terça-feira, 25 de março de 2008

O Comandante Vive! (*)

Depois de 49 anos à frente do governo cubano, Fidel Castro, muito doente e debilitado, renunciou ao comando do governo. Este acontecimento tomou conta da imprensa nacional e internacional, motivando comentários, muitos passionais, sobre um dos grandes mitos do século XX. A partir de uma pequena ilha do Caribe, este líder incomodou (e ainda incomoda), os grandes líderes mundiais que, na disputa imperialista da “guerra fria”, separou o mundo em dois blocos de influência liderados pelos EUA e pela URSS.
Esta política insana só trouxe prejuízos aos povos do chamado Terceiro Mundo, subdesenvolvido, produzindo ditaduras, violência, mais pobreza e fome. Neste espectro, Cuba surgiu como um perigo aos interesses norte-americanos e um exemplo de idéias e práticas revolucionárias a ser coibido no plano internacional. Até então, nos anos 50, Cuba estava sob a ditadura brutal de Fulgencio Batista, paraíso de corrupção, jogatinas, prostitutas e mafiosos. Cuba, então submissa, era um quintal dos EUA, onde tudo era permitido, a ponto da máfia deslocar seus negócios de Las Vegas para a ilha, fugindo do cerco das leis americanas.
Em um primeiro momento, o movimento guerrilheiro, que entrou em Havana em 1959, contou com a simpatia em todas as partes, inclusive nos EUA. Para a política norte-americana, a ação revolucionária não mudaria a sua influência na ilha. Foi, com certeza, um erro de avaliação.
As primeiras medidas do novo governo assustaram e atingiram os bolsos dos capitalistas, dos banqueiros e mafiosos americanos que não imaginavam que ações revolucionárias viriam e que poderiam ser copiadas por outras nações periféricas, já num período de avanço de ditaduras de direita e reações guerrilheiras de esquerda. As medidas que se tornaram assustadoras foram o controle de tarifas de telefonia e de energia (em mãos de estrangeiros); cortes nos preços de aluguéis e de medicamentos; nacionalização de grandes fazendas de cana-de-açúcar e fumo. Porém, o que criou maior impasse foi a estatização de grandes empresas privadas, como as petrolíferas. Isso demonstrava que o governo de Fidel escapava do controle e das garras norte-americanas. Foi o fim do idílio e do namoro entre os dois governos.
Em setembro do ano seguinte (1960), Fidel pronunciou na Assembléia Geral da ONU um duro discurso contra o governo norte-americano. A resposta veio quase imediatamente, com um embargo comercial à ilha e no ano seguinte o rompimento das relações diplomáticas com Cuba (além da desastrada tentativa de invasão na baía dos Porcos por exilados cubanos treinados pelos próprios norte-americanos). Em fevereiro de 1962 os EUA praticam a mais impiedosa e cruel política asfixiante contra uma população independente: o embargo econômico total à ilha, o que levou o governo cubano a procurar o apoio do bloco socialista soviético.
A opção dos cubanos para superar as dificuldades impostas pelo embargo, foi um investimento maciço na educação, a partir da alfabetização, e na saúde, tornando-se referência mundial nessas áreas, inclusive exportando conhecimentos. Um exemplo disso foi a vinda do professor cubano Jose Sallas, que participou ativamente da revolução como soldado de comunicação e esteve em Campo Grande por duas temporadas com autorização do governo cubano. Sallas contribuiu em muito com a graduação e a pós-graduação primeiro na UFMS, e depois na UCDB. Faleceu em Campo Grande enquanto desenvolvia suas atividades acadêmicas.
Sallas enquanto vivo, manifestava sua grande preocupação com o futuro de Cuba e não se cansava de relatar as dificuldades da população com o embargo norte-americano; mas não desanimava e nem perdia o ânimo em defesa dos princípios revolucionários. Outros vieram ao Mato Grosso do Sul e em muitos outros estados brasileiros para transferir um conhecimento de ponta com base na experiência sofrida de desenvolvimento cubano, excluída do sistema capitalista.
A vida continuou e o povo cubano resistiu até hoje. O tempo e a história confirmam a liderança de Castro, por mais que critiquem seus opositores. Seu valor, seus acertos e desacertos se expressam nas reações que desperta: não há meio-termo, ou é amado ou odiado. Essa é a principal característica do mito, que supera a vida, a morte e a própria história.
A esperança é que com um novo governante renasça também a possibilidade de mudanças internas e externas na ilha, para que as conquistas inegáveis na educação, na saúde e nos esportes cubanos não sejam perdidas.
Valmir Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 16 de março de 2008.

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