segunda-feira, 13 de abril de 2009

"Perco a cabeça, mas não perco o juízo" (*)

Com estas palavras corajosas a ministra Marina Silva comunicou ao presidente Lula a sua saída do governo. Entretanto, o fato de não solicitar a sua exoneração, mas apenas uma simples comunicação de sua saída, foi sem dúvida, uma atitude altiva, porém tardia. Foi a velha história da morte anunciada, que deixou o presidente bravo e constrangido.

Apesar da sua frágil figura física a ministra tinha uma forte imagem no exterior, sendo desde o início uma vitrine positiva do governo nas relações internacionais. Representava com firmeza a defesa histórica dos princípios de defesa da política ambiental do velho e aguerrido PT de outros saudosos tempos. Com isso conquistou poderosos adversários dentro do próprio governo que comungavam com interesses políticos e econômicos divergentes da ministra. Entre a defesa de sua história e os novos tempos e novos aliados, o go-verno optou pelos segundos.

Na verdade, houve uma curiosa junção de interesses divergentes, formando um arco de alianças que gravita da Casa Civil e do Ministério da Agricultura aos governadores e políticos. Encerrava-se assim, de maneira melancólica, uma etapa do governo lula-petista, ficando para trás os sonhos acalentados desde a luta contra a ditadura, restando algumas frustrações e mais desafios. Mas, com certeza, o prestígio popular do pre-sidente Lula e os sucessos na área sócio-econômica contrabalançarão o peso desta perda ministerial.

É bom que se diga que grande parte dos ministros que iniciaram o governo em 2003 não resistiu às pressões políticas e às mudanças do neo-lulismo a partir de surpreendentes alianças com segmentos mais à direita. Assim, também não havia mais espaço para esta professora secundarista de história, órfã de mãe aos 16 anos, que trabalhou como doméstica, foi alfabetizada pelo Mobral, fez supletivo e formou-se na Universidade Federal do Acre. Foi eleita (sempre a mais votada), vereadora de Rio Branco, deputada estadual e senadora em 1994, sendo reeleita no mandato seguinte. Envolveu-se com as Comunidades Eclesiais de Base e na luta dos seringueiros. Com Chico Mendes, o mártir da floresta, ajudou a fundar a CUT no Acre. É filiada ao PT desde 1985. Com tal trajetória histórica credenciou-se para participar do governo que se rotulava de esquerda. No entanto, após sucessivas derrotas, assustando as camadas conservadoras brasileiras e o mercado internacional, Lula, no final de sua vitoriosa campanha, lançou mão do documento pouco lido chamado “Carta aos Brasileiros”, tranqüilizando os seus opositores.

O calvário da ministra começou então desde o primeiro ano de governo. Foi uma sucessão de humilhações e constrangimentos. Perdeu a briga para a liberação dos transgênicos de interesse do agronegócio, com a MP que liberou o comércio de soja transgênica. Neste rastro, o Congresso também aprovou a Lei da Biossegurança sobre a liberação dos transgênicos. Foi enfim uma festa. Mesmo assim a ministra esperava um apoio do governo na sua luta em prol do estabelecimento de uma política ambiental para o país. Ameaçava pedir demissão, mas continuava firme do cargo. A partir de então, continuou a sofrer uma sucessão de derrotas e colecionou adversários com sua obstinação na política ambiental.

Teve tímidas vitórias, é verdade, como a diminuição do desmatamento da Amazônia, mas perdeu para o próprio governo que editou a MP da grilagem que, em síntese, aumentava o limite de área possível de concessão para o uso rural, sem licitação, na Amazônia Legal. Com a prática usual do governo em relação a sua ministra, Marina Silva só ficou sabendo do ato governamental após a sua edição e encaminhamento à Câmara dos Deputados.

Depois, Marina Silva desenvolveu um grande embate com a Casa Civil e com empreiteiros, retardando ao máximo as licenças ambientais para a instalação de hidrelétricas na região amazônica e para a transposição das águas do rio São Francisco. Neste momento, talvez a ministra não tivesse percebido ainda que os tempos eram outros e que a sua atitude contrariava os interesses governamentais, chegando a ponto da ministra Dilma Rousseff afirmar que o licenciamento ambiental era um entrave ao desenvolvimento do PAC. Parecia que o desgaste político levaria a uma demissão política. Mas a ministra teimava em manter a sua seringueira plantada no ministério.

Porém, agora, mesmo ocultando publicamente o motivo de sua saída do governo, tudo indica que a gota dágua foi a indicação do brasileiro com sotaque americano, ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, para a coordenação do Plano Amazônia Sustentável – PAS (aquele mesmo que antes de ser ministro chamou o governo de o mais corrupto da história). Magoada com a surpresa desagradável da notícia (e da ironia do presidente em chamá-la de “mãe do PAS”), considerou esta deselegância demais para a sua “paciência cívica”.

O impacto internacional foi imediato com a imprensa estrangeira dando destaque à demissão da ministra. O The Independent, periódico britânico, só para citar um exemplo, chegou a afirmar que a saída da ministra Marina Silva foi um “golpe para o planeta”. Isso é só o começo. O governo agiu rápido escolhendo para o lugar, o secretário estadual de meio ambiente, Carlos Minc.

Agora é esperar. O desafio continua na mesa.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 18 de maio de 2008.

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