domingo, 26 de julho de 2009

"Estou me lixando", disse uma cara de pau (*)

A cada momento novas notícias aparecem na imprensa enxovalhando, ainda mais, a classe política brasileira. A corrupção, que não é coisa nova e parece que está fora de controle é reforçada por uma total e escandalosa impunidade. E o que espanta é que esses atores da má política, sem qualquer pudor e vergonha na cara, continuam a se manifestar publicamente.

Há quase dois meses, um acontecimento na Câmara do Deputados causou profunda perplexidade pelo modo com que deputados federais encaram a opinião pública. Não faço aqui generalizações para não cometer injustiças. Foi o caso dos cinco minutos de triste fama de um deputado, Sérgio Moraes, totalmente desconhecido no cenário nacional, que faz parte do chamado “baixo clero” do Congresso. Fez carreira política em Santa Cruz do Sul/RS, onde foi prefeito, e traz contra si denúncias de corrupção administrativas e criminais. Na época, foi relator, depois defenestrado, do processo contra o deputado Edmar Moreira, aquele curioso senhor que construiu um castelo em Minas Gerais, e usando a tal “verba indenizatória” em sua firma de segurança. É a já famosa e perversa mistura do público e do privado. Colocando a ética em baixo do tapete, Moraes, antes do término do processo, já inocentava o seu amigo Moreira. Indagado se não tinha medo de responder pelos seus atos perante os eleitores, simplesmente disse que estava se “lixando para a opinião pública”. Depois, tentou desdizer esta infeliz frase, mas a coisa já estava feita. Mesmo assim, o homem do castelo foi inocentado.

Agora o dep. Sérgio Moraes voltou à carga elogiando o seu amigo, na televisão, ao afirmar que “v. ex. tem que andar de pescoço erguido”. E foi além no seu desprezo pela opinião pública, ou melhor, pelo eleitorado de Santa Cruz do Sul, ao afirmar que nas próximas eleições ele tinha certeza de que voltaria à Câmara dos Deputados.

Esse deboche demonstra uma verdade cruel da política brasileira: a falta de consciência política do eleitorado nacional. Existe uma distância incomensurável entre o que se faz no parlamento e a realidade municipal, onde os políticos têm as suas bases eleitorais. De fato, posturas de estadista, defesas intransigentes das questões nacionais, combate sistemático à corrupção são valores que infelizmente não se levam em questão ao assinalar o voto na urna eletrônica. A política está tão desgastada e desvirtuada que o grosso do eleitorado é movido por benefícios imediatos, mesmo sendo “proibido” pela legislação eleitoral. Se a corrupção continuar a persistir nas grandes cidades é possível imaginar as ocorrências nos grotões mais distantes e isolados. Por isso, a certeza do deputado Sérgio Moraes em sua reeleição.

A falta de educação política é a irmã siamesa dos partidos políticos e também sua fragilidade representativa. Creio mesmo que esta fragilidade está em consonância com os interesses da máquina partidária de manter a alienação da consciência do cidadão, seja ele filiado ou um simples eleitor. Desse modo, qualquer reforma política passa, necessariamente, pelo fortalecimento dos partidos políticos, que deveriam se transformar em escolas de cidadania e de participação política além, é óbvio, de uma seleção séria e criteriosa de seus candidatos.

Mas como acontecer esta revolução no trato político-partidário, se são esses mesmos políticos que estão envergonhando o país, os legisladores de leis e das reformas exigidas pela Nação. Esta é a encruzilhada política que enfrenta hoje o País e o seu futuro. Antes chamada com orgulho e admiração como a Casa de Leis, pelos mais recentes acontecimentos, tanto a Câmara Federal como o Senado transformara-se em casas de maus exemplos. Ou melhor, em casos de polícia. Até quando? Só existe uma resposta e esta fica com a consciência do povo brasileiro.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 19 de julho de 2009.

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