Criei nesses últimos tempos um péssimo hábito de assistir os espetáculos deprimentes da TV Senado. Inicialmente, pensei que fosse uma alternativa saudável para contrapor à mediocridade dos canais comerciais. Esperava ver nesta casa de leis um debate de alto nível sobre os grandes problemas nacionais. Porém, isto não vem acontecendo.
A existência da TV Senado permite a qualquer brasileiro, mesmo distante do plenário, acompanhar como os senadores estão trabalhando e defendendo os interesses país. Será mesmo? O positivo disso tudo é a possibilidade de motivar debates na sociedade sobre a atuação dos políticos em Brasília. Tais debates significam, em última instância, um avanço na prática democrática, demonstrando a importância que adquire para o país as próximas eleições na renovação de nossos dirigentes. Com certeza, será uma grande oportunidade para mostrar o nosso repúdio aos maus políticos, a exemplo de um certo deputado federal que disse a uma emissora de televisão que “estava lixando para a opinião pública”. E, pelo visto, estão mesmo.
Não vou relembrar as graves denuncias contra o Congresso Nacional, desde o mensalão até a farra das passagens aéreas. Mas quem pensava que não mais se espantaria com coisa nenhuma errou, pois o mês de agosto chegou e com ele uma nova saraivada de denúncias. Lembro quando criança que os adultos falavam que agosto era mês de cachorro louco, aliás, tanto é verdade que existe em nível nacional uma campanha de vacinação anti-rábica. Mais tarde, quando estudante de história descobri que este era um mês de tragédias políticas a partir do suicídio de Getúlio Vargas.
Parece que agora o mês de agosto tornou-se o inferno astral do presidente do Senado, José Sarney que está sofrendo 11 pedidos de investigação sobre irregularidades cometidas, entre elas desmandos administrativos, atos secretos, nomeação de parentes, irregularidades na Fundação Sarney, nomeação do namorado da neta. Como é um político sortudo, de atuação que lembra os velhos coronéis da República Velha, com o apoio de Lula (que saudade do velho PT de antigamente) e dos políticos da base do governo, com certeza vai se livrar das acusações. Isso já ficou comprovado pela atuação do presidente da Comissão de Ética que, também debochando da opinião pública, mandou arquivar as referidas acusações. Mesmo assim a cada instante novas denúncias aparecem na imprensa.
Acrescenta-se nesta degradante situação a troca de palavrões e gestos poucos civilizados entre os senadores Renan Calheiros e Tasso Jereissati, divulgada na televisão ao vivo e a cores. Penso até que em muitas residências os pais mandaram seus filhos saírem da sala para não presenciar esses péssimos exemplos.. É claro que eles feriram o decoro parlamentar e ficaram sujeitos à cassação de seus mandatos. Como estamos no Brasil, ficou “tudo dantes como no quartel de Abrantes”. Depois ocorreu outro fato inusitado durante um discurso do senador Pedro Simon, quando foi surpreendido por Fernando Collor, aquele mesmo, que com o seu olhar insano mandou o velho guerreiro engolir e digerir suas palavras. Pobre Simon, apenas disse ironicamente que ficou com medo daquele olhar maligno.
Se você pensa que acabou, ledo engano. Tem mais. A mais recente situação constrangedora foi a reunião da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania para ouvir a ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira, sobre uma reunião que teve com a ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, sobre investigações da Receita sobre um filho de Sarney. Não deu outra. Foi mais um espetáculo deprimente, mostrando o baixo nível e despreparo dos senadores. O que ficou, pela segurança da exposição de Lina Vieira, foi a certeza da existência do referido encontro. A pergunta que fica é que mesmo não havendo nada de irregular, por que a ministra insiste em afirmar que não houve o encontro? Esta mania da ministra desmentir fatos comprovados já está recorrente e chato. Foi o caso da interferência na Anac, da feitura de um dossiê contra FHC e Ruth Cardoso, e agora o caso de Lina Vieira, todos desmentidos que não se sustentaram.
Como professor não posso deixar de registrar o currículo da ministra lançado na Base Lattes, com informações que não se confirmaram sobre sua formação acadêmica. O que falta acontecer mais?
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 23 de agosto de 2009.
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