Tempos atrás foi exibida uma novela, “O Bem Amado”, do escritor Dias Gomes, que tinha um personagem fantástico, o cangaceiro Zeca Diabo, interpretado pelo excepcional ator Lima Duarte. O maior sonho do Zeca Diabo era aprender a escrever “de carreirinha”. Era esse o bordão característico de seu personagem, que achava bonito escrever uma letra atrás de outra, em linha reta.
Às vezes vejo o sonho desse personagem de ficção tornar-se realidade com o esforço de pessoas idosas, analfabetas, que com muita coragem e seriedade voltam aos bancos escolares em cursos de alfabetização de adultos. Com semblantes felizes demonstram com orgulho sua nova condição de cidadania ao conseguir ler e escrever.
É terrível a escuridão que enfrenta o analfabeto nos tempos atuais. Mesmo algumas medidas de cunho social, como ter título de eleitor e poder votar, não diminuem as dificuldades de enfrentamento do dia a dia, como pegar um ônibus, entender letreiros comerciais, fazer compras em supermercados, etc. Mesmo assim, as pesquisas têm demonstrado que, apesar do esforço da área educacional, o analfabetismo tem crescido inclusive nas camadas mais jovens. Também cresce em todos os estados, o chamado “analfabeto funcional”, aquele que consegue apenas “desenhar” o nome, sem contudo entender o que lê e ter autonomia e lógica no que escreve.
Sem querer ser um chato ou um dom Quixote contra a modernidade, ouso tratar de uma situação que deveria ser seriamente encarada pelos nossos educadores. Começo lembrando dos velhos tempos em que a alfabetização começava com um bonito caderno de caligrafia, em que os alunos treinavam os contornos das letras bem redondinhas. Em fase posterior, os professores faziam os ditados para que os alunos entendessem as sílabas e reproduzissem as palavras corretamente. E as crianças exibiam orgulhosas aos seus pais suas tarefas apreendidas na escola, em cadernos limpos e encapados.
Agora, com o avanço da tecnologia, muita coisa mudou e dois instrumentos, como irmãos siameses, fazem parte do cotidiano estudantil: a calculadora e o computador.
Faço primeiro uma reflexão sobre o uso da calculadora na escola. Antes, havia o terror de decorar a tabuada, necessária para o exercício das quatro operações aritméticas. Aliás, ainda tão necessárias para o desenvolvimento da vida cotidiana. Lembro quando alguns colegas usavam alguns truques para facilitar as dificuldades de memorização, como o instrumento japonês chamado “ábaco”, imediatamente proibido pelos mestres.
Entendo que este posicionamento era a consciência de que a aritmética era vital para o desenvolvimento do raciocínio. E, para o bom desenvolvimento da cidadania dêsde pequenos, creio que seria importante eliminar do ensino fundamental o uso de calculadora, que induz no fundo a uma “preguiça” mental nos estudantes, criando facilidades e impedindo que executem um exercício relevante para o desenvolvimento de suas capacidades cognitivas e de raciocínio lógico.
Por outro lado, a disseminação de computadores tem colocado em cheque a língua pátria levando os estudantes a desaprendê-la. O perigo é transformar o computador, que é um instrumento/meio auxiliar importantíssimo no processo ensino-aprendizagem, em um fim em si mesmo. O computador muda hábitos, facilita a vida, mas criando novos procedimentos sem um suporte de conhecimento básico, de linguagem formal escrita e matemática, podem desvirtuar a formação dos estudantes.
O pior é ver políticos usarem como panacéia da melhoria da qualidade de ensino grandes investimentos na compra de computadores para as escolas. Sem ser contraditório, entendo ser importante o acesso de jovens e adultos aos mais recentes meios de comunicação e interação global da rede de computadores. Eu mesmo, neste momento, estou utilizando um notebook para escrever este artigo e não vivo mais sem ele. Mas é sempre bom lembrar que computadores e máquinas em geral são ferramentas e não fazem milagres.
Por isso, vejo com muito interesse uma reação de algumas escolas da capital paulista, que passam a exigir de seus alunos que escrevam à mão, para evitar que “ o uso frequente do computador, no colégio e em casa, [fazem com que]os estudantes percam a caligrafia e deixem de atentar para as normas cultas” (Folha de S. Paulo, 18.01.2010) do português. Algumas escolas, mesmo aceitando as pesquisas dos estudantes através do computador, somente aceitam os trabalhos escolares apresentados manualmente. Mesmo porque muitas dessas “pesquisas” via internet são meras reproduções e as tarefas tornam-se todas iguais, impedindo a avaliação e o acompanhamento do desempenho escolar de cada aluno.
Esta forma de ver o uso de computadores nas escolas é uma forma de rever conceitos importantes da educação moderna, de qualidade e para a formação de cidadãos. E, por fim, deve-se ter em mente que a tecnologia deve estar a serviço dos professores e dos alunos, de forma criativa, sem menosprezar o conhecimento bem fundamentado e a formação de uma massa crítica para a sociedade do futuro.
Espero que ao menos essa polêmica chegue a Mato Grosso do Sul.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 07 de fevereiro de 2010.
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