segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Razão nada tem a ver com ditadura (*)

Nesta semana, estava eu transitando pela avenida Zahran (em Campo Grande-MS), quando vi à minha frente um automóvel Fiat Uno Mille, já gasto pelo tempo, com placa que deixo de citar por não ser objeto deste artigo, dirigido por um senhor idoso. No vidro traseiro estava escrito em letras garrafais, para o horror do bom senso e dos que acreditam na democracia, a frase “Os militares tinham razão... AI-5”. Para o conhecimento dos mais jovens, é importante frisar que esta frase refere-se ao Ato Institucional n. 5, que em 1968 endureceu o regime, escancarando atos discricionários e ditatoriais. Era o auge dos “anos de chumbo”

Só quem viveu sob uma ditadura pode lembrar o significado terrível do “AI-5”. Faço uma ressalva, pois não me refiro à instituição militar atualmente, cujo trabalho vem dignificando e honrando o país defendendo a democracia e exercendo atividades humanitárias e em defesa da paz, como ocorre no Haiti. Militares brasileiros pagam com o preço de suas preciosas vidas pela missão e estão sendo recebidos na sua volta como heróis nacionais.

A partir da frase exposta naquele carro, concentro-me nos anos de 1964-1985, quando militares e um grupo de civis governaram o país com mão de ferro.

O que espanta, entretanto, é o fato de uma pessoa se expor publicamente defendendo a volta da ditadura, de tão triste memória, contrariando os princípios de liberdade e os direitos constitucionais. E o que é pior, este indivíduo não está sozinho nesse horroroso exemplo, pois tenho ouvido de idosos e jovens de todas as camadas sociais, manifestações desse saudosismo espúrio e, eu diria ainda, ignorante. Quando pessoas começam a pensar assim, a sociedade corre perigo e pode-se dizer que uma luz vermelha está se acendendo.

Quem tem saudades da ditadura não lembra do terror que ela impõe aos seus adversários e a repressão que persegue a todos, culpados por ser oposição, ou inocentes. Perde-se o direito de falar o que se pensa, o direito de ir e vir, de publicar críticas, de manifestar formas artísticas que contrariam os “donos do poder”, enfim, a sociedade que assim consente abre mão dos seu mais elementar direito: a liberdade.

O que está errado neste país que gera pensamentos tão perigosos? Para começar, vivemos hoje uma democracia que permite que todos formulem as suas opiniões, mesmo aquelas que atentam contra a liberdade e os direitos humanos: tem gente que defende a pena de morte, tem gente que fala em favor da censura nos jornais, nas TVs e nos cinemas, tem gente que prega o fechamento do congresso nacional, e ainda tem gente que prega a intolerância em todas as suas formas espúrias.

O que mais tem chamado a atenção da sociedade brasileira, hoje, é a farta exposição nos meios de comunicação do “mar de lama” que a corrupção derrama sobre os mais diversos níveis da política brasileira e do empresariado. Parece que ainda vigora a fatídica “lei de Gerson”, que diz que o indivíduo deve sempre levar vantagem em tudo na sua vida. A corrupção existe e é grande. Todavia, sabemos de todas as “maracutáias” realizadas em Brasília, ou pelo país afora, simplesmente por que existe l-i-b-e-r-d-a-d-e de informação. E isso é muito precioso numa sociedade democrática.

Tenho visto e ouvido com freqüência, como um indesejável senso comum, que na época da ditadura no Brasil não havia malversação do dinheiro público, impunidade, compra de votos, somente para ficar em alguns exemplos. Ledo engano. Havia sim e em grande quantidade. Votos não eram comprados, por que havia o terror e a repressão. As “más notícias” não chegavam à população, pela a imposição do AI-5, amordaçando todos os meios de comunicação e proibindo todas as formas de opinião que não fossem favoráveis ao regime de exceção. Assim, somente chegavam a público as notícias favoráveis ou que interessavam aos detentores do poder. Criou-se então a falsa imagem de que nos tempos da ditadura a sociedade estava mais protegida da bandidagem política do que no desenrolar da vida democrática.

Só para ressaltar, na ditadura n-ã-o e-x-i-s-t-e corrupção por que vigora a c-e-n-s-u-r-a. Ou seja, a sujeira é varrida para debaixo do tapete para ninguém ver. Pior ainda, poucos privilegiados que se apoderam do poder fazem o que bem entendem, inclusive roubar os cofres públicos, simplesmente por que o povo é impedido de fiscalizar.

O saudosismo pela ditadura encaminha perigosamente para a descrença da população nas instituições que garantem a participação popular na política e na l-i-v-r-e escolha de seus representantes através das eleições diretas e universais.

A melhor forma de proteger a democracia e combater os “filhotes” retardatários da ditadura está em romper os históricos de impunidade que afloram, infelizmente, em todas as partes do país e, acima de tudo, defender a liberdade de imprensa. É ela que não deixa acumular a sujeira em baixo do tapete da sociedade brasileira.

Apesar de todos esses exemplos em que a sociedade fica moralmente sentida, ainda é preferível uma democracia doente que expõe suas fraturas, do que a assepsia ilusória de uma ditadura.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 31 de janeiro de 2010.

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