As pesquisas de opinião e seus resultados são instrumentos imprescindíveis para decisões importantes a serem tomadas em todos os campos da sociedade. Em qualquer disputa eleitoral, são as pesquisas que norteiam as estratégias das campanhas dos políticos. Os governos federal, estaduais e municipais não conseguem caminhar sem acompanhar os humores, aprovações ou reprovações da população. Mesmo acontecendo denúncias de manipulação das pesquisas por espertalhões, elas estão presentes a todo o momento no nosso cotidiano.
Por isso, pareceu uma notícia agradável e necessária a contratação feita pela Secretaria Estadual de Educação de uma empresa para avaliar o desempenho educacional dos estudantes sul-mato-grossenses. A um custo de R$ 1,03 milhão, a pesquisa pretende diagnosticar o estágio educacional de 63,6 mil alunos em várias faixas: 3o ano do ensino fundamental, 1o ano do ensino médio e 1a fase da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Segundo a assessoria do Governo do Estado, a pesquisa pretende traçar um perfil do aluno, mostrando as deficiências e as melhorias necessárias para corrigi-las. A feliz empresa que venceu a licitação, “Avalia Qualidade Educacional Ltda.”, que receberá R$ 16,28 por aluno, deverá aplicar provas de língua portuguesa e de matemática no próximo mês de novembro e será responsável pela elaboração, fiscalização e correção dos testes.
Até agora apenas vi críticas do presidente da Federação dos Trabalhadores em Educação de MS, professor Jaime Teixeira, afirmando em síntese que este dinheiro gasto com uma empresa poderia ser aplicado aqui mesmo, com docentes e técnicos do próprio Estado, que possuem capacitação suficiente e à altura para desempenhar tal tarefa. Portanto, um desperdício de dinheiro público e, de certa forma, um desprestígio para os que aqui “ralam” no dia-a-dia das escolas estaduais. Também alerta sobre a falta de investimentos, recuperação, material didático que poderiam ser contornados com esta vultuosa verba.
Compreendo as preocupações e as desesperanças deste dirigente sindical. Porém, gostaria de fazer uma reflexão sobre o assunto e caminhar em outra direção. Partindo do princípio de que o aluno está no ponto final de uma longa cadeia educacional, já existem dados e indicadores suficientes para analisar como os alunos estão saindo dessas etapas. Sem desmerecer a pesquisa, muito provavelmente o resultado será o óbvio sabido e comprovado. Creio que o mais sensato seria a realização de pesquisas nos outros vários estágios da educação, contabilizando seus efeitos para uma melhor preparação do aluno.
Os primeiros passos para uma verdadeira revolução na educação e na sociedade sul-mato-grossense devem começar por uma ampla pesquisa no tripé família-escola-professores. A pesquisa nas famílias que têm filhos na rede estadual poderia detectar problemas, salários e desempregos, arrimos de família, interferência social do estado, relações e incompatibilidades entre pais e filhos, violência, drogas, responsabilidade dos pais perante a escola e, finalmente, a concepção de cidadania no viver da família. Os indicadores extraídos desta pesquisa inovadora poderiam ajudar a compreender a família em sua essência e como melhorar suas relações com a escola.
No caso da escola, não se deve somente objetivar na pesquisa questões materiais, computadores, etc. Isso é importante, mas não é objetivo fim da escola. A pesquisa deve ser mais ampla, sobretudo detectar o que a família espera dela (não a visão equivocada de substituir a função e a responsabilidade que cabe ao núcleo familiar), na sua transformação em um centro social de alternativas de lazer, trabalhos comunitários, cursos de crescimento social e de qualidade de vida. Enfim, transformar a escola em uma instituição da qual a família possa se orgulhar, conservar e preservar.
Agora, me parece fundamental, é fazer uma pesquisa com os professores, verdadeiros esteios de uma boa e profunda educação. Não acredito que o problema seja apenas salarial. Uma pesquisa que com certeza indicará seus desejos, sonhos, aspirações, frustrações e os quesitos necessários para a valorização e o resgate do orgulho de “ser professor”. Tais pesquisas poderão mostrar o que é preciso modificar para chegar, no final da cadeia, à uma educação de qualidade e de valorização da cidadania.
Caso contrário, sei não...
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 06 de setembro de 2009.
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