segunda-feira, 13 de abril de 2009

Um certo alferes que arrancava dentes (*)

A propósito do feriado de 21 de abril, quando se comemorou o dia de Tiradentes, um dos mais caros heróis brasileiros, pelo seu martírio em defesa do sonho de liberdade, um canal de televisão fez uma enquête aleatória sobre o significado da data e de sua motivação. Muitos, para o espanto geral, não explicitaram a resposta, falando coisas bem simples e monossilábicas. Como é estranho o comportamento humano. Ao não saber as respostas, muito comum em enquête deste tipo, as pessoas sorriem da própria ignorância, em vez de ficarem constrangidas.

A data remonta Vila Rica, cidade importante de Minas Gerias, em 1792. Porém, a história começou em fins do século XVII e primeiras décadas do seguinte. Foi a aventura de sertanistas paulistas que adentram pelo interior em busca do ouro e outros metais preciosos, e esquadrinharam regiões hoje conhecidas como Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás. Por que tudo isso?

Muito simples. A base da riqueza do sistema colonial era o acúmulo de metais e o Brasil era o suporte financeiro do império colonial português, que já tinha em tempos anteriores atingido a sua função social de mercado com o monopólio açucareiro. Além disso, desde 1710 com o Tratado de Methuen, quando Portugal ficou atrelado e dependente da Inglaterra (foi um acordo em que Portugal comprava tecidos ingleses e, em contrapartida, vendia cortiça. Advinha quem saiu perdendo?). O negócio foi tão desfavorável que estudiosos chegam a afirmar que a Revolução Industrial inglesa foi financiada pelo ouro da colônia brasileira.

Mas a exploração aurífera foi diferente de região para região. A descoberta de ouro na região das minas gerais, provocou o medo da metrópole portuguesa de perder uma parte de uma porção da colônia, então fortalecida pelas novas descobertas. E, como estratégia de controle, estimulou a migração de portugueses para a região para competir com os paulistas, resultando daí a guerra dos Emboabas. Além disso, havia dificuldades de exploração, exigindo o desenvolvimento de novas técnicas para esta atividade. Já em Cuiabá, o ouro encontrado era de aluvião, ou seja, de fácil acesso na superfície. Assim, foi comum num tempo não muito distante, após as chuvas, crianças correrem nas enxurradas em busca de pequenas pepitas de ouro.

Mas, nas últimas décadas do século XVIII em Minas Gerais a situação estava difícil para seus moradores, pois o auge do ciclo do ouro já estava se exaurindo e aumentado o volume de endividados. A forma de arrecadação era estabelecida pela quinta parte do total explorado pela economia mineira. Mas com a sua decadência, a administração portuguesa estabeleceu como parâmetro do “quinto” a etapa de maior arrecadação de impostos.

A insatisfação de seus moradores e endividados aliou-se a estudantes e intelectuais, com novas idéias, algumas republicanas, mas perigosas para a sobrevivência do Estado Português, sendo uma das mais perigosas a declaração de independência das colônias americanas. Nesse quadro se insere a figura do alferes da Companhia de Dragões Joaquim José da Silva Xavier que, quando jovem, aprendeu o ofício de tirar dentes. O alferes começou a fazer propaganda libertária, juntando-se a outros que também embarcaram nesta aventura conspiratória. Entre eles, encontravam-se militares, religiosos, juristas e poetas que pretendiam então iniciar uma rebelião, depois conhecida como Inconfidência Mineira. Para conquistar o apoio popular, a data escolhida para deflagrar o movimento foi a da cobrança dos impostos atrasados, chamada “derrama”. Mas a surpresa, estratégia importante para o sucesso desse movimento, foi desfeita com a denúncia às autoridades por um dos envolvidos. Este traidor, mais conhecido na história brasileira, não agiu sozinho. Nos “Autos da Devassa”, volumoso inquérito sobre a inconfidência, apareceram outros personagens que também delataram o movimento. Contudo, o Joaquim Silvério dos Reis levou a fama maldita sozinho.

Começou então uma brutal repressão. Tiradentes foi preso no Rio de Janeiro, onde também foram transferidos os demais presos de Minas Gerais. Antes da transferência, morreu em Vila Rica o poeta Cláudio Manuel da Costa, suicídio, segundo a crônica oficial, hoje contestada (na recente ditadura militar brasileira muitos militantes de esquerda foram assassinados sob a cortina de suicídio).

Depois de três longos anos, período que durou o inquérito, os prisioneiros tiveram seus bens seqüestrados e suas famílias na miséria, e foram degredados para a África. Somente Tiradentes, que no processo assumiu a responsabilidade de tudo, por ordens de Maria I, foi enforcado e seu corpo esquartejado.

A imagem de Tiradentes, barbudo, lembrando a figura de Jesus Cristo, foi uma criação posterior dos construtores do regime republicano que necessitavam de heróis para a nova situação política brasileira. Mas isso é uma outra história.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 15 de junho de 2008.

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