Parece que S. Pedro não está nada satisfeito com a vida “fácil” dos brasileiros. Pois tem desabado uma chuvarada, provocando inúmeras tragédias nas mais diversas partes do país que, por imprevidência, parece não estar preparado para esses cataclismos. É uma maldade só, porém democrática, atingindo tanto pobres e miseráveis quanto turistas endinheirados. Parece até que o velho santo leu e resolveu contrariar o teórico do absolutismo, Machiavel, que orientava que quando se quer fazer o “bem”, deve-se fazê-lo aos poucos para todos perceberem e sentirem seus efeitos e, ao contrário, quando se deve fazer o “mal”, este deve ser feito de uma vez só, logo, todos o esqueceriam. Porém, justamente o contrário está acontecendo. É o exemplo da capital paulista que há quase dois meses vem se afundado em água, lama e excrementos.
No entanto, como se vê, o dragão das enchentes está matando, afogando e desalojando as mais diversas regiões, umas mais, outras menos. Porém, não se pode simplesmente responsabilizar Deus. Está certo que o país vem sofrendo ocorrências de chuvas excessivas e muito fortes e, digo mesmo, exageradas. Por que o clima mudou? Com certeza, é uma resposta da natureza a centenas de anos de agressividade provocada pela insanidade dos homens. Foi uma exploração sem fim e sem preocupação com o estabelecimento de uma política de preservação ambiental.
Em primeiro lugar, existe implícita a responsabilidade das autoridades que sempre permitiram tudo para não contrariar interesses, principalmente para atender objetivos eleitorais. Isso sem mencionar o escorpião da corrupção. Vejo que não existe nenhum planejamento habitacional ao se permitir a construção de casas (em especial de baixa renda) nas encostas dos morros. Seria o medo de contrariar os eleitores que, com isso, passam a correr riscos por contra própria, como se está vendo todos os dias nos meios de comunicação, desmoronamentos, soterramentos e tragédias familiares.
De quem é a culpa, afinal? Dos que sonham em ter uma casa, mesmo miserável e pendurada nas pontas dos morros? É claro que não. Os responsáveis são os que permitiram o avanço “imobiliário” em morros, em lugares perigosos, em ilhas paradisíacas, em regiões baixas como nas várzeas do rio Tietê, que tem o irônico nome de “Pantanal”. Há mais de dois meses, essa região está inundada e seus moradores, chafurdando em lama e esgoto. A irresponsabilidade é tanta que existem ali conjuntos habitacionais financiados com dinheiro público. Mas, a impunidade garante que nada vai acontecer aos verdadeiros responsáveis.
Aqui em Campo Grande, a cada instante aparecem espigões, “comendo áreas verdes”, com espaçosas garagens em subsolo, não permitindo o escoamento de águas fluviais. Muitos, inclusive, às margens dos nossos principais córregos. Será que existem neles as custosas usinas de tratamento de esgoto? Contudo, alguém autorizou essas construções.
Por outro lado, também existem em grande quantidade pessoas que, motivadas pela ignorância e pela falta de civilidade, contribuem muito para esse caos. São as que jogam todo tipo de lixo (sacos plásticos, embalagens “pet”, móveis descartados, só para nomear alguns) que, invariavelmente, entopem as “bocas de lobo”. O resultado é que, em vez de escoar a enxurrada, a água e o lixo voltam, transbordando e inundando tudo. Basta ligar a televisão para ver esses tristes e deprimentes espetáculos. Neste caso, a culpa também recai sobre o Estado que não cumpriu o seu papel de educar e transformar o indivíduo em cidadão para atuar na comunidade com responsabilidade e respeito, inclusive à natureza.
Tudo isso está presente a cada momento para quem quiser ver. E não adianta reclamar apenas com São Pedro. Ele é o mais inocente de todos.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 14 de fevereiro de 2010.
Nenhum comentário:
Postar um comentário