terça-feira, 5 de maio de 2009

Réquiem de um velho guerreiro (*)

A política sul-mato-grossense está mais cinzenta. É claro, a política com “P” maiúscula, séria, honesta e compromissada com o bem estar da população e com a justiça social. Morreu no dia 11 de novembro, aos 80 anos, o velho guerreiro trabalhista Jonas de Souza Ribeiro. Homem simples, de caráter e generoso com a população pobre e necessitada, “Joninha”, como era chamado carinhosamente pelos amigos, deu dimensão e seriedade à política corumbaense. Soube como ninguém ser um personagem histórico do seu tempo e de suas crenças políticas e sociais.

Nascido em Cáceres, hoje estado de Mato Grosso, militar, chegou a Corumbá por volta de 1953, já civil e em busca de emprego. Com ajuda de amigos entrou nos quadros da Companhia de Navegação da Bacia do Prata como marítimo. Junto com as suas novas atividades profissionais, nasceu também uma liderança classista, militando com intensidade no sindicato dos marítimos, uma das mais aguerridas entidades de trabalhadores portuários de Corumbá. Foi um período de lutas trabalhistas e greves que, com certeza, assustava a direita corumbaense, não se esquecendo que em Corumbá assentavam-se bases militares do exército e da marinha. Ao mesmo tempo, iniciou a sua participação na vida política da cidade através de seu ingresso no Partido Trabalhista Brasileiro. À época, era no seio deste partido que se abrigava a esquerda trabalhista, em especial, os portuários.

Com o golpe militar de 1964 houve uma reviravolta na política corumbaense com uma cruel “caça as bruxas” pela direita e pelos novos donos do poder, perseguindo seus desafetos de esquerda. De imediato, foi fundeado em frente ao cais do porto um navio que serviu de prisão, para onde eram levados presos os aliados do antigo governo janguista. Os preferidos neste momento foram os petebistas atuantes da cidade. Não deu outra. O esquerdista Jonas Ribeiro acabou perseguido e preso.

Preso e isolado em uma solitária (cela isolada), depois transferido para o navio, Jonas sofreu torturas psicológicas de seus algozes. Também recebeu uma injeção (nunca soube do quê e por que?) no braço esquerdo, que o deixou por toda vida com um músculo atrofiado. Mesmo depois de solto, não abdicou de suas crenças políticas e partidárias.

Em 1965, o governo militar promulgou o Ato Institucional n. 2, extinguindo os partidos políticos, frutos da democracia populista pós-Getúlio Vargas e, logo em seguida, decretou o Ato Complementar n. 4 que estabeleceu o bipartidarismo político e criou seus filhotes, Arena e MDB. O caminho natural de Jonas Ribeiro foi, sem fugir de suas raízes esquerdistas, abrigar-se sob o guarda-chuva do MDB.

Mais tarde, com o retorno do pluripartidarismo, a sua raiz trabalhista levou-o a ingressar no partido recém fundado por Leonel Brizola, Partido Democrático Trabalhista, sendo em Corumbá um de seus fundadores. Nesta nova vida partidária, foi vereador por dois mandatos e chegou a presidente da Câmara Municipal.

Vivendo da aposentadoria de marítimo, Jonas Ribeiro foi, de fato, “um pai dos pobres”. Andando sempre a pé, com um chapéu marrom que cobria seus raros cabelos, atendia sem distinção amigos e humildes correligionários. Ajudava, como uma missão de vida, as famílias de antigos marítimos, principalmente na orientação e na elaboração de processos para a obtenção de aposentadorias, de pensões de viúvas, e a busca de reajustes desses benefícios. Esta era luta de Jonas Ribeiro, e centenas de famílias ainda vivem financeiramente em Corumbá de seu trabalho generoso, sem pedir recompensas ou dividendos. Foi enfim, um político de uma velha geração que hoje, infelizmente, não existe mais.

O velho guerreiro faleceu em Campo Grande, bem longe da sua querida Cidade Branca.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 14 de dezembro de 2008.

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