No dia 28 de fevereiro passado o Brasil ficou mais triste e pobre com a perda, em São Paulo, do bibliófilo José Mindlin. Amante dos livros, acumulou durante toda a sua vida a mais importante e rica coleção de livros raros, que ele chamava de “Brasiliana”. Com um acervo de mais ou menos 38 mil títulos, a coleção de Midlin é objeto de desejo dos bibliófilos de todos os cantos do planeta e uma das mais importantes bibliotecas do mundo.
Homem simples e de grande generosidade, a sua biblioteca esteve sempre aberta aos pesquisadores e estudantes, permitindo de forma democrática o acesso às preciosas raridades que tem. Despojado, doou a biblioteca para a Universidade de São Paulo que, em contrapartida, está concluindo no seu campus principal um belo prédio para abrigá-la, transformando-a num valioso patrimônio para todos os brasileiros.
Sua viagem pelo mundo dos livros raros e especiais começou quando era ainda menino, com 13 anos, ocasião em que comprou a sua primeira obra rara. Depois, não parou mais, frequentando leilões e sebos (livrarias de livros usados) onde quer que fosse.
Sei, por experiência própria, o que um colecionador sente ao entrar em contato com um livro antigo e muito raro. Há muito tempo atrás, tive em mãos num sebo de São Paulo uma “jóia”. Era uma rara coleção, em 11 volumes, dos relatos e iconografias da expedição de Francis Castelnau, que passou pela província de Mato Grosso em meados do século XIX, publicados em francês e com ilustrações simplesmente maravilhosas.. Mesmo emocionado ao tocar o papel envelhecido mas muito bem conservado dos livros de Castelnau, os meus parcos rendimentos de professor universitário impediram-me de levá-la para a minha pequena, mas também valiosa biblioteca. Não foi surpresa para ninguém que, depois de alguns dias, o dr. Mindlin, como era chamado, levou esta bela obra para a sua biblioteca particular. Mais recentemente, um amigo, o bibliófilo e historiador Paulo Pitaluga de Cuiabá, em suas andanças por sebos de Lisboa, encontrou um raríssimo livrinho do século XVIII chamado “Matto Groço”. Sabendo dessa descoberta, Mindlin imediatamente telefonou ao meu amigo com proposta de compra.
Ele não era somente um voraz comprador de livros. Foi um bem sucedido empresário que fundou a Metal Leve,grande empresa metalúrgica brasileira. Foi ainda advogado, escritor, jornalista, secretário de cultura de S. Paulo e membro da Academia Brasileira de Letras. Sobre a sua vida no mundo dos livros, vale a pena ler “Memórias esparsas de uma biblioteca”, “Não faço nada sem alegria. A biblioteca indisciplinada de Guita e José Mindlin” e “Uma vida entre livros. Reencontros com o tempo”.
Também, outra marca de sua vida foi a integridade ética e a coragem para assumir posições públicas em momento difíceis. Durante os anos de chumbo da ditadura militar, alguns empresários inescrupulosos financiaram a Operação Bandeirantes (Oban), um dos braços mais violentos da repressão política no Brasil, nos anos de 1970. Mindlin, sem medir conseqüências, recusou-se a compactuar com essa violência. Como secretário de cultura de S. Paulo, mesmo pressionado, não demitiu da TV Cultura o jornalista Vladimir Herzog, depois assassinado nos porões do DOI-CODI. Esses foram alguns exemplos de sua dignidade e caráter.
Volto a viajar pelo mundo dos livros. O pouco contato que tive com seus livros foi a oportunidade de ver algumas obras raras de sua biblioteca numa exposição multimídia na Casa Lasar Segall, em S. Paulo. Foi a coisa mais bonita e emocionante que pude ver e apreciar em matéria de livros. Era mais um gesto de generosidade do dr. Mindlin, abrindo parte de sua biblioteca, para divulgar as “jóias “de sua coleção. Agora, quando inaugurar o seu acervo na USP, com certeza estarei entre seus primeiros visitantes.
Termino esta homenagem, sintetizando o homem Mindlin através de seu “ex-libris” (estampilha colada em cada livro de uma coleção que identifica o proprietário da biblioteca), que contem a frase le ne fay rien san gayeté (não faço nada sem alegria). Os livros foram a alegria da vida de Midlin e, felizmente, muitos outros desfrutarão dessa emoção podendo consultar o acervo da USP.
Esse é um legado para a humanidade.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 21 de março de 2010.
Um comentário:
Li sua matéria e gostei muito.Parabéns.
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