segunda-feira, 13 de abril de 2009

A eterna e santa batalha do verde contra o dragão do asfalto (*)

Dia desses os campo-grandenses foram surpreendidos com a noticia de um grande projeto da prefeitura, para que Campo Grande possa sediar alguns dos jogos do campeonato mundial de futebol de 2014. Nosso prefeito acredita, conforme declarações recentes, que ainda estamos em tempo de concorrer com outras cidades brasileiras para sediar jogos da copa, receber os times internacionais e uma multidão de torcedores mediante algumas obras e um modesto (?) investimento publico (fala-se em 130 milhões), isso se comparadas a outras grandes capitais que estão no páreo.

Desejar que Campo Grande receba um torneio mundial e muito louvável, ainda mais se há possibilidade de receber também polpudas verbas federais para implementar obras de infra-estrutura aqui na nossa cidade.

Porém, as notícias foram mais além e detalharam um suposto projeto de revitalização da avenida Afonso Pena, onde seria feito um viaduto e uma linha de metrô de superfície, além de outras mudanças preocupantes. Mas, o que mais chama a atenção é uma proposta de alteração dos canteiros centrais da avenida, com a finalidade de aumentar o fluxo de automóveis e evitar estrangulamento de trânsito na área central da cidade. E ai mora o perigo: para isso será imprescindível alterar e diminuir consideravelmente os canteiros centrais da Afonso Pena e, conseqüentemente, as áreas verdes de gramados e árvores, incluindo os ingás antigos que conferem o charme da avenida.

Ora pois. A avenida Afonso Pena é um dos mais atraentes cartões postais de Campo Grande e disso ninguém duvida. Seu charme e sua identidade residem exatamente nessa área verde generosa e bem cuidada, dando a impressão ao visitante de primeira viajem que toda a cidade é assim também. Campo Grande já foi muito mais verde e fresca. Repararam como a cidade anda quase tão quente como Corumbá ou Cuiabá?

Pois é. Sabe-se que nos últimos dez anos centenas de árvores frondosas deram lugar a obras publicas e residenciais. Basta observar o crescimento urbano em bairros pobres ou ricos. De uma das janelas de minha casa, onde moro há mais de dez anos, foi possível acompanhar uma persistente campanha de destruição do ambiente no bairro Cachoeira II, onde o alto poder aquisitivo de seus moradores permite que se façam projetos inovadores e de baixo impacto ambiental. Mas, lamentavelmente, foi nesse mesmo lugar que se deu o triste caso do envenenamento criminoso e cruel de uma arvore de 40 ou mais anos, em frente a uma escola particular onde se ministram aulas de educação ambiental às crianças. Ali também se deu um caso de corte de duas arvores e o envenenamento de uma terceira, por uma obra particular em plena avenida Afonso Pena.

Mas alguns poderão argumentar que a Afonso Pena, em sua banda alta, possui um parque maravilhoso (de fato!) e desemboca em outro parque, o dos Poderes que possui belíssima área de cerrado muito bem preservada. Tudo bem, mas sabe-se que não é o bastante. Neste caso é necessário estar eternamente vigilante para conservar a sustentabilidade ambiental da cidade.

As obras da prefeitura, nesses últimos anos, criando parques e novas áreas verdes estão apenas dando uma pequena compensação à sanha de malucos e ignorantes que, na calada da noite cortaram e envenenaram muitas arvores, ou atearam fogo em terrenos que ainda têm vegetação de cerrado. A expansão da cidade nos bairros periféricos também ocorre desordenadamente e, neste caso, a responsabilidade é do poder publico municipal que deve ordenar e fiscalizar o crescimento de Campo Grande. Mas essa é uma outra história.

Da mesma forma e ainda uma outra e complicada história vem a ser essa idéia inovadora (?) de metrô de superfície. A prefeitura campo-grandense protagonizou há pouco tempo atrás um episódio chocante de retirada dos trilhos da antiga Noroeste que cruzavam a cidade, na calada da madrugada, sem que houvesse a mínima chance de diálogo e de troca de propostas dos munícipes discordantes dessa obra . Os trilhos antigos bem poderiam ser base de um metrô de superfície, praticamente prontos a serem usados, além da vantagem importante de preservar a historia e a cultura local. E, pelo menos uma ong, a FERROVIVA, fez essa proposta, alem de colocar-se à disposição do prefeito e da câmara municipal para discutir o destino da via ferroviária.

O que nos parece, mesmo, é que ambiente e cultura são coisas que não têm vez em nossa aprazível (até quando?) cidade. Mas confiamos nos ambientalistas e nas pessoas sensíveis e conscientes que aqui habitam para empreender mais uma santa batalha em defesa de um patrimônio dos campo-grandenses que é a Afonso Pena.

Pode-se sediar uma copa e ganhar um jogo, mas pode-se também pagar um preço alto demais ao fazer obras que supostamente atendem a uma situação passageira. O transito de Campo Grande, ainda que tenha recebido um número assustador de novos veículos circulando em suas ruas, precisa apenas ser disciplinado e fiscalizado. Afinal, no centro existem boas vias de escoamento e desafogo da Afonso Pena, bastando planejamento e, como já foi dito, muita fiscalização do poder publico.

Espera-se que o bom senso saia vitorioso dessa batalha e assim Campo Grande e o planeta agradecerão nossos dirigentes municipais.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 29 de junho de 2008.

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