sábado, 10 de outubro de 2009

A banalização da violência (*)

Nos anos 50 do século passado, um crime hediondo ocorrido na cidade do Rio de Janeiro teve repercussão nacional. Foi a morte da menina-moça Aida Curi, levada e violentada num terraço de um prédio por dois playboys (termo utilizado na época) e o porteiro. Depois de currada (como era chamado o estupro coletivo), o desespero da jovem levou-a a voar para a morte. Ninguém soube se foi suicídio ou se foi jogada por esses marginais. A violência sexual assustou a sociedade da época. A revista O Cruzeiro, a mais importante da época, dedicou em vários números extensas reportagens sobre o fato.

É claro que crimes existem desde o aparecimento do homem, mas sempre teve aqueles que se sobressairam pela dimensão adquirida. Este foi o caso da garota Aida Curi. Lembro que as mães falavam nas salas, onde se reuniam por ainda não ter TVs, em voz baixa para as crianças não ouvirem sobre o horroroso crime. Eu fingia que brincava, mas tinha uma orelha cumprida, conseguia ouvir os cochichos dos mais velhos. Porisso não esqueci esta triste história. Outros crimes também tiveram repercussões nacionais, como a morte de Claudia Lessin, e de uma mulher da alta sociedade mineira assassinada por Doca Street, só para citar alguns casos. No entanto, a maioria dos crimes ficava circunscrita ao seu lugar de ocorrência.

Hoje, o mundo mudou com uma sociedade globalizada e os crimes mais banais entram a todo momento em nossas casas pelas TVs e internet, tudo em tempo real. O caso mais recente foi o de um marginal ao seqüestrar uma comerciante no Rio de Janeiro com uma granada nas mãos. As tristes imagens invadiram todas as casas, das mais humildes aos palacetes, e foram repetidas até à exaustão nos mais diversos horários. Os telespectadores, de todas as idades, ficaram à mercê do “belo” exemplo produzido por uma sociedade marcada por uma violência sem limites. Foi mais um espetáculo deprimente disseminando uma imagem da banalização da violência e de crimes.

Cansada de sofrer violências, as vezes até gratuitas, a sociedade tem aplaudido a política do “olho por olho”, o que demonstra descrença, infelizmente, na força das instituições sociais. É preciso estabelecer uma política dura de combate à criminalidade para defender uma sociedade indefesa. Fico a pensar onde este marginalzinho de meia tigela conseguiu uma granada? Onde está a tal política do desarmamento forçando as pessoas de bem a devolver as armas que tinham em suas casas? Com certeza, os marginais estão até hoje sorrindo e agradecendo esta medida que facilitou a sua “profissão” de roubar, de matar, e assustar a população brasileira.

O espetáculo televisivo mostrou que enquanto a polícia tentava negociar com o marginal para salvar a indefesa sequestrada, aglomerava-se ao redor uma assistência ávida para ver o desfecho daquele espetáculo.E ele veio de maneira surpreendente com um tiro certeiro na cabeça do seqüestrador disparado por um atirador de elite (sniper). Para uma platéia, querendo sangue, o resultado foi uma forte seqüência de aplausos. Isso tudo sendo mostrado ao vivo e a cores pela TV. Um triste exemplo para as famílias que se sentem acuadas em suas residências.

Sem medo de ser considerado politicamente incorreto, ouso a comentar que os aplausos vistos não se resumiram apenas aos expectadores próximos do marginal morto. Tenho escutado em rodas de amigos, das mais diversas camadas sociais, que a sociedade chegou ao seu limite, agredida em seus direitos pela impunidade crescente, predisposta a aplaudir o primeiro vingador da esquina.

É uma pena, mas não se pode esquecer que a barbárie mora ao nosso lado. Essa é uma sujeira que não pode ser varrida para debaixo do tapete, pois a qualquer momento ela aparece e cada vez pior.


Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 11 de outubro de 2009.

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