Um dos mais importantes jornalistas contemporâneos, Joel Silveira, falecido aos 88 anos em agosto do ano passado, além de ter desenvolvido com brilhantismo um jornalismo investigativo a partir da cobertura da Segunda Guerra Mundial, e de análises ferinas dos acontecimentos sociais, influenciou gerações e gerações de jovens jornalistas. Segundo a Folha de S. Paulo (16.8.2007), “tinha um faro de repórter, olhar de escritor, idéias de jovem socialista”. Ajudou também a fundar o Partido Socialista Brasileiro.
Publicou romances, contos e crônicas superando a marca de 40 publicações. Em um dos seus livros, “Meninos, eu vi” (1967), reuniu corajosamente crônicas publicadas pelo jornal carioca “Correio da Manhã”, com ácidas críticas sobre o golpe militar de 1964. Não deu outra, com o Ato Institucional n. 5, Joel Silveira foi preso pelos militares de plantão.
Pois bem! Peço licença ao velho mestre para usar parte do título do seu livro para encabeçar este artigo.
Com emoção e nostalgia assisti na Câmara Municipal de Campo Grande, na manhã de 15.03.2008, a uma sessão solene comemorativa de 25 anos da posse de Wilson Barbosa Martins no governo do estado de Mato Grosso do Sul e da professora e vereadora Nelly Bacha como a primeira prefeita da capital, Campo Grande. Foi emocionante a singela homenagem. Vi alguns companheiros da época. Poucos, é verdade. Muitos, que oportunamente apoiaram e usufruíram do novo poder estabelecido, esqueceram da necessária homenagem. É o mal dos homens: a ingratidão.
Enquanto os discursos se arrastavam, comecei a navegar nas asas da memória. Era professor do Centro Universitário de Corumbá e, junto com outros dois professores idealistas, Celso Panoff Philbois e Eduardo Gerson do Saboya Filho, estivemos numa reunião com o pré-candidato Wilson Barbosa Martins, na biblioteca anexa ao seu escritório, na rua 15, em Campo Grande. O sonho e a proposta feita ao candidato era romper com a prática política até então existente em Corumbá e provocar uma mudança política e social na velha e histórica Cidade Branca. Voltamos intrépidos, confiantes e passamos a confrontar a emaranhada prática política da cidade enfrentando desafiadoramente o medo e os ranços ainda muito fortes da ditadura militar. Não foi fácil, e o medo ainda era muito forte, em especial por ser Corumbá uma área de segurança nacional e base de contingentes do exército e da marinha.
Mas, mesmo assim, a campanha eleitoral “A hora é agora”, comandada pelo líder carinhosamente chamado de “velho” Wilson foi uma bela festa democrática. E olha que o povo sul-mato-grossense não estava acostumado a isso. O PMDB da época representava uma postura de vanguarda e reação às forças ditatoriais e aos seus adesistas de plantão (aliás, ainda presentes na nossa tão conturbada e deprimente política).
Em Corumbá a campanha foi árdua e sofrida, pois era preciso superar o temor incutido nas pessoas pela repressão militar, a intranqüilidade frente a possibilidade de perder privilégios e cargos, e a perseguição policial em cima de jovens militantes partidários. Até um processo foi instaurado na polícia federal pela colocação de cartazes nas ruas da cidade. Por ser uma campanha sem recursos, esses cartazes eram frutos de doações de amigos e simpatizantes e vieram do Rio de Janeiro, onde foram produzidos (hoje, são médicos residentes em Corumbá).
Porém, o que mais dificultava a campanha era a própria divisão interna do partido que, em Corumbá, apresentou-se com duas alas. Uma, com uma chapa encabeçada pelos candidatos a deputado estadual, Joilce Viégas de Araújo, e ao senado, Antonio Mendes Canale. Contando com apenas 8 candidatos a vereador, esta ala elegeu 2 vereadores, Rubens Galharte e Valmir Corrêa. A outra chapa, encabeçada pelo então polêmico deputado e candidato à reeleição, Cecílio de Jesus Gaeta (um político que está a merecer um estudo sócio-político), e ao senado, Marcelo Miranda, apresentou-se com 21 candidatos a vereador. Desta ala, foram eleitos com Jesus Gaeta, os vereadores Luiz Alberto Pinto de Figueiredo, Vicente Alves de Arruda, Assunção do Carmo Vieira e Augusto Fernandes Gaeta.
Foi uma eleição onde militantes tiveram um papel fundamental como voluntários que sonhavam com uma mudança política, com professores e estudantes universitários, professores da rede municipal e estadual, jovens, e de modo geral, a população envolvida no processo eleitoral. Até os meus filhos, de 4 e 7 anos na ocasião, entraram na disputa usando camisetas com as palavras “vote no papai” nas costas.
Foi uma luta sensacional porque aliava posições ideológicas bem definidas, criatividade e despojamento da militância e dos que, de fato, engajaram-se no apoio a Wilson Martins.
A vitória foi uma festa, comemorada tardiamente pois, em Corumbá, Wilson Martins não foi majoritário e demorou muito para que o resultado das urnas de Campo Grande fosse conhecido. E, no final das contas, quando se oficializou a vitória do PMDB em Corumbá, apareceram apoiadores de todos os cantos numa espetacular enxurrada de adesistas pós-eleições. Nunca se viu tanta gente de “oposição” enrustida!
Os jovens idealistas que empunharam a bandeira das mudanças desde a primeira hora ficaram a ver navios (lá na curva do rio Paraguai...). Seus sonhos esmaeceram e Corumbá, como sempre em sua história, tornou-se a mais situacionista das cidades, aliás como ocorreram muitas outras vezes mais...]
Publicou romances, contos e crônicas superando a marca de 40 publicações. Em um dos seus livros, “Meninos, eu vi” (1967), reuniu corajosamente crônicas publicadas pelo jornal carioca “Correio da Manhã”, com ácidas críticas sobre o golpe militar de 1964. Não deu outra, com o Ato Institucional n. 5, Joel Silveira foi preso pelos militares de plantão.
Pois bem! Peço licença ao velho mestre para usar parte do título do seu livro para encabeçar este artigo.
Com emoção e nostalgia assisti na Câmara Municipal de Campo Grande, na manhã de 15.03.2008, a uma sessão solene comemorativa de 25 anos da posse de Wilson Barbosa Martins no governo do estado de Mato Grosso do Sul e da professora e vereadora Nelly Bacha como a primeira prefeita da capital, Campo Grande. Foi emocionante a singela homenagem. Vi alguns companheiros da época. Poucos, é verdade. Muitos, que oportunamente apoiaram e usufruíram do novo poder estabelecido, esqueceram da necessária homenagem. É o mal dos homens: a ingratidão.
Enquanto os discursos se arrastavam, comecei a navegar nas asas da memória. Era professor do Centro Universitário de Corumbá e, junto com outros dois professores idealistas, Celso Panoff Philbois e Eduardo Gerson do Saboya Filho, estivemos numa reunião com o pré-candidato Wilson Barbosa Martins, na biblioteca anexa ao seu escritório, na rua 15, em Campo Grande. O sonho e a proposta feita ao candidato era romper com a prática política até então existente em Corumbá e provocar uma mudança política e social na velha e histórica Cidade Branca. Voltamos intrépidos, confiantes e passamos a confrontar a emaranhada prática política da cidade enfrentando desafiadoramente o medo e os ranços ainda muito fortes da ditadura militar. Não foi fácil, e o medo ainda era muito forte, em especial por ser Corumbá uma área de segurança nacional e base de contingentes do exército e da marinha.
Mas, mesmo assim, a campanha eleitoral “A hora é agora”, comandada pelo líder carinhosamente chamado de “velho” Wilson foi uma bela festa democrática. E olha que o povo sul-mato-grossense não estava acostumado a isso. O PMDB da época representava uma postura de vanguarda e reação às forças ditatoriais e aos seus adesistas de plantão (aliás, ainda presentes na nossa tão conturbada e deprimente política).
Em Corumbá a campanha foi árdua e sofrida, pois era preciso superar o temor incutido nas pessoas pela repressão militar, a intranqüilidade frente a possibilidade de perder privilégios e cargos, e a perseguição policial em cima de jovens militantes partidários. Até um processo foi instaurado na polícia federal pela colocação de cartazes nas ruas da cidade. Por ser uma campanha sem recursos, esses cartazes eram frutos de doações de amigos e simpatizantes e vieram do Rio de Janeiro, onde foram produzidos (hoje, são médicos residentes em Corumbá).
Porém, o que mais dificultava a campanha era a própria divisão interna do partido que, em Corumbá, apresentou-se com duas alas. Uma, com uma chapa encabeçada pelos candidatos a deputado estadual, Joilce Viégas de Araújo, e ao senado, Antonio Mendes Canale. Contando com apenas 8 candidatos a vereador, esta ala elegeu 2 vereadores, Rubens Galharte e Valmir Corrêa. A outra chapa, encabeçada pelo então polêmico deputado e candidato à reeleição, Cecílio de Jesus Gaeta (um político que está a merecer um estudo sócio-político), e ao senado, Marcelo Miranda, apresentou-se com 21 candidatos a vereador. Desta ala, foram eleitos com Jesus Gaeta, os vereadores Luiz Alberto Pinto de Figueiredo, Vicente Alves de Arruda, Assunção do Carmo Vieira e Augusto Fernandes Gaeta.
Foi uma eleição onde militantes tiveram um papel fundamental como voluntários que sonhavam com uma mudança política, com professores e estudantes universitários, professores da rede municipal e estadual, jovens, e de modo geral, a população envolvida no processo eleitoral. Até os meus filhos, de 4 e 7 anos na ocasião, entraram na disputa usando camisetas com as palavras “vote no papai” nas costas.
Foi uma luta sensacional porque aliava posições ideológicas bem definidas, criatividade e despojamento da militância e dos que, de fato, engajaram-se no apoio a Wilson Martins.
A vitória foi uma festa, comemorada tardiamente pois, em Corumbá, Wilson Martins não foi majoritário e demorou muito para que o resultado das urnas de Campo Grande fosse conhecido. E, no final das contas, quando se oficializou a vitória do PMDB em Corumbá, apareceram apoiadores de todos os cantos numa espetacular enxurrada de adesistas pós-eleições. Nunca se viu tanta gente de “oposição” enrustida!
Os jovens idealistas que empunharam a bandeira das mudanças desde a primeira hora ficaram a ver navios (lá na curva do rio Paraguai...). Seus sonhos esmaeceram e Corumbá, como sempre em sua história, tornou-se a mais situacionista das cidades, aliás como ocorreram muitas outras vezes mais...]
Valmir Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 6 de abril de 2008.
Um comentário:
Eu ainda lembro da camiseta!
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