terça-feira, 5 de maio de 2009

Catadores de latinhas (*)

A Folha de S. Paulo (19.11.2008) editou em sua página dois, onde reflete o pensamento oficial do jornal, uma charge que geralmente nos leva a rir e a pensar. Mais do que uma piada, a charge reflete o lado tragicômico da realidade brasileira e mostra um Papai Noel com seu trenó enchendo o saco de presentes com latinhas de bebidas vazias. Pobre Papai Noel. Nem ele escapou da crise que nos obriga a rebolar para sobreviver.

Essa crise global, desdenhada pelo presidente Lula como uma “marolinha” passageira, já faz parte de nossas vidas cotidianas há muito tempo e tende a se agravar mais duramente para a população mais pobre.

Catar latinhas usadas de alumínio não é novidade. A novidade é que hoje muito mais gente está fazendo isso. A opção da venda de latinhas usadas, assim como de outros materiais recicláveis, vem sendo uma forma de amenizar a situação de gente que vive de salário mínimo, de desempregados, de moradores de rua e de crianças pobres que fazem de tudo para ganhar uns trocados e comprar doces. O mais comum mesmo é essas latinhas engrossarem os miseráveis rendimentos dos catadores de lixo, credenciados pela prefeitura ou “independentes”, que empurram seus carrinhos pelas ruas da cidade cheios de papelão, embalagens plásticas “pets” e, claro, as hoje muito disputadas latinhas.

Antes, era freqüente ver estas pessoas buscando seu sustento no lixo dos mais favorecidos, exposto nas calçadas antes da passagem do caminhão oficial de lixo, que geralmente passa à noite. Agora, o que se vê com mais freqüência é mais gente se incorporando a esta atividade “econômica”. Isso mesmo. Revirar lixo em busca de preciosas latinhas virou um “esporte” nacional. Apesar de triste, e até humilhante, constitui uma minguada ajuda ao precário orçamento de pessoas que trabalham regularmente, mas sofrem com a perda gradativa do poder de compra de seus rendimentos.

Isso não está restrito a idosos e aposentados. Hoje é comum ver o que se chama “pessoas comuns”, em suas bicicletas ou motos a caminho de seu trabalho, com sacos de plástico nas mãos, pararem ocasionalmente em frente a lixeiras domésticas ou de bares e restaurantes, em busca das latinhas, que são devidamente amassadas com os pés e carregadas em sacolinhas plásticas. Essa colheita complementa os minguados salários e contradiz a propaganda oficial que insiste em divulgar uma milagrosa distribuição da riqueza que está transformando os pobres em classe média. É o novo (e inexplicável) milagre brasileiro do Lula.

Mas que ascensão socioeconômica é essa que ainda obriga milhares de pessoas e famílias inteiras, com muitas crianças, a viverem literalmente nos lixões das grandes cidades? E por que tanta gente, que formalmente pertence à classe média e possui veículo próprio ainda que seja uma velha bicicleta, param nos sacos de lixo para pegar latinhas?

A face mais cruel da nossa sociedade é a alta concentração de renda. Na verdade, é uma insuportável realidade onde poucos têm muito, e muitos têm pouco. Um exemplo está bem perto de nós, na nossa Cidade Morena. É uma mera constatação. Nas ruas centrais da cidade é possível ver carrões em quantidade significativa, verdadeiros objetos de desejo e sonho de consumo de muitos, circulando tranqüilamente. São automóveis luxuosos e muito caros recém lançados nos Estados Unidos, Japão e Europa, que rapidamente entram em circulação pela cidade. Em Campo Grande existem bairros onde as casas ocupam quadras inteiras e tem uma infra-estrutura invejável. Mas basta nos afastarmos um pouco rumo aos bairros mais distantes para ver uma outra cidade, pobre, desorganizada, sem glamour. Essa disparidade, que não é só de Campo Grande, mas da grande maioria das cidades brasileiras demonstram claramente as distorções de um sistema perverso e de uma política demagógica e assistencialista.

Creio que a economia das latinhas não pode ser encarada como uma fatalidade, na qual se justifica a pobreza como parte integrante da natureza humana. Alguns, envergonhados, justificam dessa forma: há pobres e ricos desde que o mundo é mundo! Mas isso é uma escamoteação ou um conformismo inaceitável. É ingenuidade pensar que um dia os homens acabariam com todos os males e com a pobreza humana. È também estupidez pregar a extinção dos ricos, do tipo “abaixo o capital” É preciso muito esforço e muito tempo para mudar toda a sociedade. Mas é possível e necessário tomar medidas que melhorem em curto tempo a qualidade de vida dos mais necessitados, para que tenham dignidade, casa, comida, saúde e educação. São projetos de vida que podem e devem ser projetos políticos de toda a sociedade para diminuir, ao menos, a distância entre ricos e pobres.E essas políticas precisam deixar de ser apenas promessas em dias de campanha eleitoral. Precisam sair do papel e do discurso demagógico.

Se isso ocorre em grandes centros, como a capital de Mato Grosso do Sul, fico a imaginar a situação de abandono de milhões de brasileiros pelos confins e sertões deste país, que todos dizem ser rico e abençoado por Deus. É preciso deixar de lado o individualismo, como filosofia e prática do espírito do capitalismo, e agir para uma criar uma sociedade mais solidária e iniciar um processo de mudança efetiva. Isso passa também por uma mudança de atitudes, porque a miséria e o descaso não são apenas responsabilidades do Estado ou, como mais equivocadamente se diz, dos políticos.

Somos parte de um todo e, por isso, a tragédia de nosso vizinho também nos diz respeito. Acabamos de ver como os brasileiros são solidários com a calamidade Existe o problema da bandidagem, que não deve ser confundido aqui. Uma coisa é ser pobre e necessitado; outra coisa é ser pilantra .

Para começar a refletir sobre o papel importante de mudar nossas atitudes para viver uma melhor sociedade, eu pergunto: você algum dia já cumprimentou um gari do caminhão de lixo ou um varredor de rua? A gente sabe quem é, realmente, a faxineira que limpa nosso escritório ou o pátio da escola de seu filho? Você já reparou na face dos cortadores de grama da avenida Afonso Pena e lhes deu uma “olá”? Você já reparou como essas pessoas são “invisíveis” até para as nossas consciências?

Então, muito cuidado. Nos podemos ser também os invisíveis para os outros, e acabarmos disputando as poucas latinhas que sobram nas lixeiras por aí...

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 28 de dezembro de 2008.

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