quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Qual é o preço de um prêmio de consolação? (*)

Depois de derrubar as pretensões de Campo Grande de ser uma das subsedes da Copa do Mundo de 2014, a CBF escolheu a cidade para sediar o jogo do Brasil com a Venezuela. Um premio de consolação... Este jogo é válido para a etapa das eliminatórias, apesar do Brasil já estar classificado. Parece o mesmo que dar um pirulito para acalmar os ânimos de um menino birrento. Mesmo assim, acredito que o Morenão poderá ficar repleto de torcedores.

Mas, pelo andar da carruagem nem tudo são flores, pois o velho estádio deverá passar por uma reforma emergencial, no mínimo uma maquiagem, por um custo orçado em R$ 660 mil. Quem vai pagar esta bagatela? Pelo que se sabe, haverá uma melhoria na iluminação, que atualmente é precária; na recuperação do gramado que, com suas falhas mais parece um queijo suíço; na reforma dos vestiários entre outros benefícios. Tudo isso para melhorar as condições de recepção da seleção de Dunga.

Mas esta festa tem um gosto amargo ao barrar a participação de torcedores pelo alto custo dos ingressos. Segundo o que está ventilando na imprensa, o ingresso mais barato, das duras e desconfortáveis arquibancadas, custará por volta de 100 reais, impedindo o trabalhador de levar a sua família ao espetáculo. Já as confortáveis cadeiras, em número de 5.000, custarão o dobro. O jeito será levar almofadinhas para aliviar o assento nas incômodas arquibancadas. Além disso, como já existem em alguns estádios, pretende-se também construir uma área vip, com ar condicionado, garçom e bebidas ao preço módico de 500 reais por pessoa. Será que a elite não quer sentir a vibração das arquibancadas, o calorzinho típico da nossa terra e o cheiro da plebe ignara, como dizia o mestre Nelson Rodrigues?

Até aqui, para quem tem dinheiro, tudo bem. Mas como chegar ao estádio? Sabe-se que não será permitido o estacionamento de carros no campus da UFMS e também em frente ao estádio, o que já vem acontecendo nos últimos jogos nacionais. Parece que a sugestão para se chegar ao estádio será a locomoção de ônibus até o Terminal Morenão e, depois, seguir a pé, ou chegar o mais próximo possível do estádio por ônibus. Acho que haverá uma bela confusão e mais um sacrifício para o torcedor. Também ouvi uma outra sugestão, de um tremendo gozador com certeza, da utilização de estacionamentos aos redores do Parque Laucidio Coelho, chegando ao estádio através da conexão com ônibus especiais. Parece mesmo uma piada de péssimo gosto, sem contar com o fato do incauto torcedor ficar à mercê de nada amistosos flanelinhas, como aconteceu recentemente com a Expogrande. A solução de todos esses problemas ainda não veio a público, apesar de faltar pouco tempo para a realização do jogo.

Tudo isso basta para se ter uma pálida demonstração das dificuldades que enfrentarão os organizadores deste evento esportivo. Enfim, apenas voluntarismo não é suficiente para encarar uma promoção deste nível. É preciso muito mais do que isso.

O certo é que sendo o futebol uma paixão popular, o que vai restar ao povão será ver a seleção brasileira pela TV. A festa emocionante será só para quem tem bala na agulha.

E, quem tem hoje um dinheirinho sobrando?

Vamos imaginar as contas:

Arquibancada de concreto: 100 reais.
Almofadinha para os glúteos: 15 reais.
Estacionamento: 10 reais.
Flanelinha que vai ficar te assediando: 5 reais.
Ônibus especial: 5 reais.
Ir ao estádio a pé: solas do tênis e pernas acabadas.
Copinho de água: 5 reais.
Latinha de cerveja: nem pensar....
Boné ou peruca verde/amarela: 10 reais.
Bandeira brasileira: melhor levar aquela desbotada da última Copa...

Ver a seleção do Dunga jogando aqui no Morenão: não tem preço?????


Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 27 de setembro de 2009.

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