terça-feira, 7 de julho de 2009

Uma cantoria além da modernidade (*)

Revivendo o maior evento folclórico de Mato Grosso do Sul, ocorrido na centenária Corumbá, que é o festejo profano/religioso de São João, deparamos com a oportunidade de conhecer outros folguedos populares como o Siriri e o Cururu.

A dança do Siriri, folclore típico de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, guarda profundas semelhanças com o, “Cateretê”, dança muito difundida no interior paulista. Curiosamente, esse tipo de dança foi usado na catequese jesuítica pelo fato do índio ter um gosto incontido pela música e pela dança. Com o tempo, o cateretê passou a fazer parte dos festejos do Senhor Divino, da Festa de Santa Cruz, de São Gonçalo, de São João e outros. Assim, é possível supor que o Siriri seja uma variação, ou tenha apenas assumido uma nova denominação em substituição ao Cateretê.

Já o Cururu é oriundo da corrente migratória que veio de Poconé a Corumbá, trazendo consigo, além das cantorias com temas pantaneiros, um instrumento musical maravilhoso chamado Viola de Cocho, considerado patrimônio imaterial da região centro-oeste. Esses cururueiros, que habitam em sua grande maioria a região portuária, possuem uma particularidade praticamente desconhecida.

O contato com o Cururu deu-se no Arraial de Tanque Novo, alguns quilômetros distantes da sede do município de Poconé, onde vivia uma médium, conhecida como Doninha, que tratava de pessoas doentes. Isso nos idos de 1930. O arraial transformou-se num grande aglomerado de pessoas, sobretudo pela divulgação do aparecimento de uma “santa” no local. Provocando uma rivalidade política com Poconé, o arraial foi atacado e destruído pela força militar da cidade, com mortes e prisões inclusive da própria Doninha. O cotidiano deste arraial resumia-se a orações, musicas religiosas e Cururu e Siriri. Mesmo com a repressão brutal, essas manifestações folclóricas foram preservadas e difundidas por várias regiões do Centro-Oeste, como aconteceu com Corumbá.

No entanto, a valorização e o reconhecimento de sua importância enquanto manifestação folclórica marcante de Corumbá deu-se algumas décadas atrás, pela ação de uma pesquisadora, uma verdadeira fada madrinha para os cururueiros. Havia na época preconceito e intolerância em relação a essas expressões culturais, até mesmo em parte da população que integrava a comunidade de pescadores e ribeirinhos, reduto dos tocadores da viola de cocho. Considerada música e dança e dança dos velhos, havia rejeição dos mais jovens que se envergonhavam das apresentações públicas de Cururu e Siriri.

Faço, como uma homenagem, o registro da coragem e persistência desta pesquisadora em resgatar este folclore, em prejuízo muitas vezes de suas atividades profissionais e arcando até com gastos do próprio bolso para alavancar a pesquisa e tornar o Cururu uma vitrine folclórica e turística de Corumbá. Refiro-me à professora aposentada da UFMS e historiadora Eunice Ajala Rocha, que se dedicou anos a fio aos estudos folclóricos contando com a ajuda do conhecido cururueiro Agripino Magalhães. Foi a Dona Eunice, como é carinhosamente conhecida, que deu visibilidade ao grupo, levando-o a apresentações por diversas vezes no Centro Universitário de Corumbá-UFMS e em outros espaços do estado. Esses cururueiros, com o já conquistado orgulho e seriedade em manter viva esta manifestação folclórica, foram levados pela mesma professora a uma apresentação oficial na capital federal, Brasília.

O seu amor às manifestações folclóricas motivou a criação na cidade de um grupo de dança do Siriri entre os universitários do curso de História e a elaboração de uma dissertação de mestrado sobre a original festa de São João de Corumbá. Graças ao seu exaustivo trabalho, esses folguedos populares passaram a ser um marco na cultura corumbaense ajudando a compor o mosaico cultural sul-mato-grossense. Porém, como a memória do povo é fraca, neste São João de 2009 não vi nem li, nenhuma referência ao trabalho desta fantástica pesquisadora e defensora da cultura das terras corumbaenses. É uma flagrante injustiça que deve ser denunciada e que não se pode calar.

Além disso, como muitos jornalistas não se pautam por informações bem fundamentadas, muitas bobagens são divulgadas como verdades e as novas gerações correm o risco de perder as referências culturais de nossa região. Talvez por isso ainda exista tanta preocupação em encontrar uma “identidade” sul-mato-grossense. Ninguém se reconhece sem cultura e sem memória.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 05 de julho de 2009.

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