segunda-feira, 10 de março de 2008

Magistério é sacerdócio. Será? (*)

O crescimento sócio-econômico de um país está necessariamente ligado ao seu desenvolvimento educacional e tecnológico. Nesta perspectiva, uma boa qualidade de ensino básico e de investimentos na área da pesquisa básica e fundamental, com certeza, tira do estágio da ignorância e do atraso parcelas importantes da população. Tais premissas parecem ser óbvias, mas para os governantes nem sempre são compreensíveis. Isso porque as volumosas verbas exigidas para a sua manutenção, à primeira vista, parecem ser um desperdício frente a outros graves problemas enfrentados pela administração pública.
Neste país do “toma lá, da cá”, foi preciso estabelecer a obrigatoriedade de transfe-rências constitucionais de parcelas dos tributos arrecadados para a educação. Os gastos com educação, que seriam práticas usuais, nem sempre foram levados a sério. Para os governantes, o que se visualiza, infelizmente, é o alto volume de recursos despendidos com infraestrutura educacional e com a manutenção de professores e de funcionários administrativos. A obrigatoriedade desses gastos constitucionais tornou-se de fato uma arma fundamental para superar a falta de consciência dos políticos que controlam a máquina de governo em todos os níveis, de federal a municipal.
A história sempre registrou os conflitos e os descasos dos governantes com a educação. Na República Velha, por exemplo, os professores contratados pelo estado para o ensino das séries iniciais ficavam à mercê dos interesses dos coronéis e políticos ligados às administrações estaduais. Dependendo do humor dos políticos ou dos detentores de poder de plantão, os professores conservavam seus empregos ou não. Era comum encontrar em Mato Grosso “professorinhas” trabalhando a cada quatro anos, conforme a gangorra política dos governadores eleitos e dos compromissos com os seus “eleitores”. Isso sem contar com um irrisório salário sempre justificado pelo falso moralismo que entendia ser a missão de ensinar um “sacerdócio”, isto é, uma missão vocacional que exigia grandes sacrifícios e parca remuneração. Mesmo assim, por intermináveis anos, nos sertões do país, a chegada de uma professorinha numa cidadezinha provocava uma grande comoção social por representar uma oportunidade de casamento (visto como um grande “partido”) para os jovens sem emprego que ali viviam. A professora ganhava pouco, mas desfrutava de prestígio e crédito na comunidade.
Com o passar do tempo, nada mudou para os educadores, ou melhor, a situação piorou. Ainda é uma categoria que enfrenta baixos salários, condição de trabalho nada condizente com a sua importância na sociedade, convivendo com baixa estima e em muitos casos, com doenças crônicas e suicídios.Esta retrospectiva vem a propósito de mais um fato provocador de intranqüilidade que atingiu o magistério estadual no início deste ano letivo. São normas duras que provocam de um lado desemprego de professores convocados e, de outro, a aceleração de uma já preocupante evasão escolar.
A primeira situação, em nome de uma melhor equação dos gastos públicos, está na extinção de salas de aulas com número inferior a 25 alunos. Isto provoca de imediato um remanejamento dos alunos para outras salas de aulas ou escolas, independente do seu estágio educacional desenvolvido até aquele momento. E os professores, passam a “caçar” aulas em escolas distantes ou não, para completar sua carga horária (isso no caso de professores efetivos). E outros ficarão “a ver navios”.
A segunda situação de conflito é a possibilidade (em debate ainda) da ampliação e duração das aulas do período noturno, propondo o inicio às 18:30 hs. e terminando depois das 23:00 hs., esquecendo que aproximadamente 72% dos alunos trabalham durante o dia. Numa escola sem grandes atrativos, com certeza, a evasão escolar teria dimensões incalculáveis. Porém, o bom senso prevaleceu e a carga horária do período noturno continuará flexível, permitindo uma maior adequação da relação trabalho-escola-residência.
A questão fundamental é a qualidade do ensino, para transformar a escola em insti-tuição atrativa, e não os horários ou a aplicação de verbas. Técnicos e políticos adoram obras e tecnologia, especializando-se em construções de salas de aulas e compra de computadores. Mas tudo isso é inútil (e dinheiro jogado fora) se o professor não estiver devidamente preparado e aparelhado para cumprir o seu papel. Daí, é preciso com urgência rever as funções dos docentes da educação básica e, claro, valorizar este trabalho dignamente.
Nesta perspectiva é necessário transformar a escola em um espaço a ser defendido, valorizado e preservado pela comunidade, tornar-se edificante e dignificante para o professor (não é admissível que o professor vá à escola temeroso de sofrer uma violência) e, enfim, resgatar a função social do mestre prioritária para uma sociedade democrática e pluralista.
O que se espera é uma profunda revolução no sistema educacional, envolvendo professores, funcionários, alunos e comunidade. Porém, para tanto, é preciso ter coragem. E sem essa de sacerdócio.
Valmir Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 9 de março de 2008.

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