domingo, 7 de dezembro de 2008

Meia gravidez não existe (*)

Tem uma anedota antiga, passada de geração a geração, sobre uma jovem que chega para a mãe e diz de sopetão: “mãe, estou grávida”. A mãe tem de imediato uma reação forte, com choro, gritaria e ranger de dentes. Para acalma-la, a filha tenta explicar a situação: “a senhora não entendeu, estou grávida só um pouquinho”. Isso reflete uma meia verdade. Porque não existe “meia grávida”, ou seja, ou se está grávida ou não.
Pois bem.
Penso nesta piada, de gosto duvidoso, ao ler um comentário do nosso presidente que afirmou em 18.3.08, que as iniciativas governamentais objetivando a expansão de vagas no ensino universitário irão provocar uma “pequena revolução” no processo educacional brasileiro.
Acontece que o significado da palavra “revolução” é bem precisa a partir dos clássicos do pensamento político e econômico, com a construção estabelecida por Marx. Grosso modo, pode ser entendida como uma profunda transformação nas estruturas sócio-econômicas de modo que, a um certo momento, todas as estruturas antigas deixam de existir. Hoje, esta palavra está muito desgastada, perdendo em muitas ocasiões o seu significado. O que mais se pratica nos tempos atuais é o reformismo, ou seja, mudanças muitas vezes superficiais, sem contudo promover transformações estruturais que possibilitem, e é o que se espera, verdadeiras inovações. Não tenho dúvida de que é urgente a prática de uma verdadeira revolução na atual e empobrecida educação brasileira.
Por dever de justiça, é possível reconhecer o esforço do governo com experiências educacionais para superar os entraves até agora enfrentados. Nesse sentido, o presidente referia-se ao Reuni (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão e Expansão das Universidades Federais), que propõe a oferta de mais cursos de graduação, numa perspectiva de ampliação de 100.000 mil novas vagas, isso vindo a somar ao programa ProUni (Programa Universidade para Todos), que atende aproximadamente 60 mil alunos de baixa renda. Porém, não se pode esquecer o outro lado desta moeda, ou seja, o estado de crise das universidades públicas federais.
Mas que crise é esta se a todo o momento é possível ver a sua expansão física e até sucessos pontuais? Este é o primeiro aspecto para quem quer fazer uma “revolução” no ensino universitário. É colocar o dedo na ferida e fazer um corajoso diagnóstico sobre “o que está acontecendo com a universidade pública”. É preciso muito cuidado com as generalizações dos problemas presentes, pois existem peculiaridades de instituição para instituição.
Neste sentido é preocupante o nível da qualidade do ensino apresentado pelas universidades. Alguns fatores, sempre recorrentes, encontram-se nos salários não satisfatórios, bibliotecas não atualizadas, pesquisas limitadas ou, simplesmente, falta de motivação ou distanciamento da cidadania e compromisso com o desenvolvimento da educação do país. Com certeza, falta um mapeamento desses “gargalos” para a construção de um amplo projeto que avance sobre o atual estágio das universidades.
Outros estágios da educação formal vêm enfrentado os mesmos problemas, apesar de também sofrerem tentativas de solução. A ampliação dos benefícios do Bolsa Família é o caso mais visível. Porém, segundo especialistas em educação, não basta expandir programas deste tipo, pois o problema continua o mesmo, ou seja, a questionável qualidade de ensino. Estamos produzindo uma quantidade inimaginável de semi-analfabetos, para dizer o mínimo. Alguém já reparou nos erros de português, os mais elementares, que a televisão expõe ao entrevistar as pessoas que circulam pelas cidades brasileiras? O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão ligado ao Ministério da Educação, concluiu que as crianças das 4a. séries do ensino fundamental não adquiriram sequer os conhecimentos do primeiro ano. Pode uma loucura desta?
Porém, não se pode generalizar esta situação desagradável. Seria uma grande injustiça com algumas experiências pedagógicas que estão por este imenso Brasil com resultados altamente positivos. São idéias simples, mas geniais. Cito dois exemplos: a cidade de Alto Alegre do Pindaré, MA (32 mil habitantes), e a cidade de Sete Barras, SP (15 mil habitantes).
Segundo o jornal Folha de S. Paulo (25.3.2008), na cidade de Alto Alegre do Pindaré, “a biblioteca da escola é transportada de um canto para o outro por um jegue guiado por alunos, professores e diretores. Os mestres passam por avaliações e estão sujeitos a ter de freqüentar aulas de reforço. Um representante visita a casa do aluno que falta dois dias consecutivos para saber o motivo da ausência”. Isto é apenas um aperitivo desta bela experiência. A outra cidade, Sete Barras, a “avaliação dos alunos, recuperação, material didático organizado e formação dos professores são as ações apontadas pelos educadores locais como a explicação para os bons exemplos”. Nos dois exemplos é possível encontrar as raízes de uma “revolução” nas bases da sociedade brasileira: é o comprometimento dos educadores e das famílias com as mudanças esperadas.
Enfim, uma “revolução” na sociedade brasileira passa, sem dúvida, por investimentos transformadores no binômio educação-família. Ou melhor, ela começa pela família que deve dar as noções de cidadania e educação e formação do caráter de seus filhos. A escola não substitui as obrigações familiares, mas reforça e as complementa. E educação não pode ser feita com meias verdades, mas por inteiro.

Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 13 de abril de 2008.

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