terça-feira, 22 de junho de 2010

Vendendo gato por lebre (*)

Numa época bem distante, quando era presente um Brasil ingênuo, usava-se para explicar uma vigarice, a expressão “comprou gato por lebre”. Explico melhor. O sujeito era enganado por um malandro que vendia um produto maquiado, de preço baixo, como se fosse um autêntico produto de mais valor. E o otário, metido a sabido, amargava o prejuízo, além de ter feito o papel de bobo.

Cresci ouvindo dos adultos estórias engraçadas desses espertalhões. Isso porém não significava que a sociedade brasileira deixava de ter em seu cotidiano relações de extrema violência.

Pelo contrário, a história da humanidade, como da própria brasileira, sempre esteve permeada de violência e de derramamento de sangue. É assim que a história caminha. Portanto, dizer que o povo brasileiro é pacífico e sua história não é violenta é, apenas, uma grande balela.

Fico neste artigo somente no entendimento da malandragem. Nesta viagem no tempo já distante, o malandro, por exemplo, dos morros cariocas, vestiam sempre uma camiseta listada, calças e sapatos brancos e chapéu de palha na cabeça, e andando, com um gingado no pé. Assim foram registrados esses personagens, para a posteridade, em caricaturas e também nas belas chanchadas dos filmes da Atlântida. Era uma época que não volta mais, do malandro almofadinha “Amigo da Onça”, que desde 1943 povoava as páginas da revista O Cruzeiro, com os traços finos do cartunista Péricles. Lembro também do famoso ladrão Gino Meneghetti, imigrante que aportou ao Brasil em 1913, aos 35 anos, já com um rastro de bandidagem. Meneghetti ficou lendário na crônica policial por não usar de violência em seus roubos de jóias, caminhando pelos telhados e fugindo de cercos policiais. Na contramão desta história de malandragem, lembro do “Bandido da Luz Vermelha”, que ficou famoso no mundo do crime em São Paulo. Atacava mansões ricas de madrugada, utilizando uma lanterna de foco vermelho e era violento, violentando suas vítimas. Esse bandido teve a sua vida filmada pelo cineasta Rogério Sganzerla, tendo no papel título o ator Paulo Vilaça, já falecido.

Deixo de comentar, por motivos óbvios, a rapinagem dos últimos tempos de bandidos de colarinhos brancos travestidos de políticos.

Como esse mundo está de cabeça pro ar, ficou curioso com a malandragem que apareceu recentemente em Mato Grosso do Sul. Por incrível que parece, a velha máxima “vendendo gato por lebre”, adquiriu nova roupagem aqui no estado, sendo noticiadas na imprensa como “vendendo galinha de granja por caipira”. Isso mesmo, têm malandros colorindo penosas brancas com urucum para serem vendidas, evidentemente mais caras, como galinhas caipiras. A polícia rodoviária já prendeu dois carregamentos desta picaretagem. Fico admirado com a criatividade dessa gente que pensa que o povo é otário. Mas que tem muita gente comendo galinha branca, colorida de vermelho, isso tem.

Para quem não sabe, urucum é uma pequena árvore nativa que produz um fruto cheio de espinhos por fora e carregados por dentro de bolinhas vermelhas. Essas bolinhas, que dão um tom avermelhado à culinária regional, podem ser utilizadas moídas ou dentro de azeite. É, também, um excelente remédio para combater o colesterol, após as suas sementinhas ficarem descansando em água.

Ainda, sobre esse produto natural, foi o mestre João, cozinheiro corumbaense de primeira, já falecido, que inventou uma delícia usando esse condimento, o “Pintado a Urucum”, hoje famoso em todo o País.

Mas continuo achando uns gozadores e caras-de-pau esses vigaristas que estão pintando as coitadas das penosas e iludindo os incautos.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 20 de junho de 2010.

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