segunda-feira, 22 de junho de 2009

A batalha de Itararé (*)

A década de 20 do século passado ficou marcada por manifestações de rebeldia revolucionária dos militares brasileiros, conhecidas por “Tenentismo”, como uma reação à política e aos grupos dominantes no poder durante a República Velha. Começou com a revolta do Forte de Copacabana, em 1922 e, dois anos depois, com a Revolução Paulista, sempre com a vitória das forças legalistas do governo federal. Também em decorrência deste movimento revolucionário e, ainda, como reação à política brasileira, surgiu a histórica e emblemática Coluna Prestes, organizada a partir da divisa de Mato Grosso com São Paulo. Esta epopéia revolucionária, um feito que extrapolou os limites da história militar brasileira, percorreu por dois anos todo o interior brasileiro, encerrando esta aventura na região da lagoa Gaiva, do lado do território boliviano.

No entanto, foi a cisão da classe dominante em 1930 que pôs fim ao período da República Velha. Nas eleições presidenciais, Washington Luis então presidente da República, lançou como candidato oficial o paulista Julio Prestes, provocando uma cizânia política. Seus oponentes lançaram então o gaúcho Getúlio Vargas. Como era prática usual a manipulação eleitoral, o candidato oficial ganhou a eleição.

O inconformismo com esse processo eleitoral fez estourar a chamada Revolução de 1930, com tropas revolucionárias lideradas por Getúlio Vargas deslocando-se em direção à capital, Rio de Janeiro. Na cidade paulista de Itararé, as tropas que apoiavam Washington Luis posicionaram-se para bloquear o avanço das tropas gaúchas. A possibilidade de um grande confronto dominou o noticiário da imprensa nacional, que se referia a esse choque potencial como a Batalha de Itararé. A população local evadiu-se, houve escaramuças entre partidários dos dois lados e prédios e residências foram saqueados. Assim, esperava-se um grande combate, entretanto abortado com a rendição das tropas que apoiavam Washington Luis para os revolucionários. Desse modo, a Batalha de Itararé ficou conhecida como “a batalha que não houve”. E essa cidade do interior paulista carrega, até os dias de hoje, um estigma e um certo constrangimento pelo acontecimento inusitado, que virou piada na imprensa.

Guardadas as devidas proporções, a exclusão de Campo Grande como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, foi uma verdadeira “batalha que não houve”. Ainda não foram contabilizados as perdas e danos a médio e logo prazo com esta infeliz (para nós) decisão da Fifa.

Mas foi mesmo uma decisão da Fifa? Segundo o jornalista da Folha de São Paulo, Juca Kfouri, não foi mesmo. A responsabilidade coube exclusivamente ao presidente da CBF, o polêmico Ricardo Teixeira. Ou seja, aquela encenação da Fifa foi para “inglês ver”. Ou, com outras palavras, uma tremenda tapeação de cartas marcadas, pois Teixeira, antecipadamente, teria preferido Cuiabá.

Já que a justificativa principal para essa escolha foi uma proximidade com o Pantanal, é óbvio que a indicação deveria recair sobre Campo Grande. E se o critério de escolha aproximava-se de questões ecológicas, jamais poderia ter sido escolhido um estado cujo governador vem sendo apontado como um dos responsáveis pelo desmatamento desenfreado e recente do norte mato-grossense, a ponto de um programa de TV humorístico atribuir-lhe o troféu “Motosserra de Ouro”.

Nesta semana de ressaca dos campo-grandenses, o professor Hildebrando Campestrini escreveu um brilhante editorial no Correio do Estado (em 04\06) colocando os pingos nos iis da questão, e eu concordo com ele em número, gênero e grau. Houve despreparo, amadorismo e, sobretudo, desconhecimento da história de nossa região.

Assim, a desventura de Campo Grande pousou, sobretudo, na falta de força política e de planejamento de seus administradores trapalhões. Esse vexame deve servir, entretanto, de alerta para futuras empreitadas, sem amadorismos, sem equívocos, sem lobistas mal afamados, sem publicitários ultrapassados, sem modelos cinquentonas e sem jogadores de futebol aposentados. É uma pena, pois foi dinheiro público que escorreu pelo ralo e poderia ser melhor empregado, ainda que fosse apenas para promover as belezas da nossa cidade.

Por outro lado, a festa dos cuiabanos perdeu seu brilho com a resposta chula de seu prefeito, mandando Campo Grande “tchupar manga”. Isso não podia acontecer, mesmo que fosse um revide aos pronunciamentos infelizes do nosso governador.

Na verdade, perdemos mais um bom combate e Campo Grande ficou chupando o dedo... Além do mais, um espetáculo de baixarias políticas ninguém merece.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 6 de junho de 2009.

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