Um verdadeiro papelão, isso é o que se tornou o Trem do Pantanal. E ninguém, em sã consciência, pode demonstrar surpresa. Isto porque se trata de um vexame anunciado. E o fiasco começou pelo fato deste trem não ter nada a ver com o seu próprio nome, Pantanal.
São muitas as questões problemáticas, para não dizer outra coisa, que envolvem este projeto turístico. Uma delas é a preocupação de algumas autoridades em usar e abusar da história e das tradições de nosso estado, em nome de um falso compromisso com a cultura e com a identidade de Mato Grosso do Sul. Digo falso porque diante de qualquer revés essas mesmas autoridades tiram do armário a malfadada proposta de mudar o nome do estado, como se isso fosse solução de todos os seus problemas, como foi o caso da exclusão de Campo Grande dos jogos da Copa do Mundo de 2014. A bem da verdade, pouca gente está de fato preocupada com a cultura e com as tradições dos sul-mato-grossenses, e como cultura não dá voto.....
O caso da ferrovia, numa tentativa de resgatar o trem de passageiros da Noroeste, de saudosa memória para os mato-grossenses e sul-mato-grossenses, é a repetição da manipulação e do descompromisso de políticos e de empresários que realizam parcerias e negócios da China. É até possível que tenha havido algumas boas intenções (das quais o inferno está repleto), mas também é possível que o resgate do trem da Noroeste tenha sido engendrado para aliviar o peso de consciências depois da privatização da empresa ferroviária. Entretanto, se não fazia sentido colocar novamente nos trilhos um trem que já era obsoleto e sucateado há vinte anos atrás, os idealizadores desse projeto deveriam ter tido ao menos um pouco mais de bom senso e de responsabilidade com os seus resultados.
Está claro para qualquer leitor assíduo de jornais que um projeto de restauração de patrimônio histórico e cultural custa muito dinheiro. E a restauração só faz sentido se o bem cultural ou histórico adquirir uma nova função social. A idéia de recriar o trem do Pantanal, nome sentimental dado por artistas à Estrada de Ferro Noroeste do Brasil que, aliás, já não mais se chamava assim quando foi paralisada, é genial, porém inviável. E a inviabilidade não é apenas financeira, é histórica também, porque o passado não se repete.
Quando me refiro aos custos/prejuízos deste trem, aponto também um dos resultados deprimentes deste projeto. Como o dinheiro foi curto, a despeito de toda ajuda pública e privada, foi feita uma verdadeira “gambiarra“ na máquina, nas composições, nos trilhos de bitola estreita e antiga demais, não permitindo nenhum melhoramento tecnológico, incluindo a refrigeração eficiente dos vagões. Houve, de fato, uma “maquiagem” que acrescentou em sua pintura externa alguns bichos tipicamente pantaneiros. Além disso, o trem do Pantanal anda devagar, não porque não tem pressa, mas porque não tem fôlego. E para que houvesse um trem moderno, bonito e veloz seria preciso construir uma outra ferrovia, e um novo trem, coisa absolutamente desnecessária para os objetivos deste projeto e inviável para o estado de Mato Grosso do Sul, carente de tantas outras coisas mais importantes ao seu desenvolvimento.
E a paisagem? O Pantanal não é aqui em Campo Grande, muito menos em Indubrasil, em Terenos, em Dois Irmãos do Buriti e em Aquidauana, pelo menos não no percurso dos trilhos até esta cidade. A paisagem é bonita, mas o trem do Pantanal vende gato por lebre. Isto é um engodo, percebido claramente até por aqueles que não fizeram esta viagem. E quanto a chegar até Corumbá, nem os corumbaenses mais crédulos e inocentes caem nesse conto...
O projeto Trem do Pantanal, muito provavelmente idealizado para alavancar uma imagem positiva e encantadora de Mato Grosso do Sul rumou para o brejo, precocemente, neste mês de junho passado, quando, emblematicamente, um grupo de turistas da chamada melhor idade, comprou o pacote e embarcou numa roubada. E pensar que nunca antes neste país a vida de velhinhos aposentados foi tão difícil: eles recebem aposentadorias aviltantes depois de trabalhar de 3 a 4 décadas; são presas fáceis dos bancos e financeiras que os atraem com a arapuca dos empréstimos consignados; são, na maioria das vezes, excluídos das políticas publicas; são desrespeitados pelos mais novos, sobretudos os jovens que não sabem, nem querem saber, que serão velhos um dia; são ainda arrimos de família em decorrência de uma economia em crise que produz desempregados aos montes; e, finalmente, são clientes preferenciais de agências de turismo fora de temporada, para ocupar as vagas ociosas em hotéis, restaurantes e receptivos de lazer.
Deveriam ser muito bem tratados, mas parece que o grupo da terceira idade que veio ao Pantanal não se sentiu contemplado com o trem do nada que vai a lugar nenhum.
O grupo desembarcou em Aquidauana e fez o resto do percurso por rodovia, recusando-se a entrar novamente de gaiato no navio, digo, trem.
A notícia saiu nos jornais regionais e eletrônicos, o que equivale circular pelo mundo. Pobre Mato Grosso do Sul. Vai continuar a ser matéria de páginas policiais, incluindo uma nova modalidade, um turismo enganoso.
Valmir Batista Corrêa
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