segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mudança de nome resolve nossas mazelas? (*)

O maior perigo para as pessoas de memória curta é a existência de pesquisadores que têm a mania de colecionar e arquivar recortes de jornais. Pois bem, eu sou um deles. Pego na minha biblioteca uma pasta com o título “Estado do Pantanal”, onde procuro ver se houve mudanças de pensamento das pessoas ditas formadoras de opinião. O risco é a constatação da existência de oportunistas de ocasião. Isto porque voltou à tona a discussão sobre a mudança do nome do estado.

Tudo para escamotear a frustração de Campo Grande de não ser escolhida como subsede da Copa do Mundo de futebol, ou mesmo, para desviar a atenção sobre a incompetência dos nossos políticos e dirigentes. Creio que esta discussão é pertinente e deve ser democraticamente ampliada para toda a população. No entanto, não deixa de lembrar a história daquele sujeito que, traído pela esposa em sua própria sala de visitas, põe fogo no sofá. A mudança do nome do estado, aprovado ou não, não apaga o vexame que passou o campo-grandense que, aliás, não pode ser responsabilizado pelos acontecimentos.

Mas voltando ao começo, este assunto surgiu na década de 90 do século passado. Foi no jornal O Palanque, de 14 de março de 1999 que apareceu a notícia “Zeca quer outro nome para MS”. O que deveria ser uma discussão saudável, transformou-se numa radicalizada intriga política-partidária. Volto a repetir: tenho uma imensa coleção de recortes de jornais sobre o assunto e acompanhei cada passo desse “imbróglio”.

Isso vale uma reflexão. A discussão perpassa por algumas questões, muitas de senso comum e às vezes equivocadas, que são escamoteadas ou mal resolvidas. Apesar de um longo amadurecimento do processo histórico sobre a tendência divisionista sulista, ainda faltam explicações sobre a construção de uma identidade para Mato Grosso do Sul. Além disso, é preciso superar a falsa idéia de Mato Grosso do Sul como um território sem história e sem cultura. Talvez, por isso, o nome do estado continua provocando confusões, por exemplo, a mídia nacional que só fala em Mato Grosso (situação que quase sempre beneficia o estado visinho), e passa uma imagem depreciativa para os próprios sul-mato-grossenses. No entanto, depois de tanto tempo da criação do estado, a responsabilidade desta confusão ainda persistente deve ser exclusivamente creditada aos seus dirigentes, políticos e empresários que não tiveram sensibilidade suficiente para solucionar o problema.

Acredito que diversos fatores podem ser elencados para explicar as inquietações levantadas acima, porém o principal concentra-se no âmbito educacional. É a falta de conhecimento da história da região, em especial, pelas dificuldades de acesso aos trabalhos historiográficos. Poucos conhecem os textos históricos, ditos clássicos, ou fontes documentais que falam da região, partir do século XVI. Outro pequeno grupo, dedicado ao conhecimento acadêmico, conhece e produz historiografia regional, mas não a multiplica pela existência diminuta de editoras, de distribuição ou de apoio institucional para melhor divulgação da história regional entre os professores da rede escolar.

Contudo nos meios culturais e na mídia regional, é recorrente em tempos alternados o surgimento da pergunta única e direta: por que o nome Mato Grosso do Sul? E ainda, é preciso mudar seu nome para criar uma nova imagem do estado, ou mesmo para resolver os graves problemas estruturais que ainda embala a vida sócio-econômica da região? E mais, nome foi uma reivindicação coletiva, ou uma imposição dos mandões de plantão e, é claro, com a submissão e conivência dos políticos oportunistas também de plantão?

Assim, mesmo sem muitas respostas, é preciso esclarecer que a mudança do nome por si só jamais resolverá os problemas do estado, que foi criado para ser um “estado modelo”, onde não faltaram recursos federais. E quem saiu bem nesta história, infelizmente, foi o estado visinho. O fato é que Mato Grosso do Sul caracterizou-se por uma gangorra política, religiosamente alternada entre grupos heterogêneos que se unem apenas em épocas eleitorais. Dessa forma, nesses mais de 20 anos de existência, em nosso estado não se formou um grupo político hegemônico, forte e capaz de levar adiante um projeto de longo prazo e capaz de definir um destino e um futuro de desenvolvimento sólido para Mato Grosso do Sul. Isto é mais importante que um novo nome.

E, como não existe o “se” em história, com certeza, não foi o nome que motivou a escolha de Cuiabá como uma das subsedes da Copa de 2014 e a exclusão de Campo Grande. Taí um assunto que ainda vai dar muito pano prá manga.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 14 de junho de 2009.

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