O recente falecimento do senador Jefferson Péres (23.5.2008) trouxe uma profunda tristeza para os que acompanham a política brasileira. Digo, política em sua essência moral e ética. Era uma flor de lótus em meio ao lodaçal, ou seja, um homem de caráter e honrado que dignificava o tão decadente e desacreditado Congresso. Enfim, uma referência moral do cenário político nacional. Líder do PDT no Senado, morreu aos 76 anos ainda no vigor de um combatente intransigente das causas democráticas.
Ainda jovem, em 1952, participou em seu estado, Amazonas, da campanha “o petróleo é nosso”, luta nacionalista que envolveu todo o país na defesa da exploração dessa riqueza brasileira. Ainda no seu próprio estado, desenvolveu estudos universitários, formando-se em 1959, em direito, na Universidade do Amazonas. Passou então a exercer a docência na Faculdade de Ciências Econômicas do Estado do Amazonas, e depois, já como professor titular na Universidade do Amazonas, aliando o magistério com atividades jornalísticas. Ampliando seus estudos, formou-se em 1967 em administração de empresas, pela Fundação Getúlio Vargas. Nesse período também exerceu inúmeros cargos de confiança no governo e em instituições no estado.
Com o sucesso de sua carreira universitária, administrativa e jornalística, o caminho natural a ser seguido por Jefferson Péres foi o político-partidário. Assim, em 1988 foi eleito para a Câmara de Vereadores de Manaus e reeleito para mais um mandado em 1992. A sua atuação entre os vereadores amazonenses permitiu galgar vôo mais alto, sendo eleito em 1995 para o Senado Federal, e reeleito para mais um mandato. Até então, era um político de dimensões regionais, praticamente desconhecido da política brasileira. Eleito pela legenda do PSDB, mas sendo um crítico dos caminhos tomados pelo governo FHC, passou, a convite de Leonel Brizola, para o PDT, onde se tornou líder de bancada.
De estatura baixa, franzino, sem ser um tribuno empolgante, Jefferson Peres começou a conquistar o seu lugar na tão desgastada política brasileira, por sua postura republicana e ética. Assim, mesmo filiado a um partido considerado da base aliada do palácio do Planalto, Peres teve sempre uma atitude ácida e crítica em relação ao governo Lula. Desse modo, usando como uma de suas principais bandeiras políticas a defesa visceral da ética, conquistou a admiração de muitos no Congresso Nacional e extrapolou para todo o país, mas fazendo também adversários incomodados com sua postura parlamentar. Além de um porta-voz dos interesses de sua Amazônia, Pérez foi membro do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, onde foi relator do processo que culminou com a cassação do ex-senador Luiz Esteves.
Chegou a dizer na tribuna do Senado que a “crise ética não é só da classe política, não, parece que ela atinge grande parte sociedade brasileira”. Esse pensamento refletiu, sem dúvida, a desesperança no futuro político brasileiro, tanto que também anunciou em discurso o seu abandono da política. Não deu tempo.
Em 2006, nas eleições presidênciais, mesmo tendo consciência da forte candidatura de Lula à reeleição, em defesa de seus princípios partidários candidatou-se a vice-presidente na chapa do também senador Cristovam Buarque.
A sua trajetória política foi um exemplo, vindo a juntar-se a grandes outros políticos que dignificaram a história política brasileira. Foi, enfim, um homem diferente de seu tempo, fiel aos seus princípios, sozinho em sua luta, como um Dom Quixote, sem alinhar-se a ninguém. Descansou Jefferson Peres de sua tenaz luta. O Brasil empobreceu e o Congresso perdeu um de seus poucos baluartes.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 01 de junho de 2008.
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