Há quarenta anos atrás (29.07.1969) ocorreu um fato histórico que, depois disso, o mundo não foi mais o mesmo. Concretizando um sonho que envolveu toda a humanidade, o homem pisou pela primeira vez na Lua, ou melhor, os americanos pisaram. Era a época da política da “guerra fria”, onde os maiorais eram os EUA e a URSS, que haviam dividido o mundo, pós Segunda Guerra Mundial, em duas áreas de interesses e de predomínio. Essa disputa acirrada entre “democracia versus comunismo”, que na verdade escondia uma política imperialista de ambos os lados e justificava a corrida armamentista, golpes de estado, ditaduras sanguinolentas e finalmente, a busca do controle do espaço cósmico.
Este avanço criou a necessidade de novas tecnologias para a sobrevivência dos astronautas que foram muito bem aproveitadas no cotidiano do homem comum. Foram alimentos, chips, meios de comunicação entre outros. Bilhões de dólares foram gastos, mas a humanidade no seu conjunto foi indiretamente beneficiada.
Este espetáculo extraordinário do homem deixar as suas pegadas na superfície da Lua foi visto em todas as partes do globo, pois a televisão já estava ajudando a globalizar o mundo. Aqui, na nossa vereda tropical, a rede Globo já colocava a sua marca no evento, com uma audiência nunca vista, transmitida pelo jornalista Hilton Gomes. Emocionado com fato, o jornalista gritou: “chegamos à Lua”!
Nós quem cara-pálida? Este modo subserviente de encarar o feito dos americanos tão distante levou, com certeza, muitos incautos brasileiros a encherem-se de orgulho. O tempo passou e até hoje, que eu saiba, nenhuma espaçonave brasileira chegou sequer perto da Lua. O oba-oba da rede Globo alardeou uma mensagem subliminar de apoio à expansão dos EUA que os brasileiros ingênuos incorporaram. Entretanto isso não tirou a dimensão deste avanço extraordinário que representou a conquista simbólica da Lua pelo planeta Terra.
Nos dias de hoje é comum ver fatos localizados internamente, ou mesmo em outros continentes, transformarem-se em questões nacionais. Chego a pensar que a necessidade de mostrar uma “pátria grande” encontra suas raízes na preconceituosa superação da herança de séculos de colonização. Prá mim, isto é uma grande bobagem e já foi superado desde muito tempo. No entanto, continua presente nesses tempos a necessidade de mostrar uma emergente liderança continental, a despeito da política das relações internacionais do Brasil estar sofrendo reveses, como o caso da embrulhada que o país arrumou em Honduras. É inegável, entretanto, que nos anos do governo Lula o país deu um salto para o seu reconhecimento em todo o mundo, em diversos setores.
É a velha história de perder o pêlo sem perder a pose. Veja o extraordinário feito da escolha do Brasil para sediar os Jogos Olímpicos em 2016, a primeira vez em um país da América do Sul. Confesso que torci também e fiquei emocionado (não foi só o Lula), orgulhoso da minha terra. Mas isso cria uma responsabilidade de dar frio na espinha. O que será que acontecerá com este país nos próximos sete anos?
A experiência com os Jogos Pan-Americanos de 2007 não encoraja ninguém. O orçamento previsto em 2002 de 410 milhões chegou em 2007, em gastos reais, com um salto 8 vezes maior, atingindo a cifra estratosférica de 3,7 bilhões de reais. E mesmo aquela balela de que os investimentos iriam melhorar a qualidade de vida dos cariocas, a cruel verdade é que os graves problemas sociais continuaram insolúveis, como a “guerra civil” que ocorre nos morros, a violência cotidiana, a miséria, os transportes deficientes entre outros. O pior é que até hoje ninguém sabe onde foi aplicada essa fortuna, muito menos o TCU, e ninguém foi até agora punido.
Se não foi resolvido o caos carioca, então, o que sobrou para o resto do país? A fonte dos recursos deverá vir da dilapidação dos impostos escorchantes pagos as duras penas pelos brasileiros. Agora vem a imprensa divulgando que a previsão de gastos com as Olimpíadas está estimada por volta de 29 bilhões de reais. Pobre de nós. Pelo exemplo do Pan isso não resolverá os problemas do Rio de Janeiro e muito menos do resto do país.
A primeira coisa que me assusta com a aventura das Olimpíadas foi, já de início, a ida para Copenhague de uma caravana de mais de cem pessoas, entre dirigentes, políticos, artistas, com todas as despesas pagas pelos impostos do coitado do contribuinte. Até eu, que sou bobo, estaria feliz pulando de alegria, como vi pela televisão esses felizardos, todos com a mesma linda gravata de seda pura distribuídas gratuitamente. Depois, a comemoração da vitória, em um hotel de muitas estrelas, com boca-livre que se estendeu noite adentro, alegrando uma multidão de mais de 300 pessoas, engrossada por vivaldinos penetras, com farta distribuição de vinhos espanhóis.
Assim, até eu gritaria: “ganhamos as Olimpíadas!” Resta saber em qual mundo vivemos: no mundo real de pés no chão e a cabeça no lugar ou no “mundo da Lua” e da farra dos orçamentos....
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 17 de outubro de 2009.
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