A fronteira com o Paraguai ficou triste e cinzenta no dia 8 de agosto de 2007 com o falecimento, aos 95 anos, de Hélio Serejo. Escritor, poeta, folclorista, jornalista e memorialista, Serejo soube cantar como ninguém as coisas e a gente da fronteira.
Dono de uma vasta produção literária, com 55 livros e outros escritos, participou de inúmeras entidades culturais, dentre elas a Academia Matogrossense de Letras e a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.
Nesta terra de poucas memórias e de muitas mesquinharias, poucos foram render homenagens na despedida e na missa de 7° dia deste brilhante intelectual, nascido em Nioaque e com grande vivência em Ponta Porã desde os dois anos, onde colheu o vasto material para os seus livros. Criou o hábito, que deu frutos no futuro, de ouvir estórias, escrever e guardar. Talvez por ter dedicado a sua vida às lides em defesa da preservação da memória e do cotidiano de sua gente fronteiriça, deixou, por outro lado, de amealhar fortunas materiais. Não é sem razão que um crítico da sociedade sul-mato-grossense, amigo de Serejo, desabafou: “você já viu gente em velório de pobre?”
Convivendo desde criança com uma saúde frágil, soube driblar com perseverança as rasteiras da vida. Seu grande sonho era ser engenheiro, para construir “pontes, pontilhões, estradas e aterros”. Porém, pertencendo a uma família de grande prole, o jovem fronteiriço voltou-se para a carreira militar para conseguir o seu intento.
Assim, ingressou como voluntário no 3° Regimento de Infantaria, da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, onde fez diversos cursos e estudos, visando o seu objetivo de cursar engenharia. Todavia, um fato revolucionário marcante na história brasileira mudou a vida do jovem mato-grossense. Como escreveu Hildebrando Campestrini, Serejo estava na hora errada no lugar errado.
Era 27 de novembro de 1935, quando o cabo Serejo resolveu dormir no quartel, para bem cedo ministrar curso sobre armas automáticas, pois era instrutor nessa área. Improvisou uma cama em frente à cozinha e deixou a sua farda em outra sala. Na madrugada estourou no quartel a Intentona Comunista. Com a derrota dos revolucionários, e sem saber o que estava acontecendo, Serejo não teve tempo de vestir sua farda e foi preso como comunista. Expulso do exército e preso por 6 meses na Ilha das Flores, retornou à casa dos pais. Esta marca Serejo carregou pela vida afora. Quase um ano antes de sua morte, em 17 de novembro de 2006 a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça considerou sua expulsão indevida.
Com a volta à terra natal, exerceu as atividades de fiscal de rendas, escrivão e jornalista, enfrentando os revezes de doenças que continuavam a molestá-lo. Em 1948, após uma estada em São Paulo para tratar de uma grave enfermidade nos olhos, retornou não mais para Mato Grosso, mas para a divisa de São Paulo, na cidade de Presidente Venceslau. Lá viveu com a família escrevendo e publicando seus livros até o início de 2007 quando, muito doente, passou a residir definitivamente em Campo Grande.
Em Presidente Venceslau, jamais deixou de olhar para a sua querida terra, gravando de maneira realista e emocionante, em seus livros, um cotidiano perdido no tempo da fronteira distante. Mas não ficou somente no combate de seus registros.
Assumiu uma tarefa maior em defesa dos interesses de Mato Grosso. Foi uma luta ingente pela construção de uma ponte sobre o rio Paraná, a partir de 1955, para ligar São Paulo à Campo Grande. O velho sonho de construir pontes, interrompido nos idos da juventude, agora reacendia na liderança de uma campanha que resultou ser vitoriosa, mas trazendo no seu rastro uma outra injustiça. Serejo tornou-se presidente da Comissão de Propaganda “Pró-Construção da Ponte sobre o rio Paraná”. O trabalho desenvolvido por Serejo, exaustivo em todos os sentidos, resultou numa coleção de 12 pesados volumes contendo o histórico de toda a luta em defesa da construção da ponte. Tendo início no governo de Juscelino Kubitschek, somente depois de 5 anos de construção, já no governo Jango Goulart, a tão sonhada ponte foi concluída.
Mesmo durante a construção, Serejo manteve viva a ação da Comissão de Propaganda, para que a ponte não sofresse qualquer tipo de paralisação. Era óbvio portanto que, como homenagem à sua luta, a ponte devesse ser batizada com o seu nome. Assim, crescia uma corrente em Presidente Venceslau para essa homenagem. Mas a maldade dos homens é imensa. Aliás, Serejo chegou a ser alertado por Filinto Müller sobre uma desconsideração, segundo Elpídio Reis: “você que é o verdadeiro Marechal da Ponte, merece ter seu nome perpetuado nessa grande obra. Não se admire, contudo se na última hora aparecer um construtor da obra feita e lhe roubar sua grande e merecida honraria.” Veio o golpe militar e com ele o rancor com a fase anterior a 1964. Preterindo o incansável fronteiriço mato-grossense, a ponte recebeu o nome de Maurício Joppert, figura sem qualquer ligação com a obra.
Ainda segundo Elpídio Reis, a insensatez não ficou somente nesta mesquinharia. No dia da sua inauguração, talvez pela generosidade de seu coração, Serejo, sem perceber a dimensão política dos novos tempos como um escritor ingênuo da fronteira e crente no ser humano, colocou num lado da ponte uma enorme placa com um resumido relatório dos atos governamentais que resultaram na construção da ponte, dando ênfase aos atos de Juscelino Kubitschek. Foi o que bastou para irritar os poderosos de plantão. Desse modo, mesmo com convite, Serejo foi impedido de participar do banquete pela inauguração de sua tão sonhada ponte.
Quem sabe, agora, passada a poeira dos acontecimentos e da viagem do velho fronteiriço para as fronteiras do além, a velha ponte poderia resgatar o nome a quem de fato e de direito deveria receber: Hélio Serejo.
Agora, resta aos que querem conhecer os meandros da história e a gente da fronteira, buscar em “sebos” os raros livros de sua grandiosa produção literária. Livros que, em sua maioria, foram produzidos pelo esforço particular e de alguns amigos. Uma justa homenagem, embora tardia, seria municiar todas as escolas do estado com os livros desse velho guerreiro para que a juventude tenha acesso à luta dos que ajudaram a construir a fronteira oeste deste estado. Um primeiro passo já foi dado pela proposta de publicação de suas obras completas pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul.
Dono de uma vasta produção literária, com 55 livros e outros escritos, participou de inúmeras entidades culturais, dentre elas a Academia Matogrossense de Letras e a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.
Nesta terra de poucas memórias e de muitas mesquinharias, poucos foram render homenagens na despedida e na missa de 7° dia deste brilhante intelectual, nascido em Nioaque e com grande vivência em Ponta Porã desde os dois anos, onde colheu o vasto material para os seus livros. Criou o hábito, que deu frutos no futuro, de ouvir estórias, escrever e guardar. Talvez por ter dedicado a sua vida às lides em defesa da preservação da memória e do cotidiano de sua gente fronteiriça, deixou, por outro lado, de amealhar fortunas materiais. Não é sem razão que um crítico da sociedade sul-mato-grossense, amigo de Serejo, desabafou: “você já viu gente em velório de pobre?”
Convivendo desde criança com uma saúde frágil, soube driblar com perseverança as rasteiras da vida. Seu grande sonho era ser engenheiro, para construir “pontes, pontilhões, estradas e aterros”. Porém, pertencendo a uma família de grande prole, o jovem fronteiriço voltou-se para a carreira militar para conseguir o seu intento.
Assim, ingressou como voluntário no 3° Regimento de Infantaria, da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, onde fez diversos cursos e estudos, visando o seu objetivo de cursar engenharia. Todavia, um fato revolucionário marcante na história brasileira mudou a vida do jovem mato-grossense. Como escreveu Hildebrando Campestrini, Serejo estava na hora errada no lugar errado.
Era 27 de novembro de 1935, quando o cabo Serejo resolveu dormir no quartel, para bem cedo ministrar curso sobre armas automáticas, pois era instrutor nessa área. Improvisou uma cama em frente à cozinha e deixou a sua farda em outra sala. Na madrugada estourou no quartel a Intentona Comunista. Com a derrota dos revolucionários, e sem saber o que estava acontecendo, Serejo não teve tempo de vestir sua farda e foi preso como comunista. Expulso do exército e preso por 6 meses na Ilha das Flores, retornou à casa dos pais. Esta marca Serejo carregou pela vida afora. Quase um ano antes de sua morte, em 17 de novembro de 2006 a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça considerou sua expulsão indevida.
Com a volta à terra natal, exerceu as atividades de fiscal de rendas, escrivão e jornalista, enfrentando os revezes de doenças que continuavam a molestá-lo. Em 1948, após uma estada em São Paulo para tratar de uma grave enfermidade nos olhos, retornou não mais para Mato Grosso, mas para a divisa de São Paulo, na cidade de Presidente Venceslau. Lá viveu com a família escrevendo e publicando seus livros até o início de 2007 quando, muito doente, passou a residir definitivamente em Campo Grande.
Em Presidente Venceslau, jamais deixou de olhar para a sua querida terra, gravando de maneira realista e emocionante, em seus livros, um cotidiano perdido no tempo da fronteira distante. Mas não ficou somente no combate de seus registros.
Assumiu uma tarefa maior em defesa dos interesses de Mato Grosso. Foi uma luta ingente pela construção de uma ponte sobre o rio Paraná, a partir de 1955, para ligar São Paulo à Campo Grande. O velho sonho de construir pontes, interrompido nos idos da juventude, agora reacendia na liderança de uma campanha que resultou ser vitoriosa, mas trazendo no seu rastro uma outra injustiça. Serejo tornou-se presidente da Comissão de Propaganda “Pró-Construção da Ponte sobre o rio Paraná”. O trabalho desenvolvido por Serejo, exaustivo em todos os sentidos, resultou numa coleção de 12 pesados volumes contendo o histórico de toda a luta em defesa da construção da ponte. Tendo início no governo de Juscelino Kubitschek, somente depois de 5 anos de construção, já no governo Jango Goulart, a tão sonhada ponte foi concluída.
Mesmo durante a construção, Serejo manteve viva a ação da Comissão de Propaganda, para que a ponte não sofresse qualquer tipo de paralisação. Era óbvio portanto que, como homenagem à sua luta, a ponte devesse ser batizada com o seu nome. Assim, crescia uma corrente em Presidente Venceslau para essa homenagem. Mas a maldade dos homens é imensa. Aliás, Serejo chegou a ser alertado por Filinto Müller sobre uma desconsideração, segundo Elpídio Reis: “você que é o verdadeiro Marechal da Ponte, merece ter seu nome perpetuado nessa grande obra. Não se admire, contudo se na última hora aparecer um construtor da obra feita e lhe roubar sua grande e merecida honraria.” Veio o golpe militar e com ele o rancor com a fase anterior a 1964. Preterindo o incansável fronteiriço mato-grossense, a ponte recebeu o nome de Maurício Joppert, figura sem qualquer ligação com a obra.
Ainda segundo Elpídio Reis, a insensatez não ficou somente nesta mesquinharia. No dia da sua inauguração, talvez pela generosidade de seu coração, Serejo, sem perceber a dimensão política dos novos tempos como um escritor ingênuo da fronteira e crente no ser humano, colocou num lado da ponte uma enorme placa com um resumido relatório dos atos governamentais que resultaram na construção da ponte, dando ênfase aos atos de Juscelino Kubitschek. Foi o que bastou para irritar os poderosos de plantão. Desse modo, mesmo com convite, Serejo foi impedido de participar do banquete pela inauguração de sua tão sonhada ponte.
Quem sabe, agora, passada a poeira dos acontecimentos e da viagem do velho fronteiriço para as fronteiras do além, a velha ponte poderia resgatar o nome a quem de fato e de direito deveria receber: Hélio Serejo.
Agora, resta aos que querem conhecer os meandros da história e a gente da fronteira, buscar em “sebos” os raros livros de sua grandiosa produção literária. Livros que, em sua maioria, foram produzidos pelo esforço particular e de alguns amigos. Uma justa homenagem, embora tardia, seria municiar todas as escolas do estado com os livros desse velho guerreiro para que a juventude tenha acesso à luta dos que ajudaram a construir a fronteira oeste deste estado. Um primeiro passo já foi dado pela proposta de publicação de suas obras completas pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 16 de novembro de 2007, histórico meio de comunicação em que o autor tem uma coluna semanal desde essa data.
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