quarta-feira, 28 de abril de 2010

Miséria humana ou crianças (des)amparadas (*)

Ninguém sabe o que realmente aconteceu. Talvez seja mesmo um caso que ficará para sempre no limbo dos terríveis acontecimentos da miséria humana. Falo do triste caso da adoção de um menino de sete anos envolvendo os EUA e a Rússia. É difícil dizer com quem está a razão. O que chocou foi a forma que a mãe adotiva utilizou para devolver o menino à Rússia, depois de seis meses de adoção. Simplesmente despachou o menino sozinho em um vôo Washington-Moscou, com um bilhete na mão. Ainda, pagou um guia turístico para entregá-lo ao Ministério de Educação russo. No bilhete, justificava tal desumanidade ao afirmar que “esta criança é psicologicamente instável. Ela é violenta e tem graves problemas psicológicos. O orfanato russo me enganou. Pela segurança de minha família, não quero ser a sua mãe”.

Segundo membros da família americana, o menino era instável e violento e ameaçava queimar a casa com toda a família junta. Por outro lado, o menino alegou, ao chegar em Moscou, que a mãe adotiva era má e não o amava. Sabe-se lá o que realmente aconteceu. Tais fatos chocaram os russos que se sentem humilhados com as doações de suas crianças. Isso vem se somar a outras notícias nada abonadoras de que, nos últimos quatro anos, três crianças russas morreram após supostos abusos por parte de pais adotivos americanos. Mesmo assim, somente em 2009 foram adotadas pelos americanos 1.586 crianças russas e existem na fila mais de três mil pedidos de adoções. Depois de toda esta confusão, parece que o governo russo acordou e suspendeu temporariamente os processos dessas adoções.

Esse triste fato merece algumas considerações. Em primeiro lugar, uma adoção deve ser feita com muita delicadeza e cuidado por estar em jogo vidas humanas. Em segundo, uma adoção deve ser tratada com muita seriedade, tanto por quem cede como para quem recebe.

Assim, cabe à instituição um estudo profundo e o acompanhamento da criança, médico e psiquiátrico, para que a família recebedora saiba realmente em que condição está acolhendo um futuro filho. De outro lado, deve a instituição ter condições de obter conhecimentos da família, suas relações sociais, educacionais e até mesmo psíquicas, para que não aconteçam fatos com a gravidade do caso do menino russo. Com certeza, se esse menino tinha mesmo alguma problema, agora tudo isso deve ter ainda agravado mais.

Em recente entrevista, D. Josefa Rosa de Andrade Arruda, presidente do Lar Vovó Miloca, de Campo Grande (MS), afirmou que nesses exemplos de adoção a criança sofre muito, precisando inclusive de tratamento psicológico para entender por que foi rejeitada. Assim, segundo essa mesma entrevista, afirma D. Josefa, “o abandono é triste, mas o segundo abandono é ainda pior”.

Portanto, é preciso ter consciência cívica e humana para não tratar uma criança abandonada como uma mercadoria de troca e venda que, quando não serve mais, é descartada e jogada no lixo. É um crime, com certeza, contra os direitos mais elementares do ser humano.

Fico a pensar que talvez esteja no cerne deste conflito a existência de grande quantidade de crianças abandonadas à espera de adoção e, do outro lado, uma fila enorme de famílias esperançosas para conseguir adotar um filho; no meio disso tudo, como uma barreira muitas vezes incompreensível, a morosidade da justiça para resolver o problema. Mas as crianças não podem esperar, pois todas têm o direito de desejar e alcançar a felicidade. Assim espero. Mas continuo a não compreender, e a não aceitar, as constantes adoções de crianças brasileiras por famílias estrangeiras. Ninguém me tira da cabeça que esse movimento de “exportação de crianças” é coisa de país subdesenvolvido.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 25 de abril de 2010.

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