A opinião pública ficou estarrecida com a tragédia de Niterói quando uma favela instalada no morro do Bumba veio abaixo, após fortes chuvas. Era uma favela populosa que avançava pelo morro, agarrada como caranguejo em suas encostas. Até aí nada de novidade, provocada pelo crescimento urbano de uma população à margem de benefícios como a casa própria e melhor qualidade de vida. O que causou perplexidade foi o fato do morro não ser um morro qualquer. Era na verdade um grande lixão formado pelo serviço público da própria municipalidade.
Pode uma barbaridade dessa? Como o poder público omisso e impune permitiu a construção de casas em cima desse campo minado? Não precisa ser engenheiro ou geólogo para saber que nesses lixões escorre o “chorume”, líquido que nasce da composição da matéria orgânica, altamente tóxico e, além disso, há também a formação e o vazamento de gás metano, altamente tóxico e inflamável..
É óbvio que um lugar assim não serve e não pode suportar a moradia de ninguém em cima. Fechando os olhos para tal gravidade, as autoridades locais, de forma demagógica, construíram na localidade asfalto, creche e outros benefícios. Porém, quem pagará as centenas de vidas ceifadas por esta irresponsabilidade? Como sempre acontece, o tempo passará e ninguém será responsabilizado por mais uma tragédia. Com cinismo, a responsabilidade ainda recairá sobre essas famílias que, pela pobreza e desconhecimento, insistem em morar de forma arriscada nesses morros ou em qualquer outro lugar de risco eminente.
Essa história de morar em térreos que foram lixões e nos chamados aterros sanitários não é uma atitude irresponsável que apenas ocorre na bela cidade do Rio de Janeiro. Como a existência de lixões é um problema grave nas pequenas e grandes cidades, aliás no mundo inteiro, a construção de casas e edifícios ocorre em todo o país.
Depois da repercussão desta lamentável tragédia, foi divulgada mais uma irresponsabilidade, agora na cidade de São Paulo. Construiu-se uma escola municipal infantil sobre um lixão desativado na Vila Nova Cachoeirinha. Durante décadas e sem uma legislação adequada, era usual que os resíduos tóxicos tanto de origem industrial como doméstica fossem depositados a céu aberto, sem a devida impermeabilização do solo. Depois, aterrados, tornaram-se terrenos disponíveis para a especulação, como áreas baratas para favelização e também para a utilização pelo poder público na construção de parques e escolas. No estado de São Paulo existem 2.514 áreas contaminadas e, o que é pior, com gente em cima, sendo que 781 somente na capital paulista (em sua maioria postos de combustíveis). Isso é apenas uma ponta do icerberg que se alastra por todo o país.
Em Campo Grande (MS) não é diferente. Os postos de gasolina, por legislação, estão passando por um verdadeiro processo de reestruturação. Menos mal e a natureza agradece. Mas vou além. Existe um local da cidade, densamente povoado, que foi décadas atrás um grande lixão, inclusive de resíduos hospitalares, e que depois, como sempre, foi aterrado e transformado em terreno disponível à especulação imobiliária. Mais recentemente, em cima deste campo minado e uma verdadeira bomba-relógio de efeito retardado, foram construídos vários conjuntos habitacionais de classe média. Sempre quando passo ao lado desse condomínio, fico a pensar na origem desse terreno, mesmo antes da tragédia do Morro do Bumba.
Espero que nada aconteça a esses moradores que, com certeza, não sabem o que existe abaixo do solo onde estão assentados. Penso que é preciso uma prática do poder público de vistoriar, periodicamente, a situação de cada terreno suspeito.
Que o caso de Niterói sirva de alerta e de cuidado para que uma tragédia deste porte não ocorra entre nós.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 23 de maio de 2010.
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