividades comerciais em várias regiões do estado, onde anotou com muita sensibilidade as “conversas de balcão” que escutava. Vivenciou fatos históricos como a participação de Mato Grosso na revolução de 1932. Amigo de Vespasiano Barbosa Martins, Puiggari soube registrar magistralmente o dia-a-dia da terra-de-ninguém mato-grossense.
O livro, de raro acesso pelo fato de ter sido publicado em pequena tiragem, tem seus originais e duas correspondências no cofre de segurança do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, doado pelo ex-governador do estado, Wilson Barbosa Martins. Este livro, por sua importância, deverá ser publicado brevemente pelo IHGMS, acompanhado de um estudo sobre a obra.
Puiggari assinava os seus documentos como “H. Puiggari Coutinho”, e escreveu seu livro no verso de papel timbrado da “Pharmacia Brasil de O. Jorge. Rua João Pessoa, 432. Telephone 3”. Na análise desses originais, percebe-se que alguns dos capítulos escritos não foram incluídos na obra publicada. Seria uma autocensura motivada por receio de represálias de pessoas citadas? Talvez, em razão disso, e após muitos anos residindo em Mato Grosso, Puiggari transferiu-se para o estado do Paraná., onde fundou o Jornal de Londrina.
Apesar de permanecer “exilado” em terras paranaenses, os registros de Puiggari constituíram-se em verdadeiros resgates da memória coletiva da fronteira e permitiram, parafraseando a belíssima criação explicativa do escritor Abílio Leite de Barros, a “permanência” de fatos significativos da história fronteiriça que, não fossem os historiadores, fatalmente seriam varridos pelos ventos do esquecimento.Foi através de Puiggari que se perpetuaram figuras marcantes do cotidiano fronteiriço, como a vida elegante do bandido Sismório, a tragédia nos ervais e a vida dura dos ervateiros, e ainda o terrorismo e o medo implantados por grupos de bandoleiros como os Bochincheros e a Turma Sinistra. Isso tudo acrescido do envolvimento do sul do estado na revolução de 1932 e da incrível história dos levantes de João Christiano Ortt, posseiro que combateu as forças da Matte Larangeira (com “g” mesmo), e foi violentamente reprimido como um agitador comunista. Aliás, João Ortt nem sabia o que era isso.
Ainda tem muito mais, mas deixo para a curiosidade dos futuros leitores.
Enfim, são histórias tão fantásticas que podem render roteiros cinematográficos e, assim, dar início a um ciclo de cinema regional sobre o “velho oeste” sul-mato-grossense, para nenhum americano botar defeito.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 13 de janeiro de 2008.
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