Quem nunca viu a festa de São João de Corumbá, perdeu a oportunidade de assistir a uma das mais significativas festas folclóricas do Centro-Oeste. Esta festa, com origens na colonização portuguesa, estendeu-se como manifestação popular em todos os cantos do país. Na cidade de Corumbá, a festa de São João tornou-se numa manifestação única, com formas próprias, com coloridos locais e o profano superando o religioso.
Talvez, por estar localizada na fronteira permeada por pantanais, a festa corumbaense não atinge a atenção da mídia nacional como as festas nordestinas, muito embora apresente originalidade e dimensão popular. Com certeza, faltam a Corumbá mais investimentos públicos e privados para incluir a festa no calendário dos mais importantes eventos nacionais. Por outro lado, em vários estados do nordeste, o São João transformou-se num grande espetáculo (distanciando das festas folclóricas originais), no mesmo patamar do carnaval do Rio de Janeiro e da festa do boi de Parintins. Não é sem razão que a Petrobrás alardeia investimentos nas festas juninas em mais de 41 municípios nordestinos, aliás, alvos de uma CPI no Congresso Nacional que o governo federal não quer nem ouvir falar.
Consta que no pós-guerra com o Paraguai, no século XIX, a festa de São João passou a fazer parte da paisagem histórica corumbaense. Em 1909, o militar Annibal Amorim registrou em seu livro de memórias suas impressões sobre a festa, as procissões em direção ao rio Paraguai e os rituais de banho do santo que se perpetuam até hoje. Via também, como acontece até hoje, o espírito democrático e popular da festa participando “pessoas do povo e até as melhores famílias do lugar”. Mais tarde, em 1932, o viajante Rezende Rubim ao passar pela cidade deixou um detalhado relato sobre a festa de São João, que também pouco difere das manifestações atuais, inclusive nas suas características comunitárias e democráticas. Escreveu em suas memórias que “em tal instante tudo se nivela, não há cotejo pobre ou rico. Todas as classes levam a sua imagem ao rio e todas, desde a mais modesta até a mais suntuosa, recebem dos fiéis a homenagens a que tem direito”.
A imprevidência dos homens (em especial, os públicos) tenta intervir nesta autêntica e natural manifestação do povo corumbaense. Na década de 1960 a festa descambou para uma batalha campal, quando contendores de cima da ladeira lançavam foguetes aos de baixo ou que subiam com seus andores e que respondiam aos ataques. Nem foi preciso reclamar com o bispo, que interferiu junto da polícia para acabar com aquela “farra”. A ação do bispado de Corumbá provocou em contrapartida o afastamento da participação de católicos e a “repressão” quase acabou com esta festa popular. Na década de 1990, administradores locais introduziram nesta festa grupos baianos de “axé music” e trios elétricos, nada tendo a ver com as raízes históricas do folclore corumbaense, inclusive mudando a localização das barraquinhas de comida típica e dos espaços para bailes.
Para atender também aos interesses da midia televisiva e captar boas imagens, houve uma intervenção em certa época, com a determinação da descida do santo às 22 horas. Tem gente que não aprende mesmo, mas que nem sempre a tradição respeita tais mudanças. É a moda (e o poder) da televisão mudar o horário das coisas e dos acontecimentos para captar audiência, sem interferir na sua programação de novelas, o que já aconteceu com as partidas nacionais de futebol. Mas, acho que o santo não gostou dessas novidades para as indesejáveis mudanças e como alerta neste ano São Pedro interferiu a favor de seu companheiro de céu, João, e fez cair um “toró daqueles”, como dizem os corumbaenses, fazendo as luzes das ruas se apagarem e trazendo um “friuzão” que o povo local detesta. O brilho programado deu “chabú”, mas a festa aconteceu assim mesmo. Eu não vi, mas sei que o pior, como sempre, ficou para os vendedores ambulantes e os comerciantes de barraquinhas alugadas a Cr$ 400,00 (uma exorbitância), que amargaram um nada folclórico prejuízo.
Lembro-me, nos idos de 1970 quando cheguei a Corumbá para trabalhar na antiga Universidade Estadual de Mato Grosso, quando me deparei pela primeira vez com essas festas, ainda sem interferências exógenas de políticos, administradores públicos e imprensa. Sinto uma enorme saudade dos festejos juninos do Barro Preto, da Cacilda e do Dr. José Sebastião Cândia, do Arraiá da Shá Onça da Helô e da Peninha, todos irmanados no compromisso de pagar com muita alegria suas promessas ao querido santo. Foram muitos banhos de rio e muitas mudanças, sem afetar, entretanto, o espírito da comemoração dos corumbaenses, festeiros por natureza.
“Deus te salve João Batista sagrado....”. Ano que vem estarei lá, para ver o São João, rever os amigos e renovar minhas energias à beira do rio Paraguai.
Valmir Batista Corrêa
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