A palavra tem uma força inimaginável. Mas é preciso saber maneja-la. A palavra pode representar uma língua, uma linguagem ou uma arte e, assim, a literatura é a sua expressão máxima.
Por isso, a literatura regional é considerada justamente um dos elementos identificadores de uma sociedade, da mesma forma que os costumes, as linguagens, as artes e a história. E este é o caso de Mato Grosso do Sul, que se afirma através de movimentos artísticos e de produções, quer sejam pelos músicos de raiz, ou pelos artistas plásticos locais e, ainda pelos mais distintos representantes da expressão regional deste estado.
Os exemplos são variados e bons. E, a literatura sul-mato-grossense não é uma coisa nova, da mesma maneira que o estado não é novo, embora tenha sido criado há pouco mais de 30 anos. Essa pouca idade tem provocado uma falsa polêmica, baseada na suposta necessidade de inventar uma identidade cultural para Mato Grosso do Sul, o que é uma grande bobagem. A história desta região, a porção sul de Mato Grosso, é muita antiga, remonta o século XVI e, portanto, é plena de história e de marcas culturais e artísticas definidoras de sua identidade. Só não é conhecida. E aí mora a questão: a sociedade sul-mato-grossense não conhece a sua história, a sua literatura e por isso não nutre o sentimento de pertencimento de uma sociedade única e especial. E, portanto, não tem memória.
Mas isso tem conserto. Existe uma literatura regional de alto nível, que reúne impressões e memórias realmente definidoras do contexto cultural de nossa gente. Basta ler (todos, se possível) os contos fantásticos de Hélio Serejo, o cantador da fronteira, cuja importância é inquestionável hoje em dia. E, felizmente, está sendo mais divulgado e tende a tornar-se o nosso escritor símbolo, com a iniciativa do Instituto Histórico de Mato Grosso do Sul em publicar as suas obras completas.
Ou então basta ler os textos clássicos de José de Melo e Silva, brilhante observador da região em seus livros (ainda raros) sobre a herança cultural desta região. E tem ainda o Humberto Puiggari que registrou suas impressões sobre o cotidiano de nossa gente, também de forma magistral. Há outros memorialistas e contistas (sem falar de poetas) que gravaram em palavras suas vivências pessoais, histórias de famílias, de desbravadores dos cerrados e dos pantanais e fizeram uma literatura verdadeiramente universal. A lista é grande e seria injusto citar apenas alguns.
Mas é preciso estar atento ao que está acontecendo de novo, até porque nem sempre o que é novo é bom. Refiro-me, no entanto, a uma literatura em tom maior e que está prestes a vir à luz sob a forma do livro História Sem Nome de Lenilde Ramos.
Tive o privilégio de ler seus originais e ainda me encontro sob o impacto dessa leitura. Creio que para muitos o livro de Lenilde será como um soco no estômago: forte e impressionante. Isto porque, Lenilde usa as palavras como uma arma que mostra sua potência, poder e exprime sentimentos e impressões marcantes. Por outro lado, a força desse livro reside nos exemplos reais de ternura, de sensibilidade e da forma do amor humano em sua mais sublime manifestação, que é a dedicação aos mais necessitados, aos pobres e aos doentes do corpo e da alma.
O seu texto mescla uma original forma de expor acontecimentos reais, com a vida de uma família em particular (a sua própria família), tratando de pessoas reais e muito próximas da autora, mas que, entretanto, cuidou de preservá-las omitindo seus nomes. Seu recurso foi lançar mão da descrição minuciosa e curiosa de pessoas, de fatos e da história de uma cidade da forma mais fiel e sensível possível, desnudando a grandeza e as contradições da vida real, onde gente comum é capaz de cometer as maiores torpezas ao lado de grandes gestos de amor, de nobreza e de rusticidade, ao mesmo tempo. Este é, sem dúvida, um dos méritos do livro, que alia a originalidade da forma e, outro recurso muito interessante, colabora à sua maneira para resgatar a memória de Campo Grande.
Lenilde é uma mulher de muita coragem, não apenas por escancarar seu talento em palavras simples e coloquiais, mas na maneira nua e crua de virar suas memórias, vivências e emoções pessoais do lado do avesso. Como ela própria diria, seu livro foi escrito com as entranhas. A sua narrativa é, ainda, um monumento à história do hospital São Julião e uma homenagem sincera e fiel, à sua maneira, da mulher que esteve à frente do audacioso e maravilhoso projeto de recuperação do hospital até tornar-se um centro de referência no tratamento da hanseníase: a irmã Silvia. Sem citar o nome uma única vez nas centenas de páginas escritas, Lenilde identifica a generosidade e a tenacidade da irmã Silvia, homenagem que supera todas as que já deve ter recebido até os dias de hoje.
Lenilde é uma mulher de muitos talentos (na música, na poesia, na interpretação e outras artes) e não precisa provar isso para mais ninguém. Creio que História Sem Nome é a prova contundente de que existe literatura regional de alta qualidade e, com isso, Lenilde ajuda a construir uma real e expressiva memória de sua cidade, de sua região e da valentia da gente sul-mato-grossense, da qual ela é uma representante e tanto.
Valmir Batista Corrêa
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