A nossa passagem por esta vida terrena é muito curta e, muitas vezes, sem qualquer aviso, ela se acaba. E quando isso acontece, somos invadidos por uma extrema tristeza e uma sensação de perda irreparável, mesmo sabendo que a morte é a única certeza que temos nesta vida. Aos que ficam por aqui resta apenas aceitar a dor e a saudade e continuar em frente. Felizmente, permanecem as lembranças que nos permitem reviver momentos bons e curtir a ausência de maneira mais serena.
Escrevo estas palavras em homenagem ao meu amigo muito querido Fernando Alves Corrêa, o “Pepeta”. Creio que dos muitos amigos que tinha, pouca gente sabia seu nome de batismo. Pepeta nasceu e viveu para o bem e apesar de crescer e envelhecer conservou sempre um coração de menino.
Esbanjava generosidade no trato com os amigos. Quem teve o privilégio de conhece-lo, conviveu com uma pessoa que, com um sorriso nos lábios, sabia ouvir as pessoas, escutar com dedicada atenção seus problemas e dar uma resposta amiga ou um conselho sensato. Seu rosto estava sempre corado como o de um menino travesso e jamais transparecia estar triste ou aborrecido mesmo quando enfrentava os reveses da vida, as dificuldades, preocupações ou doenças.
O Pepeta que conheci dividia comigo os sonhos e as esperanças de participar de um futuro brilhante para a nossa cidade e ajudar a construir um Mato Grosso do Sul para ser o melhor e o mais desenvolvido estado deste país. Esses sonhos nós compartilhamos juntos quando trabalhamos na Superintendência de Relações Internacionais do governo do estado e também na Radio de TV Educativa. E ali solidificamos uma bonita amizade como poucas que temos nesta vida.
Pepeta tinha um companheiro inseparável, o violão, a ponto de muita gente achar que o instrumento já estava incorporado como extensão natural de seus braços e mãos. Não se concebia Pepeta sem o violão e nem sem a alegria que eles juntos significavam aos amigos, às festas e comemorações. Aonde Pepeta chegava havia muita “cantoria”, prazer e alegria. E registro aqui que nunca o vi brigar, levantar a voz ou ofender alguém, ainda que tivesse motivo.
Pantaneiro de Aquidauana, Pepeta quando jovem, lá pelos anos 60, fundou um conjunto musical na onda da “jovem guarda”. O nome do conjunto, incorporado por parentes e amigos, era bem a cara do Pepeta: “Os Brincalhões”. Fizeram muito sucesso na região, gravaram discos, incluindo composições próprias e circularam por toda a região pantaneira, como a participação de uma grande temporada no Clube dos Sargentos da Marinha em Corumbá.
Pepeta trabalhou no Mobral, onde criou e desenvolveu um teatro de bonecos para divulgar e promover a grande mobilização para a alfabetização que o governo incentivou nos anos 70. Numa Kombi, com o seu espetáculo teatral, levava alegria e conscientização às crianças sobre a importância da alfabetização, viajando por todo o sul do estado.
O talento do Pepeta não se traduziu apenas em música e teatro, mas também na capacidade de escrever com sensibilidade. Publicou os livros “Um pouco da vida de Nhô Chico o pantaneiro”, “O tesouro de Xeres”, “Os deuses da Bíblia”, “Os deuses do amor”, e “De Javé a Jesus”, trabalhos que registraram memórias, histórias, conhecimento profundo e curiosidades bíblicas, e discussões e especulações inteligentes sobre a vida extraterrestre. Pepeta aderiu à Internet e lançou um “blog” de grande sucesso, muito visitado pelas suas informações, curiosidades e, sobretudo, pela simpatia que ele inspirava nos amigos e conhecidos. Nesses últimos tempos era comum ver o Pepeta circulando em sua “Biz” pela cidade e festejando sua recente aposentadoria, alcançada depois de muitos sacrifícios.
Estava em Aquidauana, sua cidade amada, revendo amigos e parentes queridos e, como sempre, com seu violão, passou a noite cantando e alegrando a todos. Na manhã do dia seguinte, véspera do dia do pais, “Pepetinha” (como eu particularmente gosto de chama-lo) alçou seu último voo como um passarinho para um outro plano de existência: o mundo das saudades e das recordações.
Mas, de uma coisa eu tenho certeza: se aqui na terra o violão do Pepeta silenciou, lá no céu os anjos já formaram uma roda para ouvi-lo tocar e cantar pela eternidade afora...
A perda de um ente querido é como perder uma parte de nossas próprias vidas e isso me faz lembrar do poema de John Donne que escreveu: Não perguntes por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti...
Pelo Pepeta os sinos dobram de alegria, pois haverá festa no céu....
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 16 de agosto de 2009.
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