segunda-feira, 13 de abril de 2009

Cidade dos Meninos de Corumbá

A colonização do Novo Mundo pelos exploradores ibéricos, espanhóis e portugueses, sempre veio acompanhada pela atuação de ordens religiosas. A participação desses religiosos foi tão importante que se tornou, de forma estratégica, na linha de frente da colonização. Foi uma fase de "amansamento" e cristianização dos nativos em especial pelos jesuítas e que transcendeu, com outras ordens, após a sua expulsão dos impérios coloniais pelo ministro português Marquês de Pombal.

Dentro desta ótica, é que se encontra a história do avanço dos europeus pela região oeste brasileira, depois conhecida como Mato Grosso. O avanço dos espanhóis pelo rio Paraguai em direção às minas de Potosi deixou, com certeza, rastros pela região, com a formação pelos jesuítas da missão de Itatim nos pantanais de Corumbá.

E assim evoluiu entre conflitos e acordos a história da região mato-grossense. Mais tarde, já na administração de Luiz de Albuquerque, capitão general da capitania de Mato Grosso, contou com os franciscanos na região da fronteira com os espanhóis com a fundação da missão de aldeamento de índios no região de Albuquerque.

Pois bem. O tempo andou até a chegada de um grupo de padres salesianos em Mato Grosso em 1894. Esses missionários partiram do Rio da Prata, subiram pelo rio Paraguai, passaram por Corumbá e instalaram definitivamente em Cuiabá. Foi nesta capital que centraram os seus maiores esforços em seus objetivos de catequese às tribos indígenas da região norte. Passaram a agrupar os índios em aldeamentos agora chamados colônias e não mais missões, onde praticam o ensino religioso, alfabetização, trabalhos manuais e o habito de vestir roupas. Ainda em Cuiabá, instalaram o Liceu Salesiano, com grande influência na educação local e construíram o Observatório Metereológico D. Bosco, entre outras atividades.

Depois, em Corumbá, a segunda cidade do estado, e a mais importante região portuária da fronteira, com uma extraordinária movimentação de navios mercantes voltados para a importação e exportação de mercadorias, os salesianos fundaram o Colégio Santa Teresa. Já em 1908, um documento registrava o seu funcionamento, com internato e externato, com curso elementar e comercial, com uma média de 150 alunos.

O Colégio Santa Teresa tornou-se um ícone da educação na fronteira oeste, formando gerações e gerações de jovens, inclusive figuras que adquiriram projeção nacional como, por exemplo, o ex-ministro do planejamento Roberto Campos, o ex-embaixador Mario Calábria e o herói socialista Apolônio de Carvalho. Até hoje, a escola vem cumprindo o seu papel de contribuir para a educação dos jovens corumbaenses.

Porém, a implantação de uma escola especial e marcadamente humana e solidária, projetada por um jovem idealista, transformou-se numa das mais significativas experiências educacionais do centro-oeste brasileiro e, infelizmente pouco conhecida e estudada. Esta experiência, tão cara aos corumbaenses, é a Cidade Dom Bosco e não pode ser dissociada do seu idealizador padre Ernesto Sassida.

Ainda jovem, esse seminarista italiano chegou ao Brasil para completar seus estudos em Cuiabá e São Paulo. Em 1940, chegou a Corumbá como professor do Colégio Santa Teresa, onde ficou por alguns anos. Nesse período, extrapolando os limites dos muros da escola, interagiu através da organização de atividades esportivas e festas religiosas com a população pobre da periferia da cidade, marcadamente na região fronteiriça com a Bolívia. Mais tarde, em 1950, retornou de forma definitiva a Corumbá como sacerdote e professor, fundando também a União dos Ex-alunos Salesianos de Dom Bosco. A partir de então participou de várias atividades de organização comunitária, como escolas, organizações solidárias de jovens carentes, entidades femininas, centro esportivo entre outros.

No final da década de 50, Sassida começou um amplo levantamento da população e de seus miseráveis barracos na região da Cidade Jardim (onde hoje se localiza o Bairro Dom Bosco), percebendo a necessidade de uma escola que tivesse a função educacional e assistencial. Em abril de 1961, implantou uma escola em um barraco cedida por uma moradora, constituindo-se na gênese da Cidade Dom Bosco que, 7 anos depois se transformou em ginásio estadual. Por essa época, carente de recursos para atender a dimensão educacional e social da escola, Sassida empreendeu um arrojado projeto no exterior chamado "Adoção à distância", uma idéia simples que deu muito certo. Significava ter pessoas no exterior que "adotassem" um estudante carente com uma bolsa que suprissem suas necessidades de sustentação na escola, inclusive roupas e alimentos. Hoje, a Cidade Dom Bosco está consolidada, com inúmeras atividades sociais, tornando-se um dos patrimônios mais significativos da cidade de Corumbá.

Segundo o jornalista corumbaense Schabib Hany, esta "obra social que atravessou cinco décadas sem perder a ousadia, sem perder o pioneirismo, sem perder a idéia-motriz de sua gênese: o amor como instrumento de integração social de expressiva parcela da população de uma das mais ricas regiões do planeta".

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 11 de maio de 2008.

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