Estava na sala de espera do meu barbeiro, aguardando a minha vez para cortar o cabelo e, para passar o tempo, comecei a folhear algumas revistas. Caiu em minhas mãos uma revista de amenidades, esporte e saúde, aliás, assuntos que não me interessam como leitor. Mesmo assim, como sou um professor ávido em leituras, teimoso, passei a folheá-la.
Lá pelas tantas, encontrei algo que me interessou. Era uma matéria sobre o Pantanal, com o subtítulo “maior planície alagável do planeta, é um dos melhores lugares do Brasil para a observação de aves e animais”. Oba, pensei, até que enfim um assunto interessante. Passei imediatamente a lê-lo. Começava assim: “Certamente você já deve ter lido reportagens sobre o Pantanal localizado no Mato Grosso do Sul, explorado pelo turismo até a última gota. O que a maioria dos brasileiros talvez desconheça é que o Pantanal do Estado de Mato Grosso é ainda mais belo, quase inexplorado e muito mais selvagem”.
A partir daí, o artigo contava as maravilhas do pantanal nortista, transpantaneira e inúmeros outros atrativos. Reconheço a existência dessas maravilhas nesta parte do pantanal. Mas também reconheço neste artigo um princípio de má-fé. E nisso encerra o meu indignado protesto.
Imagino que um leitor desavisado, com certeza, direciona o seu interesse turístico para Mato Grosso pensando na degradação do meio ambiente no sul, trazendo prejuízos incalculáveis para a cultura e para o turismo regional. Mas tudo isso deve servir de alerta e de reflexão para os nossos governantes municipais e estaduais. Depois de décadas da criação do estado, ainda sofremos as agruras da confusão de nomes, um erro congênito que apareceu no Ato Complementar que criou o novo estado em 1977. Depois disso, como diz um velho ditado, “Inês é morta”.
Então, onde está o erro que incomoda tanto a gente de Mato Grosso do Sul? A primeira questão está na própria história e sedimentação do nome de Mato Grosso por 290 anos, e mesmo acrescentando o fatídico “do Sul”, fica difícil separar, para os que não tem o privilégio de morar aqui, os dois estados. Portanto, mesmo com o passar do tempo, continuou a persistir a força do nome “Mato Grosso”. A culpa é dos nortistas e dos desavisados? É claro que não, apesar da sabidamente sagacidade histórica dos políticos nortistas em tirar proveito de crises e dificuldades. É, de fato, uma herança política do velho estado de Mato Grosso.
É difícil admitir, mas a culpa cabe a todos nós, talvez por inoperância ou até comodismo em deixar para políticos e administradores a defesa e o cumprimento de uma estratégia de firmar dentro e fora do estado o nome de “Mato Grosso do Sul”. É bom que se diga, como justa ressalva, que a população sul-mato-grossense já vem se manifestando publicamente em defesa do seu nome. Basta ver em alguma reunião, quando um orador cai na besteira de referir-se de forma incompleta ao nome do estado, imediatamente ouve-se, em tom uníssono, um “do Sul”. Creio que a existência ainda de vozes recalcitrantes na defesa da mudança do nome do estado representa atos contraproducentes de pessoas que não perceberam que “perderam o bonde da história”, e que o momento esta discussão ficou em tempos passados.
Assim, quando leio artigos mal-intencionados denegrindo a imagem do pantanal sul-mato-grossense percebo que a divergência de interesses econômicos ainda está muito presente, e Mato Grosso do Sul não pode deixar de levar em consideração esta situação. Lembro, mais uma vez, da precariedade de uma política estadual em defesa do meio ambiente e sua utilização turística. Isso passa pelo fortalecimento de um turismo intermunicipal, facilitando ao próprio sul-mato-grossense conhecer (para preservar) as suas próprias belezas regionais.
Infelizmente, caiu no esquecimento uma belíssima campanha, em governo passado, com a distribuição de cartazes retratando as maravilhas da nossa pródiga natureza com os dizeres “Isto é Mato Grosso do Sul”. Era um grande começo. Afinal é preciso fortalecer para preservar. E ninguém pergunta qual é o nome da rosa. Não precisa, pois seu poder e sua beleza não estão na palavra, mas no seu significado.
Valmir Batista Corrêa
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