segunda-feira, 13 de abril de 2009

A assustadora economia do rabo de cavalo (*)

Existe um ditado antigo que diz “é mais cego quem não quer ver” e é recorrente na história do Brasil. As coisas acontecem e desacontecem, trazendo transtornos e muitas vezes prejuízos para a população. Parece até um “karma” de um povo que procura atos milagrosos e milagreiros para resolver seus problemas do cotidiano, e quase sempre relacionados com a vida econômica do país.

Numa história não muito distante, durante a ditadura militar, vendeu-se à população um “milagre brasileiro”, em que um mago da economia dizia que era preciso fazer “crescer o bolo para depois dividi-lo”. Era uma cortina de fumaça que enchia as burras dos ricos e achatava o poder de compra de funcionários e trabalhadores em geral. Isso sem falar da expansão da pobreza. Olha que este discurso era defendido por expressivos segmentos da população, que não olhavam embaixo do tapete, onde se escondia uma brutal repressão aos opositores do regime.

Depois, já nos tempos da democratização veio a falácia do Plano Cruzado e o congelamento de preços. O que se viu foi uma loucura coletiva, euforia e loas à forte valorização da moeda brasileira. Chegou-se ao ridículo de pessoas ludibriadas transformarem-se em “fiscais do Sarney”. Teve o caso de um sujeito, que deve estar até hoje escondido embaixo da cama com vergonha, que arrogando-se de autoridade fechou um supermercado que tinha alterado os preços de suas mercadorias. Na verdade, os políticos estavam de olho nas eleições, onde o partido do governo teve uma vitória retumbante. Após esta “festa cívica”, como muitos gostam de dizer, veio a realidade triste e cruel. O país teve que suportar uma inflação descomunal, e quem pagou o pato deste engodo eleitoral foi a população em seu conjunto. Até hoje, tem gente lutando na justiça para reaver o que lhe foi tomado.

Mas esta história não serviu de alerta e de lição para o esperançoso povo brasileiro. Veio então um aventureiro prometendo acabar com os marajás da economia brasileira. Deu no que deu. Enquanto uns embarcavam neste discurso perigoso, outros se arrepiavam com medo dos ventos da esquerda (que com o tempo viu-se que era um ventinho e muito do mixuruca), e o jovem colorido ganhou a eleição. Mas um tom cinza atingiu a esperança dos brasileiros, com a medida primeira do novo governo em confiscar a poupança e outros desatinos. Foi deprimente ver nos meios de comunicação uma ministra da fazenda despreparada e gaguejando, tentando explicar o inexplicável que ela própria não conseguia entender. Esta loucura provocou misérias e até mesmo suicídios. Como aconteceu com o malfadado Plano Cruzado, o também criminoso Plano Collor tem produzido até hoje lutas judiciais para reaver os prejuízos daquela época.

Agora, o país passa por uma nova revoada de sonhos e esperanças. É o fortalecimento da economia e uma chamada maior distribuição de renda, com a expansão do crédito e, em conseqüência, o aumento do consumo de bens e de alimentos. Porém, isso também tem os seus limites. Primeiro, foi a liberação de empréstimos aos aposentados mediante o comprometimento de seus parcos salários. Bancos e financeiras foram à loucura, pois geraram incalculáveis rendimentos, com empréstimos garantidos pelo desconto na própria folha de pagamento. Pobres aposentados que agora amargam descontos intermináveis em seus rendimentos, arrastando por meses a desolação, a miséria e a frustração.

Ao mesmo tempo, houve um estouro no crédito fazendo a alegria de empresários e comerciantes. Carros e bens de consumo, com as facilidades do crédito (ampliação dos prazos, juros embutidos e muitas vezes despercebidos), permitiram a sua aquisição por pessoas que até então estavam à margem dessa nova sociedade de consumo. Com essa forma de consumismo, segundo as estatísticas, milhões de pessoas da classe D migraram para a classe C. Parabéns. Mas até quando? Agora, começou a fase chata e desagradável dos pagamentos. E, se não conseguirem manter este mesmo patamar de consumo, inevitavelmente haverá o triste caminho de volta, com inadimplência e quebradeira, como ocorreu no passado.

Isso não está longe de acontecer. Indicadores do Serasa já alertam sobre alto índice de inadimplência nos primeiros meses do ano, em especial, com cartões de crédito e com financeiras. Na verdade, o que aconteceu foi uma perigosa expansão do endividamento da população, com o orçamento familiar em seu limite de esgotamento: aumento dos preços dos alimentos, e gastos cada vez maiores com aluguel, luz, telefone, escola, taxas e impostos, só para mencionar alguns fantasmas que assolam a população brasileira.
Pobre classe média, apesar de seu visível empobrecimento, ainda é a mina dos impostos escorchantes. Porém, nenhum país avança com esse massacre econômico. A inflação está batendo nas portas dos novos consumidores e devedores e, que a gente resista, ela vai arrombar e entrar implacavelmente nos nossos bolsos, sem distinção de A, B, C ou D.

O presidente Lula que vem festejando o crescimento da economia interna promovida pelo seu governo (política do rabo de cavalo que cresce para baixo), já está dizendo que o aumento de preços é responsabilidade de cada um dos brasileiros. Pois sim. Essa história a gente conhece e já viu esse filme.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 25 de maio de 2008.

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