segunda-feira, 12 de abril de 2010

Espólio de guerra (*)

Depois de mais de 140 anos, a guerra com o Paraguai ainda continua a provocar polêmicas. Durante décadas, as origens da guerra foram explicadas através de uma visão militarista, como legítima defesa de um Império atacado, demonizando Solano López como o grande responsável por tudo. Depois, nos anos 60 do século passado, a guerra foi analisada pelo modelo de interpretação marxista, atribuindo um papel relevante aos interesses do capital estrangeiro, notadamente, o inglês. Mais tarde, nos anos 90, essa perspectiva anterior passou a ser questionada por novos estudos, minimizando o papel do capital e da política inglesa. Conforme esses historiadores, à Inglaterra não interessava o envolvimento em um grande conflito sul-americano para o desenvolvimento de suas atividades econômicas.

No meu entendimento, esses fatos ainda não receberam o merecido aprofundamento, muito embora todas essas três vertentes de explicação colaborem para uma melhor compressão da Guerra da Tríplice Aliança com o Paraguai, que os próprios paraguaios chamam de a grande guerra. Existe, porém, o consenso de que foi uma grande tragédia para todos os envolvidos, com prejuízos e mortandade de civis e militares de todos os lados. Numa visão humanitária foi, com certeza, uma guerra sem vencedores.

Para a região sul da província de Mato Grosso (hoje, Mato Grosso do Sul), envolvida na guerra, as implicações foram muito amplas e profundas. Essa região ficou conhecida como “a fronteira onde o Brasil foi Paraguai”, posto que os paraguaios que a invadiram passaram a denominá-la Província do Alto Paraguai. O envolvimento de Mato Grosso nesses episódios serviu para que a região rompesse as suas relações com o passado colonial, motivando a sua reconstrução econômica e social em novas bases e formatando a fronteira como é conhecida hoje. Mas, essa é uma questão para um novo artigo da coluna Faca Amolada.....

O desenrolar da guerra, a partir da invasão da região meridional mato-grossense, serviu aos interesses lopistas no sentido de controlar o rio Paraguai até o porto de Corumbá e de abastecer suas tropas com o produto da pecuária que estava em crescimento nessa região, além, é evidente, de abocanhar os mais diversos espólios de guerra, como por exemplo, o sino da igreja de Corumbá que chegou a ser instalado numa igreja em Assunção, depois devolvido no final da guerra por interferência do futuro Barão de Vila Maria. Tudo o que representava algum valor na ocasião foi levado para a capital paraguaia, como uma famosa bandeja de prata cunhada com o brasão da família, saqueada na fazenda Piraputangas de propriedade do próprio Barão. A prática do saque de guerra, diga-se de passagem, ocorreu de ambos os lados da guerra e, ao seu término, os brasileiros apropriaram-se de documentos e armamentos do adversário vencido.

Agora está em pauta nas relações entre Brasil e Paraguai a reivindicação dos paraguaios pela devolução do canhão Cristão, que eles chamam de El Cristiano, construído durante a guerra a partir da fundição de sinos de igrejas instaladas nos palcos do conflito, derivando daí o seu nome. Também, estão reivindicando documentos produzidos pelo governo guarani, que foram levados pelas tropas brasileiras ao Rio de Janeiro.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, o presidente Lula está propenso a atender esse pleito do governo paraguaio. A dificuldade é que o “bendito” (não resisto ao trocadilho!)) canhão está tombado no rol do patrimônio histórico nacional e será preciso desencadear um longo processo burocrático de destombamento, que exige muito trabalho e artifícios. Mas, se é vontade do presidente, do alto de seus altíssimos índices de popularidade, nada é impossível...

Como tudo que envolveu e ainda envolve essa guerra, existe uma forte dose de sentimentos e de emoções em jogo, como se tem visto na imprensa, com manifestações a favor e contra. As feridas de guerra demoram muito a cicatrizar e uma polêmica dessa natureza pode até reabri-las. Creio que o mais sensato seria criar uma comissão binacional para tratar do assunto, pois, com certeza, deve haver também no lado paraguaio espólios brasileiros.

Como sou humanista, socialista e pacifista, não vejo razão para manter aqui uma peça militar muito simbólica para outro povo e outro país.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 11 de abril de 2010.

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