quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Um circo sem pão (*)

Nos tempos do Império Romano, para compensar a miséria e a exploração de sua população, foi construído o Coliseu, teatro que dava diversão e alienação aos romanos. Nessa época foi cunhada a frase “pão e circo”, como fórmula para controlar a diversidade de povos sob o domínio do império. Os espetáculos eram promovidos por lutas de gladiadores, escravos preparados para lutar e morrer, para o divertimento da turba ensandecida. Depois foi a vez dos cristãos serem comidos por leões, novamente para o prazer de pessoas ávidas por violência e sangue.

Muito tempo depois, na época da Revolução Francesa, o populacho enraivecido pela fome e pela miséria, provocado pelo luxo de uma nobreza inconseqüente e exploradora, rompeu o medo e mudou a história da humanidade. Em resposta aos que gritavam de dor pela fome, Maria Antonieta, a jovem e bela rainha francesa, aquela que perdeu a cabeça na guilhotina, cunhou com desdém a frase, “Quem não tem pão que coma brioches” (segundo o Aurélio, “pãozinho muito fofo, feito de farinha de trigo, fermento, manteiga, sal e ovos”). Se as frases foram de fato verdadeiras, ninguém sabe com certeza. Porém, vale a versão.

Faço essas reflexões históricas (reconheço, meio amalucadas), ao ler uma notícia divulgada pela imprensa local, sobre um jogo da seleção brasileira aqui no Morenão. Foi divulgado pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira, aquele mesmo que deu uma rasteira em Campo Grande que pleiteava ser subsede da Copa do Mundo de 2014. Será um confronto entre o Brasil, já classificado, contra a Venezuela, último jogo do calendário das Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo de 2010. Penso ser uma passada de mão na cabeça dos sul-mato-grossenses para compensar o menosprezo com que foi tratada a nossa capital. É claro que muita gente vai cantar e dançar de felicidade ao assistir o espetáculo da seleção brasileira no Morenão. Mas, nada vai mudar a situação de constrangimento que passou a população do estado. Nem mesmo o sorriso irônico de Ricardo Teixeira, há muito controlando com mão-de-ferro a CBF, além do fato de ter entre seus méritos o fato de ser genro do todo poderoso João Havelange.

No fundo eu preferia que Campo Grande fosse escolhida como subsede da Copa do Mundo, mesmo que tivesse de assistir jogos de timinhos da África ou da Ásia. Isso por uma razão muito simples, isto é, pelos altos investimentos que, a pretexto de melhorar a estrutura esportiva, espalhariam também na estrutura hoteleira, na infraestrutura de transporte para corrigir o caótico trânsito da cidade, em melhorias na saúde e na educação e, por aí afora. Com certeza, tais perspectivas permitiriam um grande salto de qualidade de vida da região. Como os estados digladiaram-se por este espólio, Mato Grosso do Sul ficou com as migalhas. Ou melhor, um joguinho só que não provocará mudança nenhuma.

Vi também dirigentes esportivos locais anunciando melhorias que farão no Morenão, como mais cadeiras e lugares numerados nas gerais, na iluminação, nos vestiários e no gramado. Já vi tudo: será mais uma justificativa para aumentar os preços dos ingressos. Mas, o mais importante até agora ninguém falou. São as medidas urgentes para garantir a segurança dos torcedores. Cito como exemplo o jogo entre o Corinthians e o Misto de Três Lagoas. Ao chegar ao lado do estádio, os estacionamentos de carros estavam interditados, ficando todos à mercê de ameaçadores guardadores de carros. Irá acontecer a mesma coisa?

Depois, a irresponsabilidade continuou com a abertura de só um portão de entrada das gerais, onde se concentra o maior número de assistentes. Tal desmando provocou filas quilométricas, testando a tolerância de mais de uma hora de espera, sem contar a incontrolável ação dos espertos fura-filas. Fico a perguntar por que os dirigentes do Morenão não abriram outros portões para facilitar a entrada dos torcedores? No entanto o mais grave ficou na saída após o término da partida. Por uma irresponsabilidade criminosa, apenas um portão ficou aberto, obrigando os que saíam das gerais a andar em um corredor apertado e escuro. O resultado seria uma tragédia sem tamanho se houvesse apenas um princípio de tumulto.

Não quero trazer mau agouro neste espetáculo esportivo, mas até mesmo o “pão e o circo” merecem respeito.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 13 de setembro de 2009.

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