domingo, 6 de junho de 2010

Memória - janela da história (*)

Este é o título do livro de memórias de Wilson Barbosa Martins, recentemente lançado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul. O ato de seu lançamento transformou-se num dos mais significativos produtos editoriais dos últimos tempos, tanto pela afluência de público, acentuada pela presença de personalidades que participaram nas últimas décadas da política estadual, como pelo surpreendente sucesso de vendas.

É um livro que vale a pena ler e guardar como exemplo da história de um homem que soube dignificar a política sul-mato-grossense (aliás, coisa rara hoje em dia) e nunca se omitiu nos momentos mais difíceis da história do país. Pagou um alto preço pela sua altivez e coragem em defender os princípios democráticos, como foi o caso do discurso na Câmara Federal, em defesa do deputado Marcio Moreira Alves e contra a ditadura militar. Foi um dos deputados cassados naquela fase negra da história brasileira.

As memórias do dr. Wilson, como os amigos o chamam, não foram escritas para ser apenas um livro de recordações do passado. É muito mais uma prestação de contas consigo mesmo e, ao mesmo tempo, uma homenagem à “sua gente” e à “sua terra”. Além da relevante e sensível narrativa de fatos comuns relativos à sua família e sua vida pessoal, o memorialista foi testemunha viva de acontecimentos históricos que mudaram os rumos do país e do estado de Mato Grosso do Sul.

É um homem que no século XXI foca seu olhar e suas recordações na sua trajetória de vida n século XX. Nascido, criado e formado na primeira metade deste período, acumulou uma sólida cultura jurídica humanista e combateu o bom combate conduzido pelos ideais da democracia moderna. Assim, a leitura das memórias do dr. Wilson permite ao leitor perceber claramente o seu engajamento consciente no seu tempo, especialmente por sua perspicácia e sólida formação liberal. Suas atitudes e convicções são enriquecidas pelo amor aos livros, à leitura e ao gosto de contar fatos de sua terra e de sua gente, hábitos que conserva e cultiva graças à disposição invejável que ostenta até hoje. Além disso, teve o cuidado de preservar e dar enorme valor aos documentos e relíquias de família, bem como dos registros que acumulou exercendo funções públicas de alta relevância.

Narra, comenta e procura explicar sua própria vida e sua atuação política de forma naturalmente seletiva, mas também responsável como observador sincero e fiel às suas convicções. Este é um ato de coragem e desprendimento, sobretudo porque passou elegantemente por cima de decepções, derrotas políticas e mágoas, movido pela esperança convicta de que o bem comum e um tempo melhor estão em construção e serão alcançados pelas gerações futuras.

Em suas memórias, faz um passeio pela história entrelaçando momentos importantes de sua vida com acontecimentos que marcaram as últimas décadas da história brasileira. Aproveita a oportunidade para dedicar-se de forma exaustiva e densa à prestação de contas dos seus dois mandatos de governador do estado. Distante no tempo, traz então ao presente o fato de seu governo ter sido um divisor de águas nas formas de administrar e conduzir esta banda oeste brasileira. A admiração e confiança conquistadas foram também os pilares de sua eleição para senador constituinte no período entre os dois governos à frente de Mato Grosso do Sul.

Wilson Martins encerra a sua escrita com uma explícita declaração de amor a sua “terra dadivosa”, no alto de seus 92 anos de vida e de lutas. E parece ser esse amor plenamente correspondido, pois sendo um cidadão amado e reverenciado por uma grande parcela da população sul-mato-grossense. Basta acompanhá-lo pelas suas andanças nas ruas da cidade ou em eventos pelo interior do estado, para ver como é recebido com sinceras manifestações de carinho e respeito. Com toda a certeza, poucos políticos e governantes desfrutam desse privilégio hoje em dia.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 06 de junho de 2010.

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